Cair de Rabo

"Viagem de Finalistas", de Harmony Korine

“Viagem de Finalistas”, de Harmony Korine

Tão vazio como a “silly season” do inferno que pretende satirizar, “Viagem de Finalistas” é excelente para ganzados à procura de pano de fundo no crepúsculo, críticos ansiosos por declarações autorais, miúdos de 14 anos que bebem sete shots de vodka para bater no peito depilado e meninas púberes à espreita do último frisson audiovisual. Harmony Korine, bicho de estimação do pós-modernismo, construiu uma carreira à custa de vago talento para planos oblíquos e um miserabilismo de trailer park. Não há pachorra para o homem, a anos luz da visceral capacidade de um Larry Clark para fotografar o egoísmo predatório da sexualidade na adolescência (para quem Korine escreveu o extraordinário “Miúdos” e “Ken Park”). Os seus “Gummo” (1997) e “Julien Donkey-Boy” (1999), dirigidos quando tinha vinte e poucos anos, são candidatos a filmes mais penosamente medíocres da História, mas uma pequena legião de observadores e aficionados encontraram aí pano para mangas – afinal, “ugly is beautiful” desde o gesto simbólico do urinol de Duchamp, e as presenças de Werner Herzog e da deusa indie Chloe Sevigny eram presumíveis selos de qualidade. Há vários bluffs no cinema contemporâneo, e Harmony (nome irónico) é um deles. “Viagem de Finalistas” é, na aparência, a antítese de “Gummo” – onde alguns desgraçadinhos vagueavam sem sentido por terrenos devastados por um tornado – mas o falso niilismo mantém-se: depois de assaltarem um restaurante para financiar uma viagem durante a interrupção das aulas, as amigas Candy (Vanessa Hudgens), Brit (Ashley Benson), Cotty (Rachel Korine) e Faith (Selena Gomez) rumam à Flórida para o deboche, acabando por ser detidas pela polícia por posse de droga; Alien (um alucinado James Franco), dealer, rapper e negociante de armas com mansão a condizer, paga-lhes a fiança, lançando-as no seu mundo; elas agradecem, pelo menos até um gangue rival tornar o divertimento mais desconfortável. Korine pega em ícones adolescentes como Vanessa Hudgens e Selena Gomez e transforma-as – ou confirma-as? – em bonecos desmiolados numa galeria de personagens unidimensionais e acções episódicas. Há câmaras lentas sobre os corpos copiosos, banda sonora electrónica, muita ganga hiper-realista e um tédio insuperável. “Viagem de Finalistas” é intencionalmente repetitivo, mas a fórmula não resulta: Korine parece querer dizer que esta inversão do hedonismo teenager não passa de um pesadelo. O problema é que o pesadelo é o próprio filme.

 Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a Cair de Rabo

  1. Isto está muito bem contado, Pedro. Não vai escrever sobre o novo Malick? Gostava muito de o ler já que discordámos tanto no penúltimo.

  2. Pedro Norton diz:

    E nem umas maminhas?

  3. Ainda não vi, Eugénia, mas estou cheio de medo das desilusões…
    Abundam as maminhas, senhor engenheiro, mas nenhum par redime o filme do desastre.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Ora bem. Somente a apresentação convenceu-me a não ver. O Pedro fundamentou a minha rejeição.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Aconteceu-me um grande azar. Vi antes de tu escreveres, Peter. Mas que monumental pessegada.

  6. Fuja, Maria do Céu. Fico contente por desta vez não teres apanhado seca com uma sugestão minha, doutor.

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