Nada mais será

 

 

 

Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (Paris, France)

Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (Paris, France)

Sento-me aqui à lareira para tentar aquecer este frio imenso que há em mim. Sei bem que as brasas se fazem cinza para mim. Desde que morri, sou todo inverno, sou ártico e sou glaciar. É assim a morte. Uma saudade de pedra, uma tristeza plumbea e um coração dormente.

Sento-me aqui, costas voltados para o que já foi e penso-lhes a alma. F. com o peso do Mundo aos ombros, olhar perdido no ontem, amanhãs esquecido na dor, enegrecida para o resto da vida.  J. feita da angústia atormentada que era também minha, filha de um dever calvinista que me roeu por dentro e de mil beijos que ficaram por dar. E S., a única que no meu sonho de morto parece querer os meus olhos. S. a quem não cheguei a ouvir a voz, S. filha da doença que me levou, S., visita assustada do meu quarto sem luz.

Sento-me aqui e grito para sair de mim. Grito tréguas de nevoeiro, grito coitos de silêncio. Quero sair de mim e voltar a olhá-las só mais uma vez. Que a morte se fenda em dois, o breu se distraia por um curtíssimo momento.

Sento-me aqui e sei que nada disso será. Sei que a morte é afinal isso mesmo. Esta certeza dilacerante de que nada mais será.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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3 respostas a Nada mais será

  1. Olinda diz:

    belo texto. a ideia da morte potencia-nos a vida. e a vida é criatividade.

  2. Luísa Tavares de Mello diz:

    Estou ao seu lado. Preferi-me pequena como as miúdas do quadro de Degas, com aqueles bibes que a minha mãe me vestia muito brancos e com bordado inglês. Mais bordado inglês, mais nervuras, alguns folhos. Nunca me tiraram o frio. Agora menos ainda. Pairei com eles e com a angústia das dores no joelho que anteciparam o problema reumático. Chamam-lhe doença auto – imune. Acho que agora, sim, estou morta, mas antes, durante a vida, principalmente na infância, morri muitas vezes. É bom, agora, senti-los mesmo quando eles não nos sentem e ouvi-los sem zanga, sem discórdia…

    Não concordo que a morte seja a sua “certeza dilacerante de que nada mais será”! A morte é o castigo por os termos perdido, é ouvi-los sem falar e vê-los sem que nos olhem. Será para sempre assim?

  3. nanovp diz:

    Belo texto! Agora tive de por um casaco por causa do frio….será que a morte tem de ser sempre fria?

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