A curva do rio

 

Bend in the river

 

Por entre a linha sinuosa do rio, que imaginamos lamacento, escondido sobre ramagens espessas de floresta virgem, toda uma humanidade vai sendo representada. Da linha da costa onde se sentia a rudeza do mar para o interior subindo o rio, avançando pelas entranhas da selva; do desenvolvimento europeu junto das praias e das cidades, ao sertão e ao mato escondido no coração do continente africano, gigante, desconhecido, irregular, imprevisível.

Porque é sobretudo uma viagem para o desconhecido. Talvez seja essa a grande ideia por detrás deste romance, a incapacidade de prever, como homens, o nosso futuro, o nosso futuro construído na imaginação e delineado nela, muitas vezes ao pormenor.

Este é também um romance não europeu, é um romance descrito e construído por quem se habituou a viver em viajem, ao sabor dos humores da historia, de quem em tempos largou as Índias, a sua força embebida em tradição e religião, atravessou o oceano até à costa branca do continente negro, onde se inicia o esquecimento dos valores e das crenças que orientaram os seus antepassados, assustando-se com o vazio de um futuro que não consegue já, ou ainda, imaginar.

Salim  o protagonista e narrador, encontra-se perdido no tempo, na historia,  no espaço geográfico. Já não entende o seu passado, ainda não acredita no futuro. A vida é uma luta dolorosa por um significado, por um desfecho que não se vislumbra.

Como repete uma das personagens, “temos de aguentar, nada mais, aguentar.”

A curva do rio é onde tudo se passa, pode ser uma cidade qualquer, real, inventada na necessidade crua e lógica de termos de criar o nosso lugar no mundo.

A curva do rio é também uma das maiores metáforas escritas sobre as convulsões políticas em Africa, sobre o entendimento das frustrações entre africanos e “estrangeiros”, onde se incluem chineses, indianos, europeus, canadianos, e mesmo entre os próprios africanos, entre tribos. As utopias humanas, dos “funcionários” do “novo” governo, ao próprio governo que se quer distanciar da herança colonial europeia, um governo que tal como as personagens do livro, não entende o caminho novo que trilha.

E claro que este governo é liderado pelo “grande chefe”, o sempre presente “presidente de todos”, representado repetidamente em milhares de cartazes por todo o país, imagem também ela metafórica do ditador perfeito, inteligente, cruel, magnânimo, perpetuador de um outro sonho ainda maior, o de uma utopia perfeita, num continente novo.

A “Curva do Rio” é um romance sobre a impossibilidade de a vida voltar para trás, sobre a certeza de que o mundo não para de rodar, e a força da vida vai sempre estar em quem consegue adaptar-se ao bambolear do universo. Podemos terminar com o inicio do livro: o mundo é aquilo que é, quem não se adapta não tem lugar nele.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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11 respostas a A curva do rio

  1. Já devia ter lido, mas tenho uma preguiça arrasadora para a novidade. Só me apetece mais do mesmo. Ainda por cima, lugar, tempo e acção cheiram-me a kinaxixe. Obrigado Bernardo, pela apresentação. Gostei muito do “Temos de aguentar”. Ó se aguentamos.

    • nanovp diz:

      Mas isso é bom Manuel, ler sempre o mesmo…voltar a ler. Só que às vezes aparecem coisas à mão, despercebidamente…este foi uma surpresa positiva, um “tour de force” sem ser demasiadamnete negativo, porque vamos aguentando!

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Ainda não li. Uma resma jaz em espera. Mas foi estímulo a apresentação.

    • nanovp diz:

      O Calvino é que dizia que as livrarias e bibliotecas deveriam estar organizadas por categorias do tipo: ” os livros que eu gostaria de ler mas ainda não tive tempo para o fazer…” Pelos vistos já tem em casa uma estante destas…

  3. Olinda diz:

    contas bem e fazes apetecer, Bernardo.

  4. Fernando vieira diz:

    bom pelos comentários acima referidos, fiquei a saber algo narrado do livro que parece muito bom.Fiquei satisfeito ,nota-se que são pessoas com bastante cultura.

    • nanovp diz:

      Caro Fernando, o livro recomenda-se e acho que somos sobretudo um grupo que gosta de escrever e de ler…obrigado pelo comentário.

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