A bicicleta nova

 

Uma linha azul inesperada. Eis o Mekong.

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O tom de barro é mais frequente na água. Mas a luz da manhã deve pôr pigmentos frescos nas coisas. As ilhotas do rio parecem vestidas de verde-festa. As roupas dos miúdos no cais já tiveram outras cores. Deitam um olhar furtivo à única ocidental no areal terroso.

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O equilíbrio é uma arte que se aprende cedo nas margens do Mekong no Sul do Laos.

Sacas, tijolos e cocos verdes amontoam-se na canoa estreita que faz a travessia rente ao rio. Com 3 passageiros e um vertedor de água muito activo a bordo.  

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Na outra margem, Champasak é uma fileira de habitações de madeira ao longo da estrada. A Indochina francesa regressa de cem em cem metros, nas ruínas de casas coloniais. Faltam uns bons quilómetros para avistar o templo de um império mais antigo.

O cartaz surge em boa hora, num anexo de pensão: BY CICLE RENT. O anafado senhor da oficina mostra todos os dentes. Alugar uma bicicleta velha custa o equivalente a 1 euro; uma nova, 1,5. Deito o olho ao amontoado de ferrugem e cromados poeirentos ali ao lado. Viajo em contenção de custos, mas 50 cêntimos parecem um bom investimento.

– Vou levar uma bicicleta nova!

Good choice, good choice!

Pago e fico à espera. Ele também.

You choose one you like.

– Mas onde estão as novas?

These are new!

 Suspiro. Se as novas são estas, prefiro não ver as velhas.  A menos má apresenta-se de pedais enferrujados, o selim escorrega, o guiador está torto, os travões já foram. Mas é azul, caramba. E depois de limpa engana qualquer máquina fotográfica. 

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E aí vou eu, a guinar e a chiar estrada fora. Os miúdos na berma correm ao meu lado durante algum tempo, sabai di, sabai di !!!!!, bom dia, bom dia, o sol cresce, o vento sopra, o cabelo voa, a misteriosa montanha templo começa a ganhar forma ao longe.

E eu tenho uma bicicleta nova. É preciso mais alguma coisa para ser feliz? 

 

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores.
Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).

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14 respostas a A bicicleta nova

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Não, Teresa. Esta descrição prova-o. Quem me dera ter pedalado consigo! Melhor: de facto pedalei consigo e senti também o meu cabelo levantado pelo vento.

  2. Bruto da Silva diz:

    sabai di saiba deus 😉

    e ‘sabai do’ bom domingo (e bom regresso)

  3. Nada, Teresa, lê-se e vê-se e fica-se feliz – mas talvez o Cão no cesto da bicicleta…

  4. Tão bem pedalado este Mekong

  5. Teresa Conceição diz:

    Ah Eugénia, sabe lá. Mas o talvez não vai sem resposta.
    Hei-de mostrar-lhe lá mais acima o que estava para vir no cesto…

  6. Teresa Conceição diz:

    Céu, que bom ter companhia no passeio! Volte sempre 🙂

  7. Teresa Conceição diz:

    Manel, um barco a pedal não era nada mal visto. É capaz é de já ter sido inventado…

  8. Teresa, querido, é o óbvio, mas tem seu valor…

  9. Teresa Conceição diz:

    Luciana, adoro! Que bom ter trazido para aqui. Boa, boa 🙂

  10. nanovp diz:

    Felicidade pura Teresa, o texto, as fotografias, o sentimento….

  11. Raios, Teresa, eu até nem sou invejoso…
    Que bonitas imagens, tanto as físicas com as outras todas.
    Ah! Olá! 🙂

  12. Mário diz:

    Sim, partilhar isso tudo com alguém (nós, os leitores, não contamos) 🙂

  13. Há um filme chinês com biclas azuis que deves gostar muito. E Estamos numa época em que precisamos todos de pedalar mais um bocado.

  14. Carla Lopes diz:

    Imagino que a bicicleta seja mais ou menos como o autocarro vip que vc pegou em Thakhek! Mas valeu a vista e a travessia.

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