A fisico-química da Sorte

Gosto de cozinhar. E de fazer doces, mesmo bolos logo que não levem farinha. Faço coisas com farinha, claro: pão disto ou daquilo, mas quase sempre de azeitonas, mesmo bôlas, lindas e altas como só no norte, tartes doces ou salgadas, agora lá bolos com farinha é que não – é uma incompatibilidade. Em contrapartida tudo quanto seja de ovos, açúcar, amêndoa, até quando penso que os desgracei, saiem bem. E compotas. Arroz doce. Mousses. Nougat. Praliné não faço senão comia-o todo apesar de não gostar de quase chocolate nenhum. Há um que me dá volta ao juízo. Felizmente está em São Tomé e em pouquíssimos sítios mais. É uma perdição. Xô.

Isto porquê? Estava aqui a pensar que a Sorte deve ser a consciência da proporção equilibrada do positivo com o negativo. Quer ver?

Comprei um açúcar moreno tão bom que eu que não gosto de açúcar que se sinta, até o experimentei na ponta do dedo. Delicioso. Foi uma daquelas coisas: bateu-me nos olhos, comprei-o, provei-o e sabia exactamente como imaginara. As papilas gustativas da menina língua têm imaginação – é natural, pois se têm memória…

E comprei umas mangas tão más que eram impossíveis de comer. Bandidas! Raramente uma manga me engana, conheço-as de gingeira. A fruta que me engana é a ordinária da melancia e o sonso do melão, logo a mim, que gosto tanto deles que faço o figurino completo: aperto, cheiro, ouço, e depois, zás, pepinos. Isto é mentira – já foi verdade. Desde há dois anos para cá perdi a vergonha: quando vejo alguém a rondar melões e melancias com aquele ar de, conheço-te, estampado na cara, aproximo-me e digo: gosto tanto mas só tenho dedo para pepinos, escolhia-me um? Olhe, sou um génio com pêssegos, se quiser, é um gosto. Obviamente, tudo isto é quando vou ao supermercado, porque quando vou ao meu mercado secreto até as melancias estalam de doces nas traseiras do carro.

Eis a Sorte: excelente açúcar, papilas gustativas atentas, péssimas mangas. Resultado: um chutney de manga perfeito. Quer provar?

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a A fisico-química da Sorte

  1. GRocha diz:

    Sim quero provar! 😛 também sou gulosa.

  2. Ó… Sou uma má: agora vou misturá-lo numa bela maionese caseira, claro, para dar alegria aos camarões cozidos. E está o jantar feito. Estou esganada de fome!

  3. MJC diz:

    pois claro que quero! Trazes o chut­ney e vemos o filme, boa?

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Estava aqui a pensar: tem a certeza de que não quer montar um restaurante, vá lá, um bistrôzinho?
    (E não é que estou mesmo a vê-la a cheirar os melões na praça?)

    • riVta diz:

      2 sócios garantidos…

    • Menina e Menino, perdão, Manuel Fonseca.

      Perto do Chiado, há uma loja num prédio setecentista, à venda. Tem um piso térreo com pátio e como o pé direito é alto, uma mezzanine. Tem uma área igual ao preço: maluca.

      Quando penso na minha vida ideal é esta: uma aula de yoga e meditação matutina e um cardio quelque chose – lá na mezanine, e cá em baixo, o bistrôzinho com mini livraria, a dar para o pátio, e uma editora de livros e revista mensal. E o Cão presente.

      Mas a partir das 15h, adeus que vou escrever. A noite, já se sabe, é para a família. E para o Cão.

  5. Carla Lopes diz:

    Este é o tipo de coisa que adoro fazer. Misturar ingredientes como quem cria ou conserta coisas.E digo que é preciso um certo talento para que o resultado seja positivo.Pelo que vejo, Eugénia, desde o antigo cemitério, você se sai muito bem nesta tarefa.Pude sentir daqui o aroma do chutney.
    Já os melões são mesmo uma loteria.Agora compro sempre de uma única marca, até fruta tem isso, o tal do Melão Rei: http://www.itaueira.com.br/portugues/

  6. nanovp diz:

    Eugénia , fiquei cheio de fome, logo eu que gosto tanto de chutney…já as mangas invejo-a porque eu cá não as consigo “topar”…

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    A propósito da alquimia culinária lembrou-me ocorrido que tenciono contar aqui. Tal como a Eugénia, na escolha de melões e melancias não me atrevo sem auxílio.

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