Oceano de Tristeza

"O Profundo Mar Azul", de Terence Davies

“O Profundo Mar Azul”, de Terence Davies

Há poucas coisas mais tristes do que a desilusão amorosa de uma mulher. O investimento emocional de uma vida inteira, a paixão finalmente não correspondida, a intolerável barreira de egoísmo masculino – um egoísmo guloso, quase infantil – e o caminho sem regresso que a dependência desse amor implica, como uma morte anunciada cujo veneno permanece sedutor. Ninguém hoje no cinema é capaz de encapsular essa tristeza como o britânico Terence Davies, um dos grandes talentos contemporâneos que quase ninguém conhece. Davies é um britânico de Liverpool – o seu “Of Time and the City” é uma elegia documental à cidade onde nasceu e cresceu – de obra centrada em duas dimensões vitais: as recordações de infância e o sofrimento dos amores adultos. Há duas grandes trilogias no seu trabalho, e a segunda delas, composta pelas obras-primas “Vozes Distantes, Vidas Suspensas”, “Aqueles Longos Dias” e “A Bíblia de Néon” (se não acreditam na grandeza destes filmes, corram a vê-los), é uma peça coral de nostalgia pós-guerra, banhada pela chuva insular, as sombras dos filmes nos grandes cineteatros, o despertar do sexo, a força convocadora da rádio, os fantasmas ora gentis, ora brutais da família, com picos melódicos nas composições de Benjamin Britten e Johnny Mercer e nas vozes de Nat King Cole, Doris Day ou Ella Fitzgerald. É um cinema íntimo, pessoalíssimo, mas a sensibilidade lírica de Davies torna-o universal. É também um cinema fora de tempo e fora do tempo – se estão à espera de acção furiosa, mecânica narrativa, velocidade, esqueçam. Os primeiros dez minutos de “O Profundo Mar Azul” são fulgurantes: através dos longos travellings e da musicalidade de Davies, entramos no coração de Hester Collyer (Rachel Weisz, melhor do que nunca), a frustrada esposa de um juiz que em 1950 se apaixona por Freddie Page (cínico Tom Hiddleston), jovem ex-piloto da RAF, que a arrastará para os abismos da devoção sem retorno. Baseado na peça de 1952 de Terence Rattigan, é triste como uma criança abandonada na neve, e é um dos filmes do ano.

 Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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8 respostas a Oceano de Tristeza

  1. olinda diz:

    fazes uma descrição soberba do que é morrer por dentro de um amor.

  2. Isto está tão bem visto e bem contado, Pedro.

  3. Fausto diz:

    Excelente texto. Vou ver. A rachel weisz é uma beleza! Um abraco e bom fim‑de‑semana. FLC

  4. marie diz:

    Excelente é pouco. Sublime.

  5. Babadinho, agradeço. Vejam o filme, caríssimos amigos e amigas, que a tristeza também conforta.

  6. nanovp diz:

    O “trailer” não me seduziu, mas também não seria por isso que deixaria de ir ver o filme. Agora com este texto tudo muda radicamelnte. E apetece conhecer Davies.

  7. Pedro, belíssimo texto como sempre 🙂
    Vou ver!

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Entrarei no “escurinho do cinema” confiante na sua opinião.

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