Ao Henrique Monteiro, A Vingança do Mouro

solideu

Um cardeal

Os visitantes do Escrever é Triste, os que já vêm ao chá, uma ou outra ceia, sabem que, além dos Tristes, pairando sobre eles, há a Tia, a luz e sombra da Tia. É mais jovem do que julgam, uma ponta sensual que a estremece, nos estremece. Talvez não saibam é que há outros poderes subterrâneos, um rumor cardinalício. O Cardeal, cercado por uma pompa obscura e secreta, dirige, manipula. Diga-se: comanda.

Há dias o Cardeal, chamemos-lhe assim, disse-me – e não sei se me disse, se lhe saiu um comando ventríloquo que, sendo ele, era mais do que ele – temos de escrever mais uns para os outros, uns aos outros. A voz era beatífica, o olhar de uma Madre Teresa, o tom imperativo. Chorei com uma humildade de Madalena. Aquela  voz, olhar e tom são a minha estrela, o meu livro, a minha sinfonia. Por isso, hoje escrevo a um dos Tristes. E nos dias e semanas que se seguem escreverei a outros Tristes – a cada um, um texto, a cada um, um presente. Afinal, solidéu de Cardeal não se lança a saco roto.

Escrevo ao Henrique, que fez este Escrever melhor, desde que se juntou a nós. Para lhe oferecer o que ele não precisa, porque tem melhor. Mas também para que ele, como em certos, incompletíssimos, artigos da Wikipédia, leia, corrija e acrescente. Não é um desafio, é um pedido. Com Henry Purcell a acompanhar.

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Henry ou Henrique

Diria eu, Henrique, mas tu confirmarás, que no século XVII, no auge do barroco, a ópera era um parente pobre da cena musical inglesa. A verdade é que Henry Purcell gostava do palco e, para além das suas semi-óperas, compôs, nos últimos anos de vida, música para teatro.

A última peça para a qual  escreveu música incidental foi “Abdelazer ou a Vingança do Mouro”, drama escrito por uma mulher, Aphra Behn. Dos 9 temas que Purcell compôs, o mais famoso é este rondeau no estilo, imagine-se o prosaísmo, de dança popular irlandesa. Há, aliás, quem diga que a hornpipe começou como dança de marinheiros. Ou de como o sublime e o épico podem nascer do mais trivial e popular.

Para o Henrique, que bem podia ter sido marinheiro, e também para que, a partir de hoje, os Tristes escrevam aos outros Tristes, pessoal, intransmissivel, porém publicamentemente,  fica este rondeau com o pedido de que sobre ele derives, perores e, acima de tudo, dances. Como te apeteça, Henrique Purcell.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Ao Henrique Monteiro, A Vingança do Mouro

  1. Pois diga o Mestre ao Cardeal que por ser ele um ingrato, ainda lhe tiro o solidéu, e a isso chamarei a vingança da moura: sempre, sempre escrevi para os meus Tristes, desde que eram Mortos. Até em verso!

    Quer uma pessoa ir ler o Aquilino do caro Henrique e ir dormir não pode. Parece mentira… Vou-me já embora.

    • Não se ponha para aqui com despropósitos reivindicativos, Eugénia. Agora vai escrever como já escrevia, mas em carta aberta. Como às vezes faz, em rodapé, à menina Teresa e ao seu primo Ruy…

  2. Luciana diz:

    Acompanharei essa correspondência como quem aprende pelo buraco da fechadura, alguns diriam que é vista parcial e, por isso, menor. Acho eu que, escolhendo que parte privilegiamos com nossa atenção, tornamos um pouco nosso o dizer que é do (e para) outro.

    • Pelo contrário, esta intimidade que nos é cardinaliciamrente recomendada só ganha densidade e dignidade se for espretiada. Quanto mais espreitada, melhor.

  3. nanovp diz:

    Se o Cardeal pede….mas que é tarefa árdua isso desde já afirmo…por agora fica à espera da resposta do Cardeal…

  4. António Barreto diz:

    lá tenho que ir ao dicionário, pelo solidéu!

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Já tenho Tristes «vítimas» selecionadas como endereços. 🙂

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