Faster than life

O post do Manuel Fonseca sobre James Dean (e não só) deu-me vontade de ressuscitar, não sem antes o ter devidamente mutilado, um texto que escrevi há alguns anos, a propósito deste anúncio para o então novo Porsche Boxster.

porsche-boxter-james-dean-small-95680

 

Nos anos 50, James Dean foi a marca registada da rebeldia. Durante a sua carreira, uma das mais breves e meteóricas da história do cinema (protagonizou  apenas três filmes), interpretou jovens problemáticos como se o cinema fosse a projecção da sua própria vida. Talvez mais desajustado do que inconformado, não aceitava as regras impostas pela sociedade e o seu ar de uma indomável fragilidade tornou-se a imagem da juventude desencantada. A 30 de Setembro de 1955, depois de ter rodado com Nicholas Ray Rebel Without a Cause (que apenas estrearia após a sua morte), James Dean conduzia o seu Porsche Spyder prateado quando este colidiu violentamente com outro automóvel num cruzamento na estrada de Salinas, na Califórnia. A morte que espera todos – o mais belo, o mais rico, o mais jovem e o mais corajoso – esperou James Dean num cruzamento da sua fúria de viver. Ao volante do seu Porsche e com o pé no acelerador, perguntou à morte até onde podia ir. A 170 km/hora e com apenas 24 anos, levou à letra a famosa frase de Nick Romano (interpretado pelo então jovem actor John Derek), personagem de outro filme do mesmo Ray, Knock on any door: “Live fast, die young, and have a good-looking corpse.” Como se de uma justiça cósmica se tratasse, morreu o jovem actor e nasceu instantaneamente o mito, produzido pelos milionários estúdios de Hollywood e pelo destino. Por ironia deste mesmo destino, tinha rodado duas semanas antes um spot televisivo contra a velocidade na estrada, em que pedia aos condutores para circularem mais devagar, porque talvez estivessem a salvar a vida dele. O acidente, prova de que James Dean era humano (porque mortal) deu-lhe entrada imediata na galeria dos heróis. O seu corpo, apesar de mutilado, destruído e irreconhecível, manteve-se belo, intocável e jovem nas fotografias que fazem pose para a eternidade. Os deuses decidiram que James Dean nunca teria rugas ou cabelos brancos.

Mas eis que James Dean ultrapassa a morte, numa manobra mais criativa do que perigosa: para demonstrar o apelo irresistível do novo Porsche Boxster, este anúncio leva-nos pela mão até a um cemitério escuro e arrepiante. Estamos na última morada do actor, assinalada com o seu nome: James B. (de Byron, imagine-se) Dean e pela vida terrena, quase tão curta como o traço de um hífen. A campa está aberta e o seu cadáver evadiu-se. Tantos anos depois de ter sido retirado morto do esqueleto de metal retorcido do seu automóvel, o actor ressuscitou (talvez como fantasma) porque a vontade de conduzir um Porsche é maior do que a morte – mesmo que o indomável automóvel que todos os homens desejam conduzir tenha o tamanho de um inofensivo carrinho de brincar de um menino. Como tão bem escreveu o Manuel Fonseca, a sua doença chamava-se adolescência e James Dean ficou congelado no tempo, recusando-se a ser adulto. Morrem cedo aqueles que os deuses amam. Ou será que nós, humanos, os amamos tanto precisamente porque eles morrem cedo?

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

5 respostas a Faster than life

  1. António Barreto diz:

    Talvez porque poderiam ter sido apenas tudo aquilo que gostaríamos que fossem…

  2. Não foi H. Bogart que disse que Dean morreu na altura certa? Do género se vivesse mais o mito ter-se-ia desfeito?
    Loved the post. 🙂

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Bem lembrado, o anúncio. Muito bem trazido e armado, o texto.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Estou com o Manuel. Magnífico!

  5. nanovp diz:

    Eterno, imortal, ou simplesmente humano. O cinema, e os seus protagonistas, às vezes perdem-se na confusão…

Os comentários estão fechados.