Teoria Geral da Piroseira na Piolheira

Mal interpretado, diria quase vilipendiado pelo que escrevi acerca da arte de Joana Vasconcelos, eis-me de volta com a Teoria Geral da Piroseira na Piolheira.

nectar

Árvore de garrafas, Joana Vasconcelos

A coisa desenvolve-se assim: nem tudo o que é piroso é descartável como arte. Posso dar como exemplo certas canções de Júlio Iglésias e Roberto Carlos ou as couves cerâmicas do Rafael. A árvore de Natal feita de garrafas, concebida pela própria Joana Vasconcelos, que está na entrada do Museu Berardo no CCB, também me parece uma piroseira de bom gosto. Outras piroseiras são inventivas, vejam a quantidade de nomes que Rocio Jurado consegue chamar a um homem (o próprio vídeo é uma obra de arte):

Reparem que na lista de insultos está, além de falso, rancoroso e ciumento, também a palavra anão, que se destina a homens da minha altura (ou, vá lá, da do Manel).

Mas alto!

Como pode uma coisa pirosa ser adorável? Ora bem, esse é o ponto: a classificação de piroso, ou fatela, revela falta de qualidade dos materiais e falta de requinte. Pode, em determinados momentos, demonstrar falta de bom gosto, mas jamais significa que seja detestável. Eu gosto de certas coisas pirosas.

Podia aqui colocar algumas máximas curiosas, como: não há arte pirosa, tudo depende da boa vontade que temos em relação ao autor. Mas vocês descobririam que se trata apenas de uma variação destoutra frase: não há mulheres pirosas, tudo depende da quantidade de álcool que bebemos.

Neste momento, neste preciso momento, escuto um álbum inteiro de Charles Aznavour com uma certa ternura. Conhecem alguma coisa mais pirosa? Eu não, mas gosto.

O que acontece é que na Piolheira, que é este país (como dizia o senhor D. Carlos), quase ninguém (à exceção do Pedro Norton, como se vê) assume gostar de coisas pirosas. Daí a confusão entre a classificação de piroso e a imediata rejeição da obra. Não é o meu caso. Gosto de certas coisas pirosas, mas lá que são pirosas são. Como a roupa que se usava na década de 1970, ou vocês pensam que homens da minha idade (ou, vá lá, do Manuel S. Fonseca) nunca andaram de calças de boca sino? Hein? Hein?

Pronto, acabou-se o Aznavour e começou o Domenico Modugno a cantar o Nel blu dipinto di blu, que passou a história como Volare. Lá está outra…

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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18 respostas a Teoria Geral da Piroseira na Piolheira

  1. cgs diz:

    Ora bolas que até os Tristes andam com necessidades de protagonismo ! Mas ó Tristes desde quando se discute sobre o que é Arte e o que é Pirosice ???? E haverá hipóteses de a chamada Pop Art não ser pirética ?? Bolinhas, que os Tristes andam com falta de assunto, hélas.

  2. O Tony Carreira também é piroso e aparece em todo o lado com o respectivo agregado familiar, seguido por uma legião enorme de fãs…
    Vá se lá perceber… Ai destino, ai destino

  3. antonio diz:

    Admirado Sr.Monteiro , nâo se preocupe, eu tambem gosto de Domenico Modugno…ás vezes
    O problema da coisa pirosa é até que ponto é pirosa para os demais .Ninguém quere ser o primeiro em confessar seus gostos “pirosistas” por isso de ter medo ao que dirâo
    Cumprimentos desde Espanha

  4. Como esta foleirada que acabo de por na capa do meu FB : http://youtu.be/m9EyEW6xPNM. E enquanto vocês andavam à boca de sino eu e a Ângela torturavamo-nos com mise à brasileira.

    • Piroso?… pode ser, mas enche a alma quando eu preciso, logo, é alimento, ou seja, dá de comer a algo que eu muito prezo… a mim mêmo, my self, moi, je, i, eu… piroso é ver crianças a irem almoçar ao Hospital de Santa Maria, isso sim é piroso e muito feio, mais piroso, ainda, ninguém fazer a ponta de […]

  5. celeste martins diz:

    Seja feliz e não racionalize demasiado!!! Talvez o “foleiro” seja sinónimo de simplicidade, às vezes bacoca, mas que faz as pessoas felizes!!! Interessa é estar vivo e de mente aberta questionar, criticar e sorrir!!!Um bom dia a todos!!!!

  6. António Ferrão diz:

    Caro Henrique Monteiro.

    Tenho que começar por alguma parte. Vou começar pelo principio. É sempre uma boa metodologia de trabalho.
    A virtual (ou falsa?) licenciatura de Relvas era para Passos um não assunto. E foi. Nem demos pela saída dele (do não assunto).
    Pelo que conheço de si, confirmo que realmente o silêncio é uma arte que domina mal (estamos a falar de arte). Tem que falar, tem que escrever, tem que mexer mesmo no que aparentemente não o incomoda.
    Há em si um “toque” (ou tique) elitista que já rastreei há muito.Mas continuo a lê-lo sem lhe “chamar o que quero”, porque não tenho nada para lhe chamar.
    Há em si uma obsessão quase doentia pelo trabalho (como vê não lhe chamo arte) da Joana Vasconcelos.
    Diz-me a minha intuição (nunca especulo) que a sua intenção é outra.
    Nunca foi de cacilheiro a Veneza. Quer uma vaga. Quer ir.
    Eu falo com a Joana Vasconcelos.
    Fica resolvido o seu não assunto.
    Nota cacilheira – Prometo-lhe que vai ao som da ” marcha do vapor”.

    • Henrique Monteiro diz:

      Ora, ora, nunca pretendi ir a lado de nenhum de cacilheiro. Não se (e me) leve a sério nestas coisas

  7. Ricardo Correia Afonso diz:

    Henrique, em Versailles (em francês, que é para ninguém duvidar do meu tique elitista – “toque” não, para não haver confusão com outras práticas e/ou técnicas) imagina que houve alguém que se escandalizou por eu ter perguntado porque raio as árvores de Natal da Joana eram azuis, porque, a final, para os verdadeiros “mestres” da crítica artística, as árvores que eu via eram castiçais! Quando estive no CCB e me deparei com o “castiçal” verde, ao afirmá-lo publicamente – porque devo ter sentido um toque je ne sais pa quoi no cerebelo – caiu meio mundo em cima de mim – passo a expressão, que nunca tive pretensões dignas de um “Grenouille” (cfr. o romance sinestético-piroso “O Perfume”, de Patrick Süskind) – porque, a final, a obra da Joana representava, para os presentes, uma árvore de Natal verde! Sempre achei que as opiniões livre são fiéis e devem ser frontais, desde que se limitem a formular juízos de valor sobre a prestação objetiva de alguém, e não sobre o mistério interno e subjetivo da pessoa criticada. Ao fim ao cabo, para mim, a tua intervenção demonstrou, uma vez mais, que o sentir da arte e da opinião, na “Piolheira”, continuam a comungar, pelo menos, de uma mesma perspetiva: a esquizofrenia! Bem haja.

    • mónica diz:

      é um bocadinho difícil dizer que a arte da Joana é pirosa sem a atingir como pessoa, confesso…se aquelas piroseiras (atrevidas e grandiosas mas pirosas) saem dela então ela é o quê, uma rapariga cool??

  8. Ricardo Correia Afonso diz:

    Henrique, só mais uma coisa: quando é que te torno a “ouvir” dissertar sobre mais uma aria!? Estou com saudades! Já agora, uma pequena sugestão: para quando uma incursão mais aguda pelo repertório alemão? Sugeria algo do género de Richard Srauss 🙂

    • Henrique Monteiro diz:

      Lá chegaremos. Queres a pirosíssima valsa do entreacto de Der Rosenkavalier?

      • Ricardo Correia Afonso diz:

        Boa sugestão! Mas também pode ser a entrada do Cavaleiro, levando na mão a pirosíssima rosa prateada, ou então o trio final, que, na verdade, não passa de um orgasmo musical piroso! (para dar continuidade ao do início do 1.º ato, que é partilhado pelo Quinquin e a Bichette – existirão nomes mais pirosos!?!?). 🙂

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Estou feliz, não há ninguém mais piroso do que o Henrique ou, vá lá, eu próprio.

    • Henrique Monteiro diz:

      Há duas pessoas que têm razão na vida. Uma é Vexa, a outra fará Vexa o favor de indicar

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Ponha­mos a «coisa» neste ponto: a Joana Vas­con­cel­los não é uma artista, é uma instalação/empresa. Já viu a quan­ti­dade de gente a que dá tra­ba­lho?
    Não me admi­ra­ria, num qual­quer dia, vê-la como Minis­tra da Cul­tura sem­pre enfi­ada em rendas.

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