No dorso dos mitos

calasso

Sempre me pareceram os livros um bom destino ou um lugar bom para viver. Uma morada certa, assim aquele lugar onde quem vier por bem nos encontra dispostos a um café demorado com a mão apertada de conversas. Também me parece haver nos livros uma outra vantagem que, bem apurada, poupava demandas e análises: se em vez de cartão de cidadão, trouxesse cada um a listinha dos livros lidos e dos relidos e dos nunca lidos e haveria lá melhor fotografia da alma de alguém. Até já pus isto em prática e conto de caminho. Tenho um amigo que é como a nossa Eugénia, salvo seja: anda à procura do amor dele desde que o conheço. Mas enquanto a nossa Eugénia espera que o amor dela frequente o mesmo supermercado para que lhe possa dardejar um olhar que o estatele desamparado no chão aos pés dela, este meu amigo julga encontrar em cada olhar que lhe dardejam a amada, a ditosa. Assim como se estivesse no poema do David Mourão-Ferreira:

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.

Os sentidos dele já reagiram tanto, de fazer inveja ao Catálogo do Don Giovanni, e tanto ficaram, de novo, sem ter a quem reagir que lhe disse estar disposta a ajudá-lo naquela floresta de enganos. Conhecedora do diapasão pelo qual ele afere as amadas, disse-lhe homem, tu vais fazer assim: perguntas que livro ela está a ler. E tens aqui uma lista de títulos que te actualizarei de vez em quando. E, conforme o livro, verás aí na tabela de dupla entrada com quem estás a lidar. Não falha.  E tens aqui outra para, de acordo com os livros que já leram ou nunca leram, ficares também com uma informação de espectro alargado. Parece que a minha bibliófila ajuda tem sido de utilidade. Houve um dia em que me telefonou em sobressalto. Olha lá, talassinha, não tens aqui As núpcias de Cadmo e Harmonia. Pois não tinha, não. Mas resolvi o problema e cheguei agora onde queria chegar, pedindo desculpa aos leitores, primos e Tia por esta introdução palavrosa.

Tenho andado, por estes dias, a reler a As núpcias de Cadmo e Harmonia de Roberto Calasso, na tradução de Maria José Vilar de Figueiredo para a Cotovia. Eu sou uma re-leitora, há livros a que volto e torno. Porque sim, por estados de alma, por estados de vida. Leio, minto, repito mentalmente o último parágrafo d’ O Monte dos Vendavais quando a vida se acalma um pouco, mergulho n’ A morte de Vergílio quando tudo o que leio no momento me está a enfastiar, volto aos russos, enfim, era outro catálogo.

As núpcias de Cadmo e Harmonia são o último encontro entre os deuses e os mortais. O último momento em partilharam mesa, igualados na circunstância que não na essência. Cadmo já encontrara a Europa, a sua irmã raptada por Zeus, e conquistara a Harmonia. Chega à Grécia com pouco de seu mas com muito para dar: a dádiva incomensurável do alfabeto que forma as palavras que fazem os deuses presentes no pensamento, pois que de palavras se articula o pensamento, quando eles já não estão no quotidiano na sua forma plena. O livro de Calasso é um mosaico. De mitos e de alegorias. “Estas coisas nunca aconteceram, mas existem sempre.”, reza a frase de Salústio que lhe faz de epígrafe.

Por que razão ando a reler este livro? Pela Europa que agoniza, pelo Ocidente, pelas palavras na sua etimologia afectiva. Pelo que não quereria perder, depois de tudo o que já perdi. Abro ao acaso:

A felicidade é uma característica da vida que exige o desaparecimento da vida para existir. Se a felicidade é uma qualidade global do homem, então é necessário esperar que a vida desse homem se cumpra com a morte.
Este paradoxo não é autónomo, é apenas um dos muitos paradoxos da globalidade, a que os gregos foram altamente sensíveis. O seu fundamento está gravado na língua: télos, a palavra grega por excelência, é ao mesmo tempo «perfeição», «cumprimento» e «morte». Na voz de Sólon falava a desconfiança dos Gregos em relação à cegueira de quem é feliz e a sua paixão pela lógica. Nunca se viu uma perífrase tão eficaz para dizer uma verdade que, na sua forma directa, seria demasiado crua, e que talvez nem sequer fosse uma verdade: que a felicidade não existe.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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10 respostas a No dorso dos mitos

  1. rita tormenta diz:

    Sobretudo os livros que não se conseguem largar, dizem muito das almas. Daquilo que não podem nem querem abandonar, mesmo que embrenhados numa floresta,

  2. Andamos todos a salvar o Ocidente por tanto o termos ajudado a morrer. Eu também, Ivone, e por isso tenho sempre à cabeceira “O Amor e o Ocidente” do Denis de Rougement.
    E nunca dexarei de ser feliz: em última análise, que morra o Ocidente, já é altura de descobrirmos o Oriente. Acaba-se a leitura, bastar-nos-á um contemplativo zen.

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    Manuel, muito me custa pensar em desistir do Ocidente. Nem quero, pelo menos ainda.

  4. Teresa Conceição diz:

    Que bem trazido este livro, Ivone. E que divertida introdução.
    Outra coisa boa dos nossos livros é quando, além do que lá vai dentro, têm a envolvê-los boas histórias. Assim dá mais vontade de ler ou reler essas coisas que nunca aconteceram mas existem sempre.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      O livro é muito, muito bom. Gostei que tivesse gostado da palavrosa introdução.

  5. nanovp diz:

    E este EEtriste confirma-se como um bom lugar para ler também, graças a textos e referências como esta…gostei muito…

  6. Maria João Freitas diz:

    Ivone,
    Que delícia, o texto sobre As Núpcias, mas também o pretexto, com a história do amigo Don Juan. Gostei muito.

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