Duma austera, apagada e vil tristeza

final

Camões pede a coisa ao Rei (lustração de Carlos Alberto Santos)

Querida Eugénia de Vasconcellos, escrevo-te porque estou triste e tu podes alegrar-me. Querido Pedro Bidarra, a minha vida está a ficar sem piada nem rumo. Querida Rita Roquette de Vasconcellos, tenho imaginação e criatividade, mas de nada me serve. Querida Teresa Conceição, que ainda hoje encontrei na SIC, podes ser uma inspiração na minha vida depressiva. Querido Diogo Leote, o meu engenho definha por falta de adequado tratamento. Querida Maria João Freitas, tenho saudades dos tempos em que era feliz. Querido Vasco Grilo, sinto-me mal, cansado, doente. Querido António Eça de Queiroz, já não sou o mesmo tipo despreocupado que conheceste há tantos anos. Querida Maria João Brojo, não tenho ânimo nem ímpeto. Querido Ruy Vasconcelos nem o mar me alivia a carga de chumbo que sinto nas costas. Querido Bernardo Vaz Pinto, a tua amabilidade não chega para me arribar. Querida Ivone Mendes da Silva, nem os amigos de Sócrates se sentiam assim quando ele bebeu a cicuta. Querido Pedro Marta Santos, sou um filme negro e mal realizado. Querida Sandra Barata Belo, não represento nada que seja bom, ou belo. Querido Pedro Norton, estou arruinado. Querido Manuel Fonseca acho que me estou a ir abaixo. Querida Tia, estou irreconhecível.

Agora, que já devem estar com pena de mim, peço o subsídio. É assim que se faz nas artes, há mais de 500 anos. Duvidais? Pois vede o que o grande Camões escreveu nos seus Lusíadas, na época em que ainda tinha esperança de levar uns maravedis (Canto X – 145):

No mais, musa, no mais que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza

Pois é, meus caros tristes, a Pátria continua na austera, apagada e vil tristeza e eu continuo sem o favor com que mais se acende o engenho. Chegai-vos à frente, que eu dou-vos o NIB!

 

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a Duma austera, apagada e vil tristeza

  1. António Barreto diz:

    É só desgrácias!
    Desejo ao Henrique e ao Rui Ramos o maior sucesso no novo projeto que vão encetar. Parabéns.

  2. Ó Henrique… ia tão bem, de flor em flor, e depois, zás!

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Querido Henrique, não no dá a pátria e muito menos eu, que o que tenho é para gastar em vinho!

    • Henrique Monteiro diz:

      Posso vender um belo vinho mau pelo preço de um bom. Dás pela diferença?

  4. Libiamo,Henrique!Não é o fim do mundo,como o conhecemos e o velho se mistura com o novo.Eis a prova:http://youtu.be/AKk5MjJh728

  5. Pedro Bidarra diz:

    Queres então o peixe e não a cana.

  6. nanovp diz:

    Pois então não vê que não estão dias de dar favores, onde vive vossemecê? Mas retribuo a amabilidade…

  7. Li no I a entrevista de Pedro Bidarra. Pelo que ali se diz, tem ele obrigação de ser, não só uma pessoa feliz, mas muiiiiito feliz.Pelo percurso, pelas opções que tomou ao longo da vida… Ele há jardins e jardins em Lisboa. Coisas que só eu achava que via e agora já não me sinto tão estupida. Há outra gente que os vê. Obrigada por mim e pela minha cidade do coração. Nunca me esqueço que um dia quis levar Lisboa para o meu jardin de 100 metros quadrados num sitio da Marinha Grande. A idéia era fazer calçada portuguesa. Foi dificil arranjar a pedra e o pó e convencer alguém do projeto foi impossível. Demorou tanto que entretanto regressei a Lisboa. “deixem que os mortos enterrem os seus mortos” que eu volto para Lisboa. Obrigada.

Os comentários estão fechados.