Um Arquitecto que Escrevia

Khan, Salk Institute, La Jolla

Khan, Salk Institute, La Jolla

Num universo onde a técnica assume cada vez mais o lugar de rainha absoluta, onde os números asfixiam vontades, onde a intuição perde o lugar para as certezas; neste mundo, onde também a humildade parece passar despercebida em muito dos artefactos construídos, volto a olhar para a obra escrita e construída de Louis Khan, arquitecto nascido na Estónia, no alvorar do século vinte, que fez a careira nos Estados Unidos, e é hoje unanimemente aceite como mestre ao lado de Louis Sullivan ou Frank Lloyd Wright.

De todos os arquitectos que marcaram gerações posteriores, a obra de Khan será provavelmente a que mais aspira a uma dimensão poética, metafísica e até espiritual. Não só na sua obra construída como também nos seus textos. Muitos arquitectos não escrevem, nem precisam de o fazer, Khan no entanto faz parte de um grupo de pensadores que também são arquitectos, e para quem a escrita é uma forma essencial de sintetizar o pensamento, de definir conceitos e objectivos.

Khan a desenhar

Khan a desenhar

Os textos de Khan

Os textos de Khan

Escrevia também como esforço de abrir a arquitectura ao inexplicável, ao surpreendente, ao que muitas vezes referia como o “unmeasurable”. Usava nos seus textos e nas suas aulas, que se tornaram rapidamente famosas, uma linguagem de palavras simples mas de sentido complexo e profundo. Usava parábolas ou contrapunha palavras como “luz-sombra”, “jardim-quarto”, “parede-coluna”. Incessantemente, como se se tratassem de princípios essenciais à construção da arquitectura. E provavelmente são.

Sínteses como a “arquitectura existe entre o silêncio e a luz”, “da beleza chega-nos o assombro, e este não tem nada a ver com conhecimento”, abriram espaço a uma nova forma de pensar a arquitectura, separada dos aspectos mais circunstanciais, colocando o “desejo de ser” como aspecto mais importante no nascimento da obra.

E a sua obra construída reflecte de forma directa e inequívoca aquilo que escrevia, a sua procura de uma síntese arquitectónica que atravessa toda a história, solidificada em conceitos fortes e abrangentes como “beleza”, “sentido” ou “ordem”.

Khan, Kimbell Museum

Khan, Kimbell Museum

Por isso talvez o maior elogio que podemos fazer à sua arquitectura é a de que “não tem tempo” é intemporal. Por isso também julgo que perdurará nesse mesmo tempo.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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25 respostas a Um Arquitecto que Escrevia

  1. Olinda diz:

    interessantíssimo.

    (e também o interesse nasce entre o silêncio e a luz)

  2. Muito bonito, Bernardo. Gostei e aprendi.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Muito bom – uma beleza – este teu Khan. Fiquei com muita vontade de o ler.

    • nanovp diz:

      Manuel recomendo o “Essencial Texts”, ou o ” Between Silence and Light” textos e fotografias a preto e branco, muito bom…

  4. Ignorava tudo sobre este Khan, Bernardo. Bela homenagem.

  5. por acaso, do khan conheço menos que o básico, nunca foi um arquitecto que me despertasse muita atenção, comecei a olhar para os seus trabalhos depois de muitas referências suas a ele, porém, apesar disso, ainda o conhecimento que tenho sobre ele é só nominal, talvez já seja mais do que tempo para alterar isso.

    http://montedepalavras.blogspot.com

    • nanovp diz:

      Khan foi esquecido pela geração mais nova dos “pós-modernos”, que não toleravam a sua “metafísica”, mas aos poucos tem vindo a ser re-descoberto, justificadamente.

      • quando diz “metafísica” fica a ideia de que a arquitectura de kahn era algo que pretendia ser transcendental, por exemplo, a arquitectura seria algum tipo de iluminação… ou terei entendido mal a ideia por detrás do termo?

  6. Pedro Norton diz:

    Bravo! Encore!

    • nanovp diz:

      Pois o próximo passo era conhecer a obra do Khan na Índia…Ahmedabad…esse é que era um perfeito “encore”…

  7. Ivone Mendes da Silva diz:

    Bernardo, um arquitecto já é assim uma coisa intermédia entre a Terra e o Céu. Se escrever, então ….

    • nanovp diz:

      Há uns que têem tudo e outros que ficam com nada…nem tudo foram maravilhas com o Khan como deve calcular, mas isso já são outras histórias….

  8. Não conhecia. Gostei muito de conhecer.

    • nanovp diz:

      Foi uma figura impar, quer como grande professor, quer como pensador. Muito maduro porque começou a construir muito tarde na vida…uma lição para muitos dos que correm muito mas envelhecem cedo demais…

  9. Maracujá diz:

    Mas que bela aula acabei de ter. Obrigado.

  10. Ruy Vasconcelos diz:

    .

    Gostei mais de seu texto que da arquitetura de Khan. E desconfio de quem não gosta de árvore e emprega demasiado concreto. Isso vale para alguns Niemeyer, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, por igual.

    .

  11. nanovp diz:

    Caro Ruy posso não ter sido justo na escolha das fotografias, acho que por mais “concreto” que muitos destes arquitectos utilizaram, a “natureza” era para eles um aspecto fundamental na construção da própria arquitectura…ou dito de outra forma sem a tal “arvore” a arquitectura perde quase tudo…gostava muito de conhecer melhor Paulo Mendes da Rocha e a Lina, aí no Brasil, porque ao vivo as coisas são diferentes…abraços

  12. Maria do Céu Brojo diz:

    Investiguei e gostei. Porém, Frank Lloyd Wright não esqueço. Depois, há aquela do Simon & Garfunkel que o honra.
    http://www.youtube.com/watchv=gKwrx5dm81o

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