Beijinhos, Ruy, depois conversamos

 

 

 

Ame­ri­can Gothic Comes to the City, Steve A. Furman

Ame­ri­can Gothic Comes to the City, Steve A. Furman

De diferente, só o apartamento em Park Avenue. Visto-me com a mesma gola puritana e, basta que me distraia, logo agarro o cabelo num apanhado em graça. Eu sei, Mr Devon, há-de ser tudo usado contra mim mas até o senhor vai gostar de ouvir os pormenores, alegue lá depois o que quiser nas suas eloquências finais. Insanidade hereditária, vou já dando o mote para que não perca tempo. O detective é que me podia arranjar um café, machiatto se não der muito trabalho. Iguais. Copy cat geracional, que lhe parece? Deve ter começado bem lá para trás, quem sabe com quem e onde. Eu, a primeira de quem ouvi falar foi a minha bisavó Eudora. Uma criança assassina protegida do mundo por uma família que a temia. Os irmãos brincavam enrolados no feno, numa gritaria alegre, e ela matou-os devagar com uma forquilha, gritos de dor a sobreporem-se aos da alegria e o sangue a empapar tudo, não vi mas imagino bem. Uma vez e outra a forquilha e depois vieram os homens e fecharam-se todos na sala do fundo, aquela que tem o papel de flores. Lembra-se de lá ter estado, Mr Devon, no casamento da Bessie? E as mulheres choravam e viravam as costas para não serem vistas. E os homens disseram que era assim. Ninguém saberia e haviam de vigiar os passos de Eudora que dali não saía nem para o bem nem para o mal e que Deus tivesse piedade da alma dela, quando lhe fosse a hora. Quando a casaram, devem ter aferrolhado as recordações até ao dia em que a minha avó escondeu a saia para que não vissem o sangue que a ensopava. E voltaram os homens e as mulheres as costas. E choraram. Em cada geração uma criança assassina. Sem que ninguém pudesse prever quando, se pela primeira lua ou se pelo primeiro sangue. É como lhe digo, detective, visto-me com a mesma gola, basta que me distraia e falo com as mesmas palavras. Demorei nisto, mas não lhe sei dizer porquê. Talvez quando me levarem para Bellevue me achem o gene, o alelo, já não é comigo descobrirem por que razão só me apareceu tão tarde. Isto. De resto, repito: fui primeiro deixar a minha filha na festa das amigas, depois acabei o que tinha programado, dei as voltas e os recados; sabe, dantes as famílias eram grandes e havia quem tratasse e resolvesse, mas o tempo veio e separou, sopro na poeira, um grão para cada lado e não há mais tanta gente junta. Por isso, detective, há dias em que tomo as decisões de muitos. Digo: tomava. E depois das voltas e dos recados foi como viu e como eu sabia que seria e não lhe sei dizer porque não foi antes. E telefonei a Mr Devon. E onde é que eu assino? Que depois quero chorar.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

6 respostas a Beijinhos, Ruy, depois conversamos

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Ivone, está proibida de nos aparecer de forquilha. Não lhe vigiem o gene, não…

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      🙂 Queixe-se ao nosso excelso Ruy, ele é que desencadeou esta patologia toda …

  2. Pedro Bidarra diz:

    “Em cada geração uma criança assassina” é um épico de terror.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Pedro, eu tenho sempre uma pulsão épica quando começo a escrever, depois, lá está, falta-me o engenho e a arte.

  3. nanovp diz:

    E pareciam tão pacíficos!!! Mas a forquilha acorda monstros lá isso é verdade…

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