Perder Gás

"Terra Prometida", de Gus van Sant

“Terra Prometida”, de Gus van Sant

Não faz grandes filmes liberais quem quer. Não me confundam: este não é o neoliberalismo que nos anda a espremer como laranjas anémicas, é a consciência liberal que infiltrou o melhor cinema americano dos anos 70, reproduzido em filmes como “Serpico”, “A Última Testemunha”, “Os Três Dias do Condor” ou “Os Homens do Presidente” e liderado por realizadores como Sidney Lumet, Sidney Pollack ou Alan J. Pakula. “Terra Prometida” mantém a carga ética da luta do indivíduo contra as grandes corporações, transfere a dimensão política da paranoia (muito típica da América pós-Nixon) para temas como a crise económica e o desemprego, e assume-se neto desse anciãos militantes. A história é agora a de Steve Butler (Matt Damon, o James Stewart possível na idade do cinismo), vendedor de topo duma multinacional de perfuração e recolha de gás natural, destacado para convencer a população duma vilazinha do interior dos EUA a vender as suas terras,  que serão depois exploradas pela megaempresa. O que parece uma equação simples – o desemprego grassa na zona e os habitantes serão razoavelmente recompensados – torna-se um caso bicudo após as reticências de um engenheiro, douto professor de liceu local (Hal Holbrook, o Garganta Funda de “Os Homens do Presidente”), levantarem dúvidas em boa parte dos potenciais vendedores. Para irritação dos patrões de Butler e da sua pragmática colega, Sue Thomason (Frances McDormand), o negócio transforma-se numa derrota iminente com a intervenção de Dustin Noble (John Krasinski), membro de um movimento ambientalista que depressa ganhará adeptos no terreno. As dúvidas sobre a legitimidade moral do processo crescem em Butler, e elas reproduzem a batalha entre pequenos e grandes, anónimos e poderosos, enriquecimento rápido e desertificação, crescimento económico e equilíbrio ecológico. Baseando-se numa história original de Dave Eggers (“O Sítio das Coisas Selvagens”), as vedetas Matt Damon/John Krasinski escreveram um guião ágil mas de nuances esquemáticas, pouco originais na passagem da dúvida à redenção (há mesmo um “twist” que pouco acrescenta ao conjunto). Damon iria estrear-se aqui como realizador – talvez tenha pensado “Se o Ben Affleck consegue, porque não eu?”. Porém, conflitos de datas e de produção levaram-no a pedir ajuda a Gus van Sant, mentor do lançamento da dupla Damon/Affleck com “O Bom Rebelde”. Van Sant é um realizador notável, de sensibilidade única para o espírito do tempo, mas coloca aqui o piloto automático – como já fizera em “Psico” e “Descobrir Forrester” – e o seu dedo apenas se nota em pormenores esparsos como as agridoces vistas aéreas do campo, o olhar breve de uma criança, lençóis perdidos na brisa, o desconsolo do quotidiano rural. Não chega para tornar “Terra Prometida” prometedor.

 Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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2 respostas a Perder Gás

  1. nanovp diz:

    Concordo, o filme fica aquém das expectativas que van Sant nos habituou…embora o tenha visto em casa e não no grande ecrã.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Vi e subscrevo.

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