Percy Bysshe Shelley

Shelley

Julgo que ainda tenho o velho livrinho de capa verde publicado pela velha Guimarães. Era A Defesa da Poesia e deve estar sublinhado linha a linha que eu, naquele tempo, lia com as mãos por não me chegarem os olhos.

Trazer o poeta Percy Bysshe Shelley para este recanto onde Escrever é Triste, convém a esse Romantismo a que o poeta serviu de estandarte e à poesia dele, revolucionária, de uma sensualidade inocente e livre. Cantemo-lo, então, assim, Triste.

Shelley quando morreu não teria mais de 50 leitores. Em vida, fez 202 anos a 25 de Março, fora expulso de Oxford à conta de um apologético panfleto do ateísmo, embora me pareça credível a hipótese de que os vetustos reitores mais do que com as cócegas ao divino se tenham sobretudo encanitado com a diatribe do Poetical Essay on the Existing State of Things que mandava a monarquia ir viver para debaixo de uma ponte ou de um vão de escada. Deixo breve excerto no fim*.

Será Triste um tipo, que ao morrer não tinha mais de 50 leitores, ter conquistado uma imortalidade que nunca em vida sonhara? Será Triste ter o poeta mordido a mão e cuspido o anel do seu monarca, em vez de realisticamente se laurear como era hábito dos seus confrades poetas?

Aos 19 anos, Shelley casou com uma menina de 16. Mas inclinava-se a deambulações heterodoxas que, sem o impedirem de engravidar o liso e adolescente ventre dela, o afastavam mais regularmente do que o aproximavam da doçura do lar. É com os 19 anos da mulher bem grávidos que, definitivamente, abandona o leito conjugal para viajar pela Europa com outra mulher, Mary Wollstonecraft e com a meia-irmã dela, Claire, dando lenda, bom nome e angélica roupagem ao torpe francesismo ménage à trois. A mulher, Harriett, suicidar-se-ia nas águas prosaicas e frias do lago do Hyde Park, perante o olhar parvo e intrigado dos nocturnos patos do Serpentine.

Morta a primeira mulher, já casado com Mary, Shelley repetiu com ela e com a meia-irmã o périplo europeu, com Itália como destino principal. Em Nápoles a heterodoxia conjugal de Shelley obteve a forma de registo notarial: há uma cédula que assinala o nascimento da sua filha Elena. A mãe, li em fonte insegura, é uma misteriosa Marina Padurin, nome apócrifo que tanto pode esconder a maternidade de Claire como a de uma ama que os acompanhava.

Shelley, tantos foram os seus amores – os que teve com outras mulheres e os que instou as mulheres dele a terem com os seus amigos – tinha um ódio: os gatos. Odiava-os tanto que, prova definitiva de que era Triste, atou um ao papagaio que lançou numa noite de tempestade, na esperança de que um raio electrocutasse o bicho e enchesse o céu de miaus. Ironia bizarra, Charles, seu filho da primeira mulher, morreria apanhado por um raio, quatro anos depois do passamento de Shelley.

Foi no mar, afogado, que Shelley morreu. Nas águas, as mesmas ou outras, em que se suicidara a primeira mulher. Quase 30 anos depois, morreu essa outra mulher, Mary, que dele conservara as cinzas e, inteiro, num lenço de seda, o coração.

Por Triste que o seu trangresssivo e espontâneo clinamen nos pareça, a poesia de Shelley foi e é sublime: Adonais é “a elegia” (inspirou-o a morte de Keats) e Prometheus Unbound uma torrente de puro lirismo. Na Defence of Poetry é o vigoroso campeão de um mundo novo fundado por poetas (“Os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo” é a última e sintomática frase desse vibrante ensaio).

Shelley era angélico e já se sabe que os anjos na sua angelical compostura são uma fonte de incontáveis, e por vezes brutais, dissabores. Um poeta genial também. Mesmo no que os seus contemporâneos pareciam querer Triste — a sexualidades — só queria que mulheres e homens se libertassem dos attached strings em que escondiam, apertavam e esmagavam o que Shelley queria esconder, apertar e esamagar com outra (nenhuma, dir-se-ia) propriedade.

* E como prometido, o excerto do poema sobre o “estado das coisas”:
Man must assert his native rights, must say
We take from Monarchs’ hand the granted sway;
Oppressive law no more shall power retain,
Peace, love, and concord, once shall rule again,
And heal the anguish of a suffering world;
Then, then shall things which now
confusedly hurled,
Seem Chaos, be resolved to order’s sway,
And error’s night be turned to virtue’s day –

Mary_and_Percy_Shelley__Engraving_by_George_Stodart_after_monument_by_Henry_Weekes

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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5 respostas a Percy Bysshe Shelley

  1. Olinda diz:

    que nojo d’homem. e ainda bem que se afogou. de mim, não leva palmas nem lhe leio a poesia – não merece. mas gostei de te ouvir contar.:-)

  2. Isto tem aqui umas frases muito bem caçadas para uma história bem contada: ler com as mãos porque os olhos não chegam; o olhar parvo dos patos, lailailai… Agora o que eu não sabia era que você, Manuel Fonseca era um Rousseauist!

    Porque será que os grandessíssimos poetas, pintores, afins, estes verdadeiramente grandes, são tão, vá, selvagens e taradões? Olhe, até o seu Larkin, que tenha paciência mas também é meu, o era, passivo-agressivo, mas era!

  3. O mundo dos génios está cheio de cabrões, é verdade.

  4. nanovp diz:

    Pois é eles e elas afogam-se. E fica a poesia. Imortal…

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