O meu arranjinho com o AO

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Tenho um pacto com o Acordo Ortográfico (AO). Apesar de não gostar dele nem um bocadinho, não o maldigo. Em troca, deixa-me escrever à vontadinha, sem as regras e espartilhos que quer impor aos outros. Eu não o chateio e ele não me chateia, é assim que a coisa funciona entre nós. É claro que, de vez em quando, há um ou outro percalço. Há quem o use para me faltar ao respeito. Ou não é uma falta de respeito eu a esmerar-me para usar o melhor do português que sei para um texto a pedido de alguém, e, do lado de lá, o dito voltar para mim todo rescrito à maneira do AO? Nesses casos, afino e tenho de me controlar para não responder à letra. Mas isso foi até conhecer o Ricardo Adolfo. Para quem não saiba, o Ricardo Adolfo é o maior escritor vivo do calão português. O mais exímio malabarista da literatura chunga. E se a quem me estiver a ler ocorrer a pergunta “o que é que este gajo quer dizer com isto?”, só lhe digo, meu caro leitor, que a mestria literária deste português nascido em Luanda está para os subúrbios como a de Mário Zambujal estava para o Bairro Alto.  Dizia eu que era coisa do passado isso de me deixar ficar quando alguém me tentava impingir o AO à força. Agora, a tamanha ofensa respondo com o Ricardo Adolfo, dou-lhes com a sua “Mizé – antes galdéria do que normal e remediada”, a “gaja mais boa da vizinhança”, dou-lhes com o seu recentíssimo “Maria dos canos serrados”, a “história de uma moça de má rés de Rio de Mouro que se torna pior ainda”, “uma reflexão sobre a nova mulher, que não precisa de um Clyde para ser Bonnie”.

Continuam sem perceber o que é que isto tem a ver com o AO? Ora aí é que está: não tem rigorosamente nada a ver com o AO, e por isso é que deve ser usado como arma de arremesso contra todos os fundamentalistas da revisão ortográfica. Querem saber onde pára o português genuíno, o da tradição oral, o que passa de boca em boca pelas novas gerações das classes popularuchas, o que os filhos de um país em crise regurgitam enquanto esperam nas filas do subsídio de desemprego? Chamem-lhe rasca, chamem, chamem-lhe chunga, mitra, ou todos os nomes feios que vos ocorrerem. Como não sou Ministro da Educação e não tenho feitio de tiranete, nunca decretarei a leitura obrigatória de Ricardo Adolfo. Mas já tenho um plano, bem mais modesto mas não menos eficiente, para pararem de me incomodar com o AO: saco de uns parágrafos do Ricardo Adolfo e, zás, espeto-o nas fuças dos prevaricadores. Não acreditam? Então, tomem lá isto:

“Vamos abrir outra garrafa e cheirar o que ainda aí houver, para clarear as ideias. Esperamos que não tenhas tomado tudo, como fazes sempre. E essa é outra coisa que nos deixa ainda mais fodidas. Nós às vezes também fumamos os restos do chocolate ou damos o último tirinho. Mas sentimo-nos mal. Sabemos que não o devíamos fazer. Tu não. Tu nem pensas nisso. Quando vês uma carreirinha de sobra, se for preciso até vais para a cozinha só para não teres de a dividir, como aconteceu no mês passado.

qué que tás a fazer?

tava a cheirar o restinho

vieste cheirar e não me chamaste?

era o meu resto

e não podias dividir?

já tínhamos dividido, tu ficaste com quase tudo e sobrou meia linha pra mim

metade dessa meia dava na boa pra mim

tu fizeste as outras três cavia

isso foi antes

era só um tirinho, nem deu pra nada

deu pra ti, podia ter dado pra mim

mas tu já tinhas dado, dama

tu não me dames

amanhã há mais, prometo, era só uma miséria

é bom caja, pobre

não me chames pobre

preto

mulato, se fosse preto matava-me.”

Não chega? Ai não? Então tomem lá mais esta:

“Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.

Há uma série de coisas que são um problema:

1. A tua pessoa;

2. A tua pessoa nunca estar cá;

3. Não termos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;

4. Não termos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;

5. Andarmos totalmente putas da vida porque não temos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca cá está;

6. Não falarmos porque não temos as nossas conversas depois dos orgasmos que não temos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá.”

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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14 respostas a O meu arranjinho com o AO

  1. Luísa Tavares de Mello diz:

    Só me ocorre um comentário: maravilhoso!
    P.S. não dava uma gargalhada há muito tempo. Escrever é triste e ler, às vezes, também. Não foi o caso! A minha pessoa divertiu-se. Obrigada.

    • Diogo Leote diz:

      Cara Luísa, o Ricardo Adolfo também me faz rir. E fazer rir quando se escreve sobre tristes realidades é uma proeza ao alcance de poucos.

  2. Olinda diz:

    viva o acordo no riso em desacordo ortográfico! 🙂

  3. Ou seja, tem de vir um gajo de Loanda para pôr a escrita em dia? Ou a escripta a pau? Ou a pau com a escripta?

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, tu bem sabes que o AO é letra morta em Luanda. E eu a achar que os Palops eram a justificação para o nosso sacrifício. O que nos salva é o nosso querido calão!

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Entre tudo, destaco: “uma refle­xão sobre a nova mulher, que não pre­cisa de um Clyde para ser Bonnie”. Por isso digo ser possível não ter pénis nem inveja. Parabéns.

  5. Mário diz:

    Já se pode dizer este asneiredo (?). Fomos libertados pelo AO? 🙂

  6. riVta diz:

    Oh! my Dog…
    Agora sim. temos uma discussão já velha sobre músicas! Agora teremos outra sobre livros.
    E para não dizeres nada aqui te trago uma jóia!
    http://www.youtube.com/watch?v=KjVGJ3YFDc8

  7. Diogo Leote diz:

    A Sheila Salgado (que tem o pedigree da Carolina) é sempre bem vinda, desde que não passe aqui das traseiras. E “Escarafunchar o mexilhão” é a frase do ano!

  8. nanovp diz:

    Fantástica gargalhada Diogo, uma total surpresa…não sei bem se o vou ler mas valeu o gozo…

  9. Vale a pena leres, Bernardo, para além da escrita hilariante, é um retrato sociológico perfeito das novas gerações dos subúrbios de Lisboa. Experimenta o “Mizé – antes galdéria do que normal e remediada” (quem resiste a um título destes?).

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