Baile e pantominas

Detalhe de "Le Bal a Bougival" - Renoir

Detalhe de “Le Bal a Bougival” – Renoir

Lioz é o que se enxerga primeiro. Escadaria forrada a encarnado, dourados depois. Assentos dispostos em meias luas até à pista modesta. Balcões servem de alívio às cruzes dos herdeiros marialvas que dardejam olhares carnívoros às peças femininas. Eles e elas podiam ser atores escolhidos a dedo pelo Ettore Scola para filmar “O Baile”. Também neste lugar escuso das noites de Lisboa são curtos os diálogos, palpável a tensão emocional, a dramaturgia sustentada pela linguagem dos gestos. Quem ali se aventura é melhor estar preparado para incursão no mundo da pantomima das relações humanas, urbanas, maganas.

A premissa do lugar é, como no “Baile”, imutável: diluir a solidão, encontrar parceiro que aqueça noites e o momento no carrocel duma pista de dança. O elenco permanece: a florista, o jovem do subúrbio, a manequim reformada, a alcoólatra, a dama-pipi, a refugiada/imigrante, o sacristão à procura do ámen duma ela, a «pernas-e-mamas», o «homem-que-veio-de-longe» e não é o Gabin, o pós yuppie, o aluno de Apolo, o empresário, o suposto herói de guerra, o aristocrata, o rufia com jaqueta de couro e topete, o ‘mister músculo’ lá do bairro. Elas esperam convite para dançar daqueles que as negas não temem; os tímidos aguardam que alguma traduza em tiques convite de enleio.

A mise-en-scène garante aos prováveis enredos a cola do conhecimento dos corpos à cause le pot pourri musical – kitsch para os sussurros, salsa, rumbas e sambas denunciando meneios, rock’n roll e disco dance a combinarem com papos e rugas dançarinas. Naquele microcosmo de solidão enganada, a música sobe de detalhe técnico à condição de alcoviteira. E, tal como no filme do Scola, este baile é retrato psicológico dos personagens que transcende as regras comuns nos lugares noturnos de ajuntamento de homens e mulheres.

Nota: texto do arquivo pessoal.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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7 respostas a Baile e pantominas

  1. Começo a desconfiar, menina Céu, que há perversidade em si…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Gosto tanto do “Baile” e está bem dançado este post. Há um outro filme, mexicano, de uma Maria Novaro, que se chama “Danzón” e é de uma avassaladora ternura, maravilhosamente dançado.

  3. Bruto da Silva diz:

    A perversidade será em lá, pois o texto será de autor anónimo? E não confessa onde o lioz começa 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Texto «meuzinho» e quanto a confissão nem vê-la. Se bem procurar irá achar nesta «Lesboua».

  4. nanovp diz:

    Quanto acontece na noite elongada do baile, no seu ou no do Scola, até perversidades…

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