A mão e a pena

gvanzeller_PAISAGEM

Há na pintura, na fotografia, uma forma de falsa, como é que eu vou dizer, ai, serenidade. Olha-se e a imagem é, digamos, uma hipótese de classicismo. Mas olha-se depois, outra vez, e vê-se que as aparentes formas clássicas estremecem de energia, impregnadas que estão da consciência do tempo em que nasceram, um tempo de tecnologia e suportes digitais, um tempo de “revolução quântica”, um tempo em que é impossível a imagem “parar”, fixar-se.

A obra de Gonçalo Van Zeller é multímoda. Acumula saberes, acumula técnicas, mas se pára é porque pára sempre – fixa-se – no humano. Cruza a arquitectura, grafismo e artes decorativas, cinema e digital. A mão humana, mostra ele, cola-se ao acrílico ou ao digital, ao óleo, aguarela ou carvão.

Este rosto de Harrison Ford ainda não é, já não é e ainda é o rosto de Harrison Ford.

 harrison ford

Esta lata de uma intangível cerveja ou sumo já só é a lata líquida da sabedoria.

zeller

Num mundo que se julgava Verbo, num mundo que tanto quis e ainda quer viver da palavra, Gonçalo Van Zeller toca de outra maneira este mundo físico. Sem dizer uma só palavra, a mão humana desenha e diz ciência, diz filosofia, diz reprodução ou imaginação – basta-lhe desenhar.

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Foi essa, a  mão silenciosa de Gonçalo Van Zeller, que nos deixou, lá em cima, o novo banner do nosso blog. Vai ficar aqui, nos próximos dias – é a mão leve, mão de pena,  de Van Zeller a desenhar o que, se fosse só Escrever, era Triste.

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.
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16 respostas a A mão e a pena

  1. Rita V. diz:

    Gonçalo um grande beijo. Obrigada por tão triste pena que alegrou um tão texto feliz.
    🙂
    Obrigada Tia Escrever.

    • Gonçalo van Zeller diz:

      Obrigado Rita. Não sabia que uma simples pena, podia dar para tanta palavra.
      Bjs, Gonçalo.

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Que beleza de banner. Obrigada ao Gonçalo Van Zeller que desenhou e à Tia que escreveu.

  3. GRocha diz:

    Sei que fica mal dizer o que vou dizer, mas é o banner que até ao momento mais gostei! 🙂 é lindo, é suave, tem tudo a ver com a tristeza de escrever.

  4. O que me agrada mais é ser sempre surpreendido em cada novo banner.
    Este do Gonçalo Van Zeller é particularmente feliztriste, uma beleza.

    • Escrever é Triste diz:

      O que me agrada mais é a capacidade deste meu sobrinho Triste se deixar surpreender.

  5. Obrigado ao Gonçalo Van Zeller por, com pena, nos ter feito poetas e monges, copistas ou camoneanos, tanto tudo isso cabe numa pena.
    E a Tia não disse, por não ter maneiras nenhumas, que é a Rita que sempre aqui nos traz estes maravilhosos retratos. E que é o Nuno, nosso altíssimo designer, que lindamente os acende e os apaga.

  6. Muito obrigada ao Gonçalo Van Zeller por ter aceite o convite da nossa querida Rita, à Tia que lindamente no-lo apresentou e ao Nuno que hasteou a Triste pluma.

    • Escrever é Triste diz:

      Obrigada minha Triste Eugénia. E quem diria que o Nuno hasteava a pluma.

  7. Olinda diz:

    quer dizer, já não bastava termos de dizer que escrever é triste, que não é, e agora lá teremos de dizer também que escrever é uma pena. ó.

    (gosto muito) 🙂

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