Na vez do apelo à secessão…

É verdade, tinha na ideia teorizar sobre as perspectivas de sucesso de uma secessão – que não tinha de ser necessariamente pela habitual dicotomia Norte-Sul. A ideia de transformar a Lisboa metropolitana num principado independente, cheio de off-shores intestinas, sempre me pareceu perfeitamente exequível.
Já em tempo de outras faenas declarei-me sobre a possibilidade de acontecer à capital aquilo que Saramago propôs para a Península na sua Jangada de Pedra: devido a imprevisíveis movimento tectónicos, Lisboa começava a ir Mar da Palha fora, rumo a mares de sempre conhecidos, tornando-se numa esplêndida atracção turística para estrangeiros e não só – pois os nacionais, ainda cheios de fado naqueles peitos sempre ávidos de emoção, trocariam de bom grado uma semanita em Cabo Verde ou nas Bermudas por um lânguido giro pelo Bairro Alto e Alfama, com passeios e mariscadas por toda a vasta linha até Cascais, bem perto daquele ponto em que a bruta Natureza rasgara as próprias entranhas deixando para trás uma Sintra eternamente romântica, qual amante que para sempre se despede da bela barca branca, onde segue o noivo…
& toklas.
Quem me inspirou na tal façanha falhada – a de reclamar secessão imediata e declarar a independência unilateral de Lisboa – foi Henrique Raposo, que no absolutamente insuspeito Expresso da semana passada explicava por números as diferenças entre Norte e Sul, ao mesmo tempo que alertava para a eterna inveja gulosa da administração central (que adoraria conseguir ver lucros e prejuízos de certas estruturas públicas equalizados por uma simples média aritmética territorialmente “unificadora”).
No fundo, algum deste software de oposição magnética ao Terreiro do Poço já está há muito desenhado, tendo mesmo sido publicado em 2008 pelo nosso querido Manuel de muito mais paz que guerra, num conjunto de textos feito a meias com o meu igualmente querido amigo António Costa Santos, e que consubstanciava uma amável batalha ditirâmbica (ou antes pelo contrário) entre o Porto e Lisboa.
Combate esse que, obviamente, ganhámos.
Assim, à troca do apelo à secessão (e independência forçada, não se esqueçam…), deixo antes um texto que escrevi para o Porto versus Lisboa.
É um texto sobre uma música.
porto sentido

Trataram a asa do milhafre altivo

Este foi um desafio que à partida me pareceu especialmente difícil: falar de música, duma canção concreta – e ainda por cima tão emblemática como esta. Porque eu, que tenho a mania de ser capaz de escrever sobre seja o que for, nunca escrevi a propósito de qualquer música… Uma nota que fosse!
Depois deste pedido antecipado de sinceras desculpas aos especialistas da área, acho de bom-tom dizer que gosto imenso do Rui Veloso – tanto do artista como da pessoa – e que entendo dispensar ele bem qualquer tipo de encómio.
Já com o Carlos Tê a coisa é um pouco diferente: conheço-o mal, quase apenas de vista, mas (é claro!) acho as suas letras um produto artístico perfeito para os fins em vista – que é o de poderem encantar. E é isso que acontece com a maioria das músicas geradas por estes dois tripeiros dos sete costados (o Rui nasceu em Lisboa mas já nem se lembra disso): tornam-se encantadas.
É assim com Porto Covo e com inúmeros temas do Auto da Pimenta – só para citar alguns dos que mais aprecio. Como será fácil de imaginar, Porto Sentido é para mim uma das que com mais facilidade atingiu esse patamar todo especial. 
Incluída no álbum Rui Veloso, editado em 1986, esta música é considerada por muitos como o mais autêntico retrato/hino da Invicta. E não é por acaso que quando se introduz o seu nome num motor de busca imediatamente surgem vários sítios e blogs que a utilizam como meio para evocar a cidade. Na breve pesquisa que efectuei, muitos dos sítios visitados referiam-se a emigrantes saudosos que, com fotografias suas, exibem assim um razoável portfolio próprio da terra natal. 
E foi aí, num desses apanhados de imagens com Porto Sentido em som de fundo, que vislumbrei o título para este texto. Porque o «ar grave e sério» [ … ] «que nos oculta o mistério/ dessa luz bela e sombria» corresponde a uma imagem genérica dum Porto que existia antes do ano do lançamento deste terceiro LP de Veloso. 
A cidade, como desde sempre a conhecêramos, encontrava-se «assim abandonada», e apresentava um inequívoco «timbre pardacento» um pouco por todo o lado. E sem dúvida nenhuma também mostrava «um jeito fechado/de quem mói um sentimento» – ou até, quem sabe, um determinado e já bem velho ressentimento… 
No entanto, nos tais sítios que visitei, as fotos desfiadas lentamente em PowerPoint ao longo de toda a música mostraram-me um critério de escolha que perseguiu de forma optimista a simples beleza das coisas – apresentando uma série de imagens que contradizem qualitativamente a «altivez de milhafre ferido na asa» com que Porto Sentido termina.
E isto porquê? Porque o original, o modelo por assim dizer plástico da música sofreu importantes alterações desde então. E não só de fundo, mas também de pormenor: além das novas vias, pontes e túneis que melhoraram o tráfego e os acessos em geral, a grande maioria dos monumentos e edifícios históricos foram limpos, a requalificação da zona ribeirinha abriu a cidade ao Douro, a zona dos Clérigos e da Cadeia da Relação está bem mais arrumada, Serralves é um poema urbano, o Parque da Cidade outro – enquanto a Casa da Música veio dar um toque visionário a uma zona outrora dominada pela ilha solitária e claustrofóbica que era a Praça Mouzinho de Albuquerque (vulgo Rotunda da Boavista), tornando-a numa bem mais arejada península. prtvslx
Quem andar hoje pelo Porto certamente ainda conseguirá encontrar «pedras sujas e gastas/ e lampiões tristes e sós». Mas já não encontrará a imagem generalizada que o poema de Carlos Tê pressupõe. 
Encontrará, é garantido, edifícios devolutos que bem mereciam ser recuperados – à semelhança do que já vai acontecendo com muitos outros na baixa da cidade e não só. É possível também que se depare com mudanças que não apreciará por aí além. 
Mas no fim será obrigado a reconhecer que nestes últimos vinte anos a imagem do Porto mudou muito – e para muito melhor. 
Como aliás aconteceu radicalmente com a Gaia ribeirinha – o que altera substancialmente o balanço da oferta visual destas cidades contíguas (embora a melhor vista do Porto continue a ser a que se consegue obter a partir de Gaia, como será eternamente óbvio: «Quem vem e atravessa o rio/junto à serra do Pilar/vê um velho casario/ que se estende até ao mar»). 
Na actualidade – e exceptuando as zonas mais críticas que por norma envolvem bairros sociais – apenas a chamada zona oriental do Porto pode reclamar algum ressentimento justificado. Ainda que seja aí que encontramos a elegância paradigmática do Estádio do Dragão e um dos mais belos edifícios desenhados por Nicolau Nasoni – o recentemente recuperado Palácio do Freixo, agora em estado de absoluta graça.
Nos dias de hoje, o «rosto de cantaria» está definitivamente mais alegre e arranjado, e «quem te vê ao vir da ponte» continuará a ver a cascata são-joanina de sempre, «dirigida sobre um monte/no meio da neblina».
Mas a mais perene imagem desta música, aquela que os portuenses de gema melhor sentem – com destaque para os emigrantes –, encontra-se no início da última quadra do poema: «E é sempre a primeira vez/ em cada regresso a casa»… 
Os portuenses amam esta magnífica canção não só pela beleza intrínseca da sua música ou sequer pelo carácter elegíaco da letra: há nela uma nostalgia associada a um passado facilmente reconhecível e recuperável (o regresso) que a transporta para o domínio da saudade e, consequentemente, do fado. Mas dum fado cheio de profundidade e com bem menos emoção cutânea ou outras pieguices avulsas que por vezes encontramos na chamada canção nacional. 
O altivo milhafre foi tratado da sua asa ferida. 
Bom será agora que o deixem seguir.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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9 respostas a Na vez do apelo à secessão…

  1. E é sempre primavera quando aqui escreves, António Eça de Queiroz, rei absoluto e iluminado do Porto.

    • Uau! Tenho de propor isso ao Conselho de Nobreza (não me parece que apreciem a ideia mas eu vou insistir na mesma, também acho merecido!)
      Tenho escrito tão nada, Manel, foi mesmo uma gracinha para dizer que estou vivo…
      Grande abraço!

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Que coisa boa, António, vir aqui escrever um bocado junto de nós. Gostei muito do texto, nem preciso de lhe dizer, claro.

  3. Ah! Mas só reparei agora que não meti o título do texto original!
    Vou remendar já isso…

  4. Olinda diz:

    bibó Porto. e o AEQ, pois claro! 🙂

  5. nanovp diz:

    Pois tenho muitas saudades, e boas, do Porto “antigo” cantado pelo duo Tê/Veloso, e do “novo” Porto que surpreende sempre…

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