É o meu amigo Francisco Grave que ali vai

 

Chico

Glass menagerie. Ninguém sabia e o unicórnio de cristal já se tinha quebrado. Irremediável. Foi o choro convulsivo da Antónia que me disse, ao telefone, o Chico morreu. Ao contrário do hércules com que tanto se parecia, sempre julguei sentir que o Francisco, glass menagerie, se quebraria com a delicadeza de um vidro.

Conhecemo-nos há mais de 30 anos e, na quinta-feira à noite, a última coisa de que falámos foi de um filme. “Tens o Glass Menagerie?”. O do Paul Newman? Ele tinha tudo. Ainda tinha uma VHS com o filme. “Está num dos caixotes, mas esta semana não tenho pachorra para ir vasculhar.”

Tinha tudo. O Francisco tinha carácter. O Francisco tinha sensibilidade. Tanto carácter, tanta sensibilidade, que havia quem pensasse que o Francisco só tinha mau feitio. Nascido na Quinta da Calçada, escolheu a vida que teve contra a vida que a Quinta da Calçada fatalmente lhe prometia. E a vida que escolheu foi a de ser sempre melhor e a de querer saber mais, a de tudo querer saber.

Conhecemo-nos na Cinemateca de João Bénard. O Francisco era um dos projeccionistas. Mãos de ouro. Trabalhara com máquinas de café, depois fez iluminação no teatro. Agora, os filmes. Gostava dos filmes e devorava os textos que os apresentavam. Os melhores, os do João Bénard. Nunca conheci ninguém que tivesse tanta vontade de saber. De crescer e saber. De ser melhor e saber – para si mesmo, fechado em si mesmo, sem exibição para ninguém. Um amor secreto e íntimo pelo saber, sem nenhum objectivo que não fosse o prazer de saber.

Em 92, convidei-o para a SIC. Cuidou dos filmes. Cuidou de alguns dos mais belos programas estrangeiros que a televisão portuguesa exibiu. Ainda agora, no “You Tube”, ele fez o favor, a quem tenha olhos para ver e ouvidos para ouvir, de recuperar uma dessas séries de excepção, “Beauty and Consolation”, onde, sobre o sentido da vida, falam filósofos e cientistas, historiadores e artistas. Falam com ele, com o miúdo da Quinta de Calçada que o Francisco sempre quis continuar a ser.

Amou e foi muito amado. A mãe e as irmãs, os sobrinhos. Digo outros nomes que eu sei e que ele diria de certeza: a Manuela de Freitas e o José Mário Branco, a Antónia Fonseca, a Aldina Duarte e a Joana Pontes, o José António Pinto Ribeiro e o José Gabriel Trindade Santos, a Mitó, o Mário Viegas e a Ana Prata, o Manuel Cintra Ferreira e o João Bénard, o Camané, a Maria do Céu Guerra e a Rita Lello, a Anabela Mota Ribeiro, o Carlos do Carmo e o Boucherie.

Foi um revolucionário sem revolução. Revolucionário por insatisfação, por lhe saber a tão pouco o que para muitos é a vida e basta. Não lhe bastava, nunca lhe bastaria. Tinha umas mãos grandes que queriam mais, queriam uma mal expressa ou mesmo inexprimível ternura, a mesma com que, da primeira vez que a Antónia e eu pedimos a alguém que ficasse com a nossa filha, aceitou, a tremer, ser ele o baby-sitter.

Grande, o prazer de um Cohibas ou Partagas Série D nº 4 a fumegar na boca, uma gargalhada solta, à porta da Cinemateca para garantir que se exibiria o “Je Vous Salue Marie” do Godard, o Francisco tinha uma generosidade reservada. Vai a enterrar. É o meu amigo Francisco que ali vai. Era um miúdo da Quinta da Calçada. Atrás de um mau feitio de urso desajeitado, ele era, de verdade, glass menagerie. Um delicado e mítico unicórnio de cristal.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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28 respostas a É o meu amigo Francisco Grave que ali vai

  1. as pessoas são mais fortes do que a vida. os amigos, neste caso.

  2. O vazio enche-se da memória, como um tsunami noite fora, silencioso.
    RIP (e um abração para ti)

  3. Homenageou a vida do seu amigo, e ao fazê-lo também o conhecemos um bocadinho, também é nosso que o desconhecemos até hoje. E isso é bom. Nem a solidão chega, nem o esquecimento. Por um bocadinho.

  4. Ivone Mendes da Silva diz:

    Manuel, deu-nos o seu amigo e por instantes também fomos, todos os que lemos este texto, amigos dele.

  5. Eduardo diz:

    Acho que o conheci, ao FG, e agradeço-lhe o facto de ter colocado no youtube a série que o Manel comprou para a Sic e foi vergonhosamente exibida às 3 da manhã, uma só vez. Como diz o MEC, a vida é uma grande P.
    Paz à sua alma.
    Visse ele alguma coisa agora e fizesse o favor de colocar no youtube, para nos irmos preparando.
    Ed.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Partilhas assim enchem a alma. Revelam sentidos para uma vida cheia que não de números ou fatuidades.

  7. adelia riès diz:

    E, foi amado pelo Manuel S. Fonseca.

  8. paula gameiro diz:

    Muitos parabéns,pelo texto.A amizade transforma palavras,em cânticos.Bonita homenagem a um amigo,na hora da partida.Que descanse em paz.

  9. Maria do Carmo diz:

    Pois é Manel 😉

    Se não me falha a memória (e não deixo sem querer alguém de fora), o Francisco e eu fomos as 2 pessoas que tu levaste pela mão para a SIC, no principiozinho.

    E eu não sabia, porque em 13 anos de convivência tive muitas vezes medo do Chico (do que ele pensaria de mim, se me julgaria como pessoa, muito provavelmente coisas que mais não eram do que produção da minha profusa consciência), eu tive sempre dificuldade em me aproximar desse Hércules com sensibilidade de oiro que tu descreves com pena de cristal, e que, se eu reflectir melhor, me estendeu várias vezes uma gargalhada com mão de amigo.

    Porque pessoas que não têm medo de nada, como me parecia ser o Francisco, sempre me deixaram sem jeito e com pena de não ser como elas.

    Se a alma existe, que a sua alma se liberte com harmonia e prossiga o seu caminho.

    As memórias ficam connosco, pelo menos enquanto vivermos. E partilhando-as, tocamos os outros e fazemo-los sorrir ou chorar, que são a expressão de 2 faces de uma só moeda, o nosso espírito, a nossa sensibilidade, a nossa capacidade de nos emocionarmos.

  10. Oh Manel. O Francisco fazia tão parte desta casa. Crescemos todos nela, juntos, nesta SIC que nos leva os dias. Quando um parte, um como o Francisco, andamos todos práqui com um bocado a menos.
    Obrigada pelo retrato que dele deixou.

  11. Agradeço a todos os comentários, o pesar e a amizade.

  12. riVta diz:

    não conheço ninguém que saiba escrever tão bem às escuras
    um bocadinho dele é agora nosso também

  13. Jorge Silva diz:

    Bolas, Manuel, quem escreve assim não é gago e tem uma grande alma.

    • Rita e Jorge,
      agradeço-vos a simpatia que é também, e sobretudo, simpatia por este meu amigo Francisco que não conheceram, mas que, por nos deixar assim, sem aviso e tão antes do tempo, nos deixa desarmados.

  14. paula coelho diz:

    Boas palavras pelo Francisco Grave com quem partilhei amizade, não tão íntima nem tão longa, mas nas quais o revejo e guardo. Obrigada Manuel Fonseca.

  15. Maria Isaura Fernandes Grave Folgosa diz:

    Muito obrigado pelas palavras que escreveu sobre o meu irmão; ele era mesmo assim um menino de ouro, quem o teve como amigo e foram muitos , como nós vimos no último adeus que lhe quizeram dar, não vão concerteza esquecê-lo, como nós também não.
    Um grande abraço para todos e um muito obrigado
    Uma das irmãs, a Isaura

  16. iara grave diz:

    também queria agradecer pelas palavras tão belas e como descreveram o meu tio. Era o melhor tio do mundo e vou sentir muito a falta dele como todos vos. Um grande beijinho para todos e obrigada pelas palavras belas que o descreveram. Iara Grave (sobrinha)

  17. Luis Grave diz:

    Um obrigado pelas palavras, que descrevem o meu tio na perfeiçao.
    Ele fica para sempre nas nossas memorias.
    Mas vou sentir imenso a falta dele.
    Um abraço.

    Luis Grave

    • Isaura, Iara e Luis,
      Não têm nada, mas mesmo nada a agradecer. Há um legado do Francisco que importa seguirmos: tentarmos ser sempre melhores, mesmo quando isso parece impossível e até parece que o mundo nos dá uma desculpa para desistirmos. É a melhor homenagem que lhe podemos prestar. Um forte abraço.

  18. carlos grave irmao diz:

    as tuas
    s palavras para mim sobre o meu irmao são quase ´epicas não consigo descrevelo melhor do que tu e eu que nasci com ele para mim o meu irmão era quase tudo para mim como a minha mãe o meu pai e os meus irmãos .não sou um homen de grandes palavras.por isso agradeço te as palavras sobre o meu irmão.obrigado muito agradecido do meu fundo do coração.carlos grave.

    ,

  19. Ricardo Grave diz:

    agradeço imenso as palavras proferidas!é magnifica a homenagem prestada agradeço por isso!que a sua alma descanse em paz tio para mim sempre foi como um pai e orgulho-me muito dele pois foi com o orgulho a admiração e a motivação que sempre me transmitiu que consegui evoluir e ser a pessoa que sou!um forte agradecimento do sobrinho mais novo Ricardo Grave

    • gisela marisa diz:

      Vou imprimir novos rumos
      Ao barco agitado que foi minha vida
      Fiz minhas velas ao mar
      Disse adeus sem chorar
      E estou de partida
      Todos os anos vividos
      São portos perdidos que eu deixo pra trás
      Quero viver diferente
      Que a sorte da gente
      É a gente que faz

      Quando a vida nos cansa
      E se perde a esperança
      O melhor é partir
      Ir procurar outros mares
      Onde outros olhares nos façam sorrir
      Levo no meu coração
      Esta triste lição que contigo aprendi
      Tu me ensinaste em verdade
      Que a felicidade está longe de ti minha família…..

      descanse em paz Francisco grave…..

      aqui deixo esta mensagem para sua família,meu cunhado Pedro grave e sua mãe Isaura grave e restantes familiares beijos e muita força….. Gisela Marisa

  20. Carlos, Ricardo e Marisa, um abraço.

  21. carlos grave irmao gostaria que as pessoas amigas dele .todas tivessem um bocadinho de bom senso e dissesem alguma coisa sobre ele e não tivessem vergonha porque sinto que são cobardes. carlos grave irmão diz:

    eu irmão do chico grave gostaria a quem ele abriu os olhos .os chamados amigos ,lhe prestassem uma homenagem que essas pessoas ,deveriam de lhe dizer,obrigado chico estu-te muito agradecido i não digo mais nada ,carlos grave

  22. carlos grave irmao gostaria que as pessoas amigas dele .todas tivessem um bocadinho de bom senso e dissesem alguma coisa sobre ele e não tivessem vergonha porque sinto que são cobardes. carlos grave irmão diz:

    peço-te a ti manuel fonseca desculpas por este meus desabafos,tinha tantas coisas a dizer mas fico-me por aqui,obrigado ,desculpa-me por estes desabafos mas sentidos,

  23. desconhecido diz:

    Existem pessoas em nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples fato de terem cruzadono nosso caminho.
    Algumas percorrem ao nosso lado, vendo muitas luas passarem, mas outras apenas vemos entre um passo e outro.
    A todas elas chamamos de amigo. Há muitos tipos de amigos.Talvez cada folha de uma árvore caracterize um irmão, com quem dividimos o nosso espaço para que ele floresça como nós. Passamos aconhecer toda a FAMILIA de folhas,a qual respeitamos edesejamos o bem.
    Mas o destino nos apresenta outros amigos,os quais não sabiamos que iam cruzar no nosso caminho.Muitos desses denominamos amigos do peito, do CORAÇÃO. São sinceros, são verdadeiros. Sabem quando não estamos bem, sabem o que nos faz feliz…
    Às vezes, um desses amigos do peito estala – se no nosso coração e entãoé chamado de amigo namorado. Esse do brilho aos nossos olhos, musica aos nossos lábios, pulosaos nossos pés.
    Mas tambem há aqueles amigos por um tempo,talvez umas férias ou mesmoum dia ou uma hora…Esses costumam colocar muitos sorrisos na nossa face, durante o tempo que estamos por perto.
    Falando em perto, não podemos esquecer dos amigos distantes. Aqueles que ficamnas pontas dos galhos, mas que quando o vento sopra,sempre aparecem novamente entre uma folha e outra.
    O tempo passa,o verão se vai, o Outono se aproxima e perdemos algumas das nossas folhas.
    Algumas nascem num outro verão e outras permanecem por muitas estações.
    Mas o que nos deixa mais feliz é que as que caíram continuam por perto, continua alimentando a nossa raíz com ALEGRIA.
    Lembranças de momentos maravilhosos enquanto cruzavam com o nosso caminho.
    DESEJO a você, folha da minha árvore, Paz, Amor, Sucesso e Prosperidade…
    Hoje e sempre… simplesmente porque: Cada pessoaque passa em nossa vida é ÚNICA.
    Sempre deixa um poucode si e leva um pouc de nós.
    Há os que levam muito,mas não háos que não deixaram nada.
    Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente de que duas almas não se encontram
    por “acaso”
    (estarei sempre ao teu lado)

  24. Maria Isaura Grave Folgosa diz:

    Boa tarde a todos os que conheceram o Francisco.
    O Francisco faria hoje 60 anos e para ele deixo esta mensagem; onde quer que estejas um grande abraço com muita saudade.
    Um dia a saudade deixa de ser dor
    e vira história para contar e guardar para sempre.
    Algumas pessoas são assim, eternas dentro da gente.
    A irmã Isaura.

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