A de Abril

DANTE E BEATRIZ
Está a ficar igual à mãe. Não ao que a mãe foi, mas no que se tornou, até já reprova a irmã. A mais nova não é a mãe, bem, ainda não, ainda dança e corre pela casa, salta-me para o colo – está aqui, está a ir atrás do cão. Mas ela… crua como um templo protestante. No outro dia, quando lhe entrei no quarto e ela estava só de camisa de baixo, espartilho, nem saiote, de ver tão fechada no desgosto desde a morte do tio, e ali de branco, pareceu-me a miúda calada que conheci e se desfazia naquele sorriso culpado de gozo ao que lhe dizia de provocatório. Sussurrei-lhe ao ouvido:
– O luto não chegou aqui.
E segurei entre os dedos a renda inútil sobre o decote. Ela, sem se mexer, olhou para mim e respondeu-me:
– O luto chega onde quer que tu estejas.

Ir ao mundo dos mortos buscar vida, que tolice, essa porta só se abre quando num dos mundos está Dante e no outro Beatriz.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a A de Abril

  1. Bruto da Silva diz:

    M de Maio 😉

    A de agonia foi-se.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Crueldade com punhinhos de renda, é o que é…

  3. Mário diz:

    Não deixa de ser confortável refugiarmo-nos na dor (por estranho que possa parecer): ficamos com o olhar complacente dos outros e aligeiramos a nossa própria existência.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Do mundo dos mortos, não quero saber. Mas dos lutos e das memórias, não abdico.
    Impressiva visita à pintura.

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