O Senhor Doutor Juiz de Barrelas

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Há coisas que não se esquecem – são as boas histórias e esta é uma delas. Passa-se em Vila Nova de Paiva (ajudengado nome, chamou-lhe Aquilino Ribeiro, que no século XIX deram à povoação de Barrelas, transformando-a, até hoje, em sede de concelho) e tem vários fundos morais que quero partilhar. Mas primeiro falo de Barrelas e das suas belezas.

Em Barrelas (procurem nos mapas por Vila Nova de Paiva) existe uma das maravilhas do mundo, segundo o olhar fresco de Malhadinhas, para quem o planeta ia dali até Aveiro, onde comprava o sal que vendia pelas Terras do Demo: a maravilha é a cruz mudéjar, que ele e o povo atribuem a um mítico rei visigótico, mas que é coisa do século X ou XI. No fundo é uma cruz bizantina, de ferro, que foi ali parar sabe-se lá como, e que o célebre maneta, o general Loison dos exércitos de Napoleão, por achar sem valor não saqueou. Vejam aqui a foto:

cruz mudejar

A igreja, que é românica por fora e barroca por dentro, vale a visita, com ou sem cruz. Mas a melhor história da terra é a do juiz. Reza a coisa (que não há de ser lenda, pois mais de três pessoas ma contaram), que um homem se pôs a namorar uma moça toleirona, mas herdeira, com o único fito de lhe sacar o guito. Pois a moça, menos palerma, mais palerma, lá descobriu a baderna e pô-lo a andar, trocando-o por outro melhor, que a queria só por amor. Casaram e foram felizes (não sei se tiveram petizes).

Acontece, porém (estas coisas ninguém sabe ao certo de onde vêm) que o seu marido, numa noite infernal, teve uma dor de dentes descomunal. Sabem como então se tratava um dente? Com um litro de aguardente! Foi assim que o homem foi à taberna, onde, por acaso estava o outro enguiço a jogar. E eis que o outro se quer vingar. Deu portanto o seu lugar no  jogo ao marido da ex-amada, dizendo-lhe para se distrair. E escapuliu-se para a cama da ex-namorada onde, por vingança, e sem nada dizer, com o pretexto de o dente lhe estar a doer, se serviu da ex-amada, que ou gostou ou não deu por nada, confundindo-o com o marido querido, embora o achasse demasiado frio.

Logo o o abominável vingativo, dias depois do ocorrido, gabou-se do sucedido. E cantava dirigindo-se à esposa respeitada, que ficara baralhada com a dita aparição:

Já dormi na tua cama
Já enxovalhei teu brio
Lembras-te quando disseste:
Ai Jesus, que vens tão frio?

Percebendo o que se passava, a mulher que era amada e amava sem reservas o marido (coisa que na Beira é comum e sentido) logo foi de contar ao esposo o episódio quente da noite em que lhe doera o dente. Este marcou duelo, ao pau, navalha e cutelo, e logo liquidou o gabarolas do rival que lhe fizera tanto mal. Ora quem, na discrição, havia de ter visto a ação? Nada mais nada menos (e veem como são elas) que o nosso Juiz de Barrelas.

Testemunhas a preceito e pagas, como é devido, implicaram, com arte, manha e jeito, o nosso bondoso marido. Que levado a tribunal, espera pena capital.

Mas o Juiz de Barrelas era homem bom e justo, e mais do que a função lhe dar o lustro, era muito refletido, tinha tino e era sabido. Cada caso é um caso – eis como pensa. E por conhecer toda a história, e por ter visto o duelo, lavrou a mais célebre sentença:

“Vi e não vi; sei e não sei; corra a água ao cimo; deite-se o fogo à queimada; dê-se o laço em nó que não corre, etc. Por tudo isto e em face da plena provado processo constante, condeno o réu na pena de morte, mas dou-lhe cem anos de espera para se arrepender dos seus pecados. Cumpra-se. O Juiz de Barrelas”.

Pois foi assim que o Juiz, muito senhor do seu nariz, entendeu fazer justiça. Porque a justiça tem de ser moral. E há quem mereça, como o nosso marido, acabar bem, e quem mereça, como o gabarolas vingativo acabar mal.

Publique-se o edital!

E, já agora, outra história do juiz. Diz-se que uma vez um forasteiro encontrou um homem de socos e meias amarelas encostado a um carro de bois e lhe perguntou:

– Eh, homenzinho, onde é que posso encontrar o juiz de Barrelas?

E o homenzinho respondeu:

– Suba essa rua acima e desça a mesma rua abaixo. Onde encontrar um homenzinho, encostado a um carro de bois, com socos e meias amarelas é ai que encontra O SENHOR DOUTOR JUIZ DE BARRELAS!

Querem mais? Venham cá para a semana…

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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5 respostas a O Senhor Doutor Juiz de Barrelas

  1. António Barreto diz:

    Uma estória deliciosa.

  2. nanovp diz:

    Ora era de um juiz destes que precisávamos agora, mas eles não nascem “à balda” nesta terra jà gasta….

  3. Já me ri. Bem contado em ritmado rimado.

  4. Angelina Lemos diz:

    Já conhecia a história do Juíz de Barrelas, mas agora que a contou, recordei-a e achei imensa piada. O meu pai contava-a como certa, quando eu era miúda.
    Obrigada.

  5. Esta história escrita é fantástica, mas quem teve a sorte de a ouvir de viva voz por Henrique Monteiro, poderá considerar-se um privilegiado.

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