What’s in a name, uma explicação Urbi et Orbe

Tendo eu sido abençoada com a graça generosa de escrever em mais do que um blogue, procurei reservar para A Ronda dos dias as questões mais pessoais e, concomitantemente, as mais maçadoras porque, diga-se em abono da verdade, as minhas questões pessoais não têm interesse algum. Eu é que sou muito teatral e consigo, quando a Musa desce, revesti-las de um brocado aceitável. Venho com esta conversa pelo seguinte motivo: a minha muito interrogada alteração de nome. Alguns comentadores, que não lêem A Ronda, vieram delicadamente inquirir-mo, assinando por baixo, claro, que de anónimos não reza a minha correspondência. Agradeço muito que não terem ido incomodar a Tia com tal minudência e que se me tenham dirigido directamente. Assim, e para que não esteja a responder a cada um, aqui deixo texto exarado n’ A Ronda dos dias:

 “Já observaram que o meu nome passou a estar grafado “Ivone Mendes da Silva”. É o que consta do meu assento de nascimento e eu explico isto em duas penadas. Quando me divorciei pela primeira vez quis fazê-lo com um fulgor viscontiano e, com a mesma fúria com que os romanos arrancavam a cabeça das estátuas dos imperadores depostos num voraz processo de damnatio memoriae, apaguei tudo o que dissesse respeito ao cônjuge deposto, nome inclusive. Quando casei pelaa segunda vez, apus os dois apelidos do novo marido. Quando o casamento se dissolveu, decidi, num arroubo literário, que os manteria. Explico: lembram-se do filme Elisabeth? Quando o conselheiro, Walsingham, a aconselha a matar lord Dudley, que chefiara a conspiração, ela argumenta Vou mantê-lo vivo para que, ao olhar para ele, eu me lembre sempre de quão perto eu estivesse do perigo. Assim quis eu fazer: manter um nome que não era meu para que, ao escrevê-lo, me lembrasse sempre de não cair no desvario de outro casamento.

Na altura da dissolução, o requerente autorizou que eu continuasse a usar o seu nome e, embora não compreendesse por que razão eu tinha tal pretensão, lá deu o imprimatur. O simbólico é invisível ao olhar do filósofo.

Já passou algum tempo e esta onomástica metafísica começa a levantar aqui e ali algumas questões de pormenor, apesar de as relações com o ex-cônjuge serem amistosas e muito civilizadas.
Assim, e depois de tratar de umas pendências burocráticas em que não convém haver alteração de nomes, irei encontrar-me com a senhora Conservadora e solicitar-lhe que se digne autorizar-me a deixar de usar os dois apelidos do ex-marido, bem como a partícula que os ligava aos meus e para cuja adição foi necessário outro acto. Para além de esperar que tal seja possível, espero também que os emolumentos não sejam em ouro.
Ser tolinha dá trabalho e encarece-nos a vida.
Passo, pois a ser
Ivone Mendes da Silva como o meu pai declarou no Registo Civil, estava eu recém-nascida.”

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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6 respostas a What’s in a name, uma explicação Urbi et Orbe

  1. nanovp diz:

    Oh Ivone seja sempre aquilo que quer ser e use o nome que melhor lhe apraz…

  2. Bela aventura onomástica, Ivone.

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    That’s my life ….

  4. Helena Sacadura Cabral diz:

    Minha querida Ivone
    Tenho uma aventura onomástica oposta à tua. Nunca quis usar o nome do marido quando todas o faziam. Tive de o declarar e declarei.
    Mas, durante anos, fui a mulher do Portas. Depois a ex mulher. Depois, ainda, fui a mãe dos Portas. E, finalmente, sou euzinha, conforme assento de registo de nascimento.
    Naturalmente teria sido melhor ser Helena Portas, para depois, de uma penada, deixar de o ser. É preciso paciência para se ser uma personagem em busca de si própria…
    Bjo

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