Palmeiras Bravas

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O “Está Escrito” devia aparecer todas as semanas. Houve umas falhas por, olha lá, razões de força maior. Este Faulkner é só um lembrete. Sábado há mais e melhor.

Gostava que lessem.

Charlotte e Henry libertam-se de entraves sociais e familiares – ela é casada e deixa o marido para ir viver com o homem aparentemente sem qualidades que é Henry. Diz Jorge de Sena, tradutor e prefaciador de  “Palmeiras Bravas”, que nesse romance de William Faulkner assistimos à subversiva e “plena realização erótica” de um homem e de uma mulher.

Esta é a história de dois seres humanos que, à ideia de haver sempre um preço a pagar pelo amor, contrapõem um outro horizonte: há sempre o dever de se ser digno do amor.

“Palmeiras Bravas” é a história de uma mulher casada, mãe de filhos, que experimenta um coup de foudre por um homem mais jovem e virgem. Por ele, pelas inúmeras e inexistentes qualidades dele, ela deixa tudo. Escusado será dizer que o que ela sente por ele é também, com uma mais surda violência, o que ele sente por ela.

Quando conheceu Charlotte, o homem chamado Henry era interno de um hospital de New Orleans. Faltava-lhe tudo para o amor. Falta-lhe por exemplo, e dou um exemplo que nada tem a ver com esta história, a argúcia de um Elmer Gantry, herói infame de um filme a que Burt Lancaster deu energia, amoralidade e corpo.

E voltando às primeiras páginas de “Palmeiras Bravas”, no primeiro encontro, Charlotte é igual a toda a mulher que ama. É ela que se interessa por ele, que o ensina a olhar, a prestar atenção, a não se enganar. Toda a mulher que ama é um Karajan de sinfónicas histórias de amor.

Tão desajeitado, Henry nem sabe como há-de arranjar maneira de dormir com Charlotte, como alugar um quarto. Nem sequer sabe como garantir o secretismo, quanto mais o romance. Faça o que fizer, o que faça tem um pé na catástrofe. Há, em certos homens, uma forma de amar as mulheres que é terna e gentil. Têm sorte estes homens: anjos ou porventura uma velha deusa pagã, o que seja, põe-lhes, como ao menino e ao borracho, a mão por baixo. A Henry põe. E lemos, lemos a partida deles, lemos deles a exaltação e aventura, lemos o périplo de sol e neve. Até descobrirmos que, quem a Henry põe, a Henry tira.

Se nunca leram, gostava que lessem.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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11 respostas a Palmeiras Bravas

  1. cc diz:

    Dá mesmo vontade de ler!

  2. É desta: tens que me emprestar.

  3. nanovp diz:

    Pois não li, tenho de ler, e depois deste texto ainda mais vontade há…

  4. Pedro Norton diz:

    porra! é dos faulkner que não li. mas não perde pela demora.

  5. Luís diz:

    Manel: gostei o relembrares este livro. Ele contém não apenas esta, mas uma segunda história (Old Man), ambas extraordinárias. Wild Palms, uma das obras primas da literatura norte-americana do século XX é marcada profundamente pelo período recessivo pós 1929 (Wall Street Crash) e da Grande Seca dos anos 30 (Dust Bowl) e alterna, em capítulos sucessivos, duas histórias (Wild Palms/Old Man). Duas impressivas histórias, ambas entre uma homem e uma mulher onde o sentido do desespero e de ausência de futuro no horizonte, expressam também a ternura humana e a sua sabedoria como a do velho Mississippi e dos seus povos bens presentes.
    Se vale sempre a pena ler (ou reler) este deslumbrante e perturbante Faulkner, nos dias de hoje, vale mais do que nunca.

    • Caro LM,
      é verdade, a versão que agora integra o cânone faulkneriano, com o título If I Forget Thee, Jerusalem, combina as Palms e o Old Man, alternando um capítulo de um e outro dos romances. Li-o também dessa maneira e não consegui gostar. Prefiro os romances separados – ou seja, sou um rapaz muito focado, é uma coisa de cada vez e prontos!
      Um abraço

  6. Sandra Barata Belo diz:

    seria uma boa prenda de aniversário 🙂

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