O Amor em Natalie

Que o amor é louco já se sabe, e que o é até ao limite da loucura. Que é incompreensível, isso também não é difícil de entender. À construção racional do castelo que é em parte o Homem, o amor vem derrubar todos os alicerces, tornando a existência periclitante, o tempo elástico, os sentimentos desconhecidos.

Que o amor marca sentimo-lo na pele, nos sulcos marcados na superfície do corpo. Também na alma o sentimos, em acção ou memória, porque o amor tem história, e temos, dentro de cada um, uma história de amor.

Que o amor tem tempo pressentimos pela saudade. Que nunca morre percebemos ao vislumbrar um novo, que é sempre o mesmo.

Que é omnipresente sabemos, mesmo quando não o sentimos, pelo olhar do amor nos outros.

Eu ontem vi-o. Ao amor. Nos olhos de sonho da Natalie, trespassados pela lente de Kazan.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a O Amor em Natalie

  1. Olinda diz:

    agora fiquei com o sorriso em bicos de olhos. 🙂

  2. sensibilidade meu caro, sensibilidade…

  3. Grande filme, belo poema, que bonita homenagem, gostei muito, Bernardo.

    • nanovp diz:

      Por total acaso, (e não é sempre assim?), revi o filme e fui outra vez arrebatado pela poesia, pela Natalie, e pela filmagem. Merecia a homenagem, e ainda bem que gostou.

  4. Muito bem lembrado, Bernardo.

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