Tu não percebes nada disto, pois não?

O cão (foto Graça Castanheira)

Tu não percebes nada disto, pois não?
Da vida, do universo, do propósito?
Não tens a mínima ideia sobre o que andamos aqui a fazer, pois não?
Dormes, acordas, comes, emites sons, olhas à volta e não percebes nada.
Evidências, verdades, porquês, nada disso tu vês.
Quero dizer, alguma coisa sabes: aprendes,
tens compreensão dos fenómenos, ages,
mas não chegas a entender o âmago da coisa.
E olhas para mim com ar inteligente, com ar de gente.
Como se tivesses respostas. Tu que nem perguntas sabes fazer.
Truques, é só o que sabes. Truques e habilidades. Números de circo.
Mas não percebes nada disto, pois não?
Claro que não. Não és cão. Senão percebias.
Calhou-te um cérebro grande demais em vez de grandes dentes;
e isso faz toda a diferença.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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22 respostas a Tu não percebes nada disto, pois não?

  1. Olinda diz:

    há gente mesmo peluda que só fala com o olhar. qual é o nome do menino?

  2. ERA UMA VEZ diz:

    O nosso Anatólio

    Um dia escolheste
    esta casa esta gente esta varanda sobre a rua
    a princípio ignorámos não fazias parte dos planos

    Insististe
    e na passagem do ano dormiste à nossa porta
    ia jurar que no outro dia nos olhaste
    e triunfante…sorriste.

    Lindo, malhado,lobo suiço( diziam)
    tinhas sido abandonado
    sei lá onde… sei lá quem
    mas os teus beijos eram lambuzadamente doces e ainda mais doce o teu olhar

    companheiro paciente
    recusavas a casa
    porque a varanda sobre a rua era o teu lugar
    e acredite quem quiser cedias a tua casota quando as gatas cinzentas
    gemiam de parto
    lambiam as crias
    e tu
    cúmplice, sofrias

    talvez por isso naquele dia te velaram com a solenidade que os homens desconhecem
    e ainda hoje se deitam ao sol naquele canto do jardim que só elas e nós conhecemos
    onde florescem alfazemas

    não sei se fui digna de ti do teu amor da tua bondade
    por isso falarei de ti
    falarei de ti…
    cada vez que alguém, mesmo sem querer
    me acorde esta saudade…

  3. Ou percebe e do âmago da coisa nada diz? LIndo cão, para fazer minhas as palavras da Eugénia.

  4. V diz:

    Tenho saudades

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Uma musa, é o que é. E das boas. 🙂

    • Pedro Bidarra diz:

      É sim senhor. E faz aquele silêncio clínico, terapêutico, quando olha que nps perguntar: “O que foi? O que é que eu fiz?”

  6. Mário diz:

    O cão parece confortável, mas se começa a pensar muito ainda mete a mochila às costas e sai por esse mundo fora à procura nem-ele-sabe-do-que…com o Rafa pela trela, claro está 🙂

  7. Luísa Tavares de Mello diz:

    O Rafa lembrou-me a Carly que morreu há dois dias. Foi resgatada da rua em Julho passado e deu-nos muito amor, muita sabedoria, muita ternura. Nós só conseguimos dar-lhe amor e ternura, não retribuímos a sabedoria. O grande cérebro do veterinário não soube tratá-la e a menina morreu. Só quem vive com um cão e partilha com ele o quotidiano entende do que estou a falar, as saudades que o seu cérebro pequeno e bondoso nos fazem.

    Felizmente muitos de nós, apesar do cérebro disforme, sabem que a felicidade deles- dos nossos cães- se transmite ao ser humano e nos ajuda a brincar, e a acreditar.

    Viva o Rafa.

  8. ERA UMA VEZ diz:

    Ainda não consegui ler esse livro do Manuel Alegre.
    Agora, fiquei ainda mais curiosa.
    Às vezes parecem “bem melhores do que nós”

  9. Por acaso diz:

    Dois belíssimos poemas inspirados pelos Bichos.

  10. Por muito que queiramos, nunca qualquer homem será tão leal como um cão…

  11. Luísa Tavares de Mello diz:

    Tem razão. Há nos cães qualidades tão puras – como a lealdade- que nenhum de nós consegue igualar, reproduzir. Eu penso que nos cães a lealdade e o amor estão juntos e reforçam-se. Já nos homens as sinergias são outras.

    Ainda bem que em 22 de Julho ainda se falou dos cães, do Rafa, da Carly!

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