Onde são tratadas memórias da vida e luta operária em cidade têxtil – Gouveia

Abel Manta - Fundação Calouste Gulbenkian

Abel Manta – Fundação Calouste Gulbenkian

Num encontro ocasional:

_ Aturas-me para detalhares as lutas dos operários de lanifícios daqui nos anos sessenta e setenta?

_ Quando quiseres; porém, devias conhecer a Maria do Céu, essa, sim protagonista e conhecedora mais profunda.

Quem me respondeu foi a Emília Manta, amiga desde a adolescência.

Como soe afirmar, palavras não eram voadas, surge Maria do Céu Ferreira de Jesus. Foi impressiva a presença – mulher elegante, ponderada, olhos negros reluzindo. Sendo informada de quem eu era e ao que vinha, acordou num encontro a três, pelas cinco da tarde seguinte em casa da Milita, porta à frente da que flanqueia entrada para edifício de granito onde nasceu o tio-avô, o pintor Abel Manta, ícone das artes plásticas nacionais a que Gouveia não regateou tributos como seu filho genial.

Abel Manta - Gouveia

Abel Manta – Gouveia

À hora e dia aprazados, subo os degraus de madeira cheirosa e brilhante pela cera. Logo após, entra a Maria do Céu que tanto me intrigara e, selvaticamente, admirei. Na saleta fresca, decorreu a conversa e, pela ausência de gravador, digitado o ouvido.

“Nasci em Gouveia. Ainda pequena, fui para o “Patronato”, instituição dirigida pela D. Zulmira Bellino, mulher do dono da fábrica de lanifícios “Belina”. Na casa repartida em secções – primeira infância, segunda e jovens adolescentes que não frequentavam a escolaridade/luxo pelos débeis proventos -, eram ensinadas «prendas» femininas da época: limpar, lavar roupa e chão, pô-lo lustroso, bordados, rendas, tricô e outras artes que das meninas fizessem esposas perfeitas e mulheres submissas. Muitas operárias deixavam ali as filhas enquanto labutavam, em pé, oito horas diante das máquinas fabris.

Frequentei o “Patronato” até aos dezasseis anos. Também a JOC – Juventude Operária Católica. A origem social de cada membro determinava estar e percurso, e influiu no meu idear social. Em 1963, por vontade minha, candidatei-me a operária da Sociedade Industrial/Amarantes e fui admitida na tecelagem predominantemente masculina. Ambiente de pessoas conscientes da opressão, repressão e exploração que as vitimava. Solidárias, todavia. Dispostas a emperrar, subtilmente, o sistema, existindo colegas injustiçados. Prova houve com o “trabalho por objetivos”: eram premiados aqueles que muito produziam. Falsa questão, constatámos; trabalhar «corte» liso é rápido, um de xadrez demorado. Horas de labor idênticas, produtividade diferente. Sabíamos que na distribuição dos «cortes» eram jogadas simpatias hierárquicas. Como reagir? _ Simples: somados os prémios e divididos de igual maneira por todos. Entendia, vividamente, num lado estar o capital, no outro a força laboral.

Thomas Deitrich

Thomas Deitrich

Escasseando trabalho, o operário laborava seis dias e ganhava quatro. Na “Sociedade Industrial”, era majorada a repressão se comparada com outras unidades fabris. A adesão à EFTA e a guerra colonial aumentaram vertiginosamente as encomendas, mormente pelo fabrico de têxteis destinados ao fardamento das Forças Armadas. Entre sessenta e sete e sessenta e oito, os patrões chamaram trabalhadores da Covilhã de molde, diziam, a satisfazer a produção. Aumentados conflitos, prática comum trabalhar sob chicote, ameaças e castigos – sendo crianças, duplicados pela ausência de «féria» devida ao descanso compulsivo, pelos pais que sentiam no bolso a falta de ajuda para alimentar as bocas da família.”

Maria do Céu prosseguiu o relato. “O Estatuto do Trabalho Nacional em 1933 introduziu mudanças pesadas – os sindicatos deixaram de ser por classe e passaram a corporativos. Em Gouveia, surgiriam em 1939. Direções fantoches nomeadas pelo governo. Através de esbirros sindicais, todo o ocorrido entre operários era comunicado ao patrão.

Novidade se interpôs a meio dos sessenta: abertura do turno da noite na Escola Industrial que sublinhou a atávica rivalidade entre Seia e Gouveia por, então, ambas as vilas concorrentes em importância desejarem também neste particular a primazia. Na última, o domínio económico e político repartia-se entre Bellinos e Frades (estes, donos das Amarantes). Em degrau seguinte de importância, a família Leitão, também distinta por incentivar a formação dos operários. Facto é os patrões dos lanifícios em Gouveia selecionarem os funcionários candidatos ao ensino noturno: aos preferidos – ‘bem comportados’ (?) – pagavam custas do bilhete de identidade e propinas. Fui preterida. Não desisti: paguei o necessário do meu bolso e, curiosidade, fui a única que terminou o curso com êxito. A entidade patronal não facilitava a vida dos trabalhadores/estudantes – horário por turnos igual ao de sempre. Valeu-me a mãe que trabalhava na mesma fábrica e fazia as noites enquanto eu libertava tempo para as aulas ao trabalhar apenas de dia.

Ainda na década de sessenta, a maciça emigração essencialmente para França. Os homens partiam, as mulheres ficavam, algumas até o marido conseguir lá fora sustento e abrigo. Aumentou, em consequência, a mão-de-obra feminina e operária, nomeadamente na secção de ‘estambre’ tradicionalmente masculina; razão para serem diminuídos os salários.”

A Milita recordou que a vida na fábrica lhe lembrava o filme “O Grande Ditador”. Risível e dramático. Havia saído do Patronato para a “Formação Feminina” na Escola Industrial com equivalência ao quinto ano do liceu. À mãe foi proposto que a adolescente integrasse o quadro técnico do laboratório da “Sociedade Industrial”. A jovem aceitou com entusiasmo pois aplicaria alguns dos conhecimentos da Química aprendida. Ela, empregada, a Maria do Céu, operária. E se eram marcantes as diferenças! A mais ligeira, conquanto não despicienda, era a de existirem duas portas de acesso à fábrica consoante a categoria dos trabalhadores – empregados por uma, a que o patrão utilizava, operários por outra. Nos dias imediatos ao 25 de Abril, seria a última definitivamente encerrada.

A Maria do Céu desfiou, ordenada e objetiva, mais memórias. “ Na Primavera Marcelista foi dada a possibilidade a movimentos de cidadãos de se candidatarem em listas para a direção dos sindicatos. Nos anteriores, pelo descrédito associado, ficaram vagas chefias. Possível, doravante, eleições sem o crivo do Ministro das Corporações. Fui dirigente sindical. À época, na fábrica, a minha categoria era de ‘quadro intermédio’. Ora, tendo concluído o curso industrial e sido alargados os quadros técnicos, indaguei ao patrão, o Engenheiro Frade, porque não fora abrangida. Resposta:

_ Sabe, é solteira, não tem família a seu cargo, et cetera e tal.

Desculpas em farrapos. O cerne estava na minha função sindicalista.

Em Dezembro de setenta e três, a ‘Direcção Sindical dos Lanifícios’ que já integrava a CGTP ainda na clandestinidade, vê-se desprovida de dois membros sem estofo para lidarem com a força dos trabalhadores. No Natal desse ano, acontece grandiosa festa destinada aos trabalhadores das ‘Amarantes’. Brinquedos para as crianças, animação, comezaina. Um ror de despesa explicado pelos números excecionais atingidos pelas encomendas. Não fui. Recusei-me a pactuar com a injustiça patronal de que fora vítima. A 4 de Abril de 1974 fui despedida. No dia 17 do mesmo ano, ocorre nas instalações do sindicato plenário à cunha de participantes; a PIDE envia emissários. Decidido entrarem em greve os funcionários das ‘Amarantes’ e da «Belina» se eu não fosse readmitida. Marcado novo plenário para 28 do mesmo mês e ano. Entretanto já recebera «contra-fé» para me apresentar no Governo Civil da Guarda. Valeu-me estar relacionada com a Juventude Operária Católica.”

25 de Abril. Gouveia, como todo o país, em festa. A Mila lembrou que poucos dias após, juntamente com a Maria do Céu, foram convidadas para reunirem em Oliveira do Hospital com António Campos. Integrar o PS foi a proposta. A Mila recusa, a Maria do Céu aceita. Viria a fazer parte do primeiro secretariado do partido em Gouveia.

Continuaram as vivas lembranças da Maria do Céu. “A 28, o plenário marcado duas semanas antes foi manifestação ímpar. Exigidos aumentos de mil escudos e a minha reintegração. Decididas eleições livres pela vez primeira para a direção do Sindicato. Luta renhida entre as duas listas concorrentes que representavam conceções diferentes da estrutura e objetivos do sindicalismo. A que encabecei ganhou, exceto na Guarda, não sem que antes do acto eleitoral tivesse pedido demissão do secretariado do PS com a finalidade de salvaguardar a minha independência política.

A progressiva descapitalização da Sociedade Industrial/Amarantes, também através de obras públicas inúteis e mal explicadas mas bem apadrinhadas por figurões com relevo nacional, conduziu ao encerramento da fábrica em 1981.”

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Onde são tratadas memórias da vida e luta operária em cidade têxtil – Gouveia

  1. jorge madureira diz:

    A descoberta de mundos e factos desconhecidos, apenas intuídos, foi uma das condições que nos levaram por esses mundos fora…apesar dos Velhos do Restelo!
    De cada vez que passo perto da minha querida Amiga Maria Brojo(Teresa), descubro novos mundos e factos que vão ficando para mim, conhecidos! E o deslumbre é tal, que me consola, me alenta, nestes dias dúbios de esperança, que em especial a nossa classe dirigente, vulgo Políticos, nos teimam em atazanar e enegrecer os horizontes, quase sem solução para nada!
    Por tudo isto não posso passar sem estas descobertas que farei pouco a pouco, para que o conhecimento seja mais efectivo e sentido!
    Amigo Jorge madureira

  2. Maria, preâmbulo a futuras memórias? Well done.

  3. Américo Nunes diz:

    Em geral os historiadores encartadas escrevem apenas a história das classes dominantes. Quando muito enfeitam o contexto social com algumas lutas operárias. Isto é, daqueles que são o maior motor da história. É bom que haja quem acenda pequenas luzes para quando um dia houver justiça se faça luz sobre a verdadeira história. Continua.

    Só não percebo ou então não estou de acordo com a consigna: “escrever é triste”. Pois por mim, por exemplo, escrever dá-me gosto, e depois de um trabalho feito, alegrai.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Grata pela sua reflexão assertiva.
    “Escrever é Triste”, tal como entendo, é prazer conjugado com momentos de solidão onde a escrita liberta e comporta alegre tristeza.

Os comentários estão fechados.