Fazer Sexo”, “Fazer Amor”

Hendrik Goltzius

Hen­drik Goltzius

Dei cor à nor­mal­mente negra tele­vi­são. Sexo como tema em debate. Aguen­tei duma hora, soube depois, um quarto. Amiga atenta a deba­tes tem, entre outros, o mérito de me infor­mar da fra­ção útil que deles retira. Findo o repasto tele­vi­sivo, veio crí­tica glo­bal­mente severa. Além da fatui­dade, subli­nhou «peito» por mamas e «fazer sexo» por «estar em sexo». Parecendo-me equi­va­lente a estar em tra­ba­lho ou em via­gem, questionei-me e a quem o pen­sar da nossa lín­gua vicia.

For­ni­car, copu­lar, foder são pala­vras do nosso léxico. Quem as rejeita dirá que estar em soci­e­dade obriga a decoro no dis­curso. Pre­fere as expres­sões «fazer sexo» ou «fazer amor». A pri­meira realça uma fun­ção bio­ló­gica e assép­tica; a segunda atri­bui à cópula afeto como agrada aos her­dei­ros da tra­di­ção cristã. Essen­ci­al­mente, dis­tin­ções oci­o­sas. Pelo her­dado de anta­nho, pre­fe­ri­mos «delico-doçuras» para expri­mir o sabido.

No canto nono dos Lusía­das, é des­crito paraíso à época muito seme­lhante ao recém-descoberto Bra­sil. Depois de alcan­ça­rem Cale­cute, Vénus pre­meia nave­gan­tes. A deusa indus­tria as nin­fas para se ocul­ta­rem, depois revelando-se com sabe­do­ria, como faria qual­quer com­pe­tente patroa de uma casa de putas. Os mari­nhei­ros fodem com as nin­fas nos “can­tei­ros”, que é como quem diz, pelos can­tos. Vasco da Gama é brin­dado com os favo­res de Thé­tis no luxo do palá­cio em cris­tal. O mari­nheiro Leo­nardo, des­gra­çado nos amo­res até ali apor­tar, logrou ninfa ren­dida. Ele “des­feito em puro amor” — eja­cu­la­ção pre­coce sua­ve­mente des­crita. Pelas des­ven­tu­ras e meses nos oce­a­nos, res­tava àque­les homens a mas­tur­ba­ção e a homos­se­xu­a­li­dade. A “Ilha dos Amo­res” sim­bo­liza bem-aventurança maior: encon­tro com o divino pela for­ni­ca­ção abençoada.

Na magia negra, há a visão satâ­nica de for­ni­car com o diabo. Lambê-lo. Atin­gir o pra­zer máximo mulher que ele pene­tre. Fausto, ven­dido ao demó­nio a troco de duas dúzias de anos sem enve­lhe­cer, tam­bém asso­cia ao maligno os pra­ze­res da carne. Nem a magia branca do amor de Mar­ga­rida poupa o amante ao Inferno.

Sodoma e Gomorra foram ani­qui­la­das devido à imo­ra­li­dade dos seus habi­tan­tes. Às per­ver­sões dos cana­neus quase ser­viam os anjos envi­a­dos para auxi­li­a­rem Abraão a sal­var ambas as cida­des. Não fora Ló, e os anjos não esca­pa­vam. E porquê? Pelo pra­zer e pos­si­bi­li­dade da cópula gerar vida que apro­xima os huma­nos do Cri­a­dor. O sexo como mal­di­ção se ape­nas o pra­zer almeja.

Tenho sexo quando quero” dizem alguns, fan­far­rões é certo. “Tenho sexo duas vezes por semana” afir­mam outros. E no tempo res­tante? Pou­sio que a líbido rege? Cosem ou cor­tam, ren­tes, os órgãos sexuais?

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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20 Respostas a Fazer Sexo”, “Fazer Amor”

  1. Olinda diz:

    sabes, maria do Céu, tenho a cer­teza de que os órgãos sexu­ais têm per­so­na­li­dade e identificam-se com o lugar onde vive a alma que lhes dá vida.

    quando ao foder e ao fazer amor, parece-me mesmo bem a fes­tança das pala­vras em uso:

    há foder amor
    há amor fodido
    há foder
    há amar

    e tam­bém há mamas, os mon­tes que embe­le­zam os dias do peito. :-)

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Não sei se os ímpe­tos sexu­ais che­gam dire­tos da alma ou da gené­tica. Ado­rei o seu tro­ca­di­lho. Tão verdadeiro!

  3. Júlio Gonçalves diz:

    E por­que sabi­a­mente o evo­caste, relem­bro: «Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo/Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.» Estrofe 83 do dito Canto.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Sem­pre opor­tuno e assertivo :)

  5. Nina diz:

    É giro(?!), sobre­tudo por­que não encon­tro uma razão plau­sí­vel, mas sem­pre que a leio é como se eu tivesse de per­cor­rer uma longa rua com uma pedra no sapato. Causa-me sem­pre um tre­mendo des­con­forto e, creia-me, já ten­tei des­pe­jar a mente e o cora­ção por forma a captar-lhe um ângulo que me levasse a gos­tar da sua escrita. Não con­sigo. Peço des­culpa. Uma escrita pre­ten­si­osa e que se torna pro­fun­da­mente enfadonha.

    Pos­si­vel­mente teria sido pre­fe­rí­vel nem me pronunciar.

    • Olinda diz:

      (quando uma pedra me fode, pelo sapato, o amor do cami­nho descalço-me e atiro a pedra para fora. bater em força de não gos­tar n(d)a pedra é que não) :-)

    • Bruto da Silva diz:

      Pois é… causa engu­lhos como nas abor­da­gens científicas.

      Triste sina como a dum ‘repasto tele­vi­sivo’ ou duma ‘fun­ção asséptica’ :-(

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Por equí­voco a res­posta surge mais em baixo. Sorry.

  6. Mário diz:

    Faz-nos falta a ambi­va­lên­cia do “fuck” inglês. Algo que se encaixe ali no meio, entre o amor e o f.….

  7. Fatima M. Padinha diz:

    E que tal o “joder” de nues­tros her­ma­nos, usado de cima a baixo, a pro­pó­sito de tudo e de nada ??? Nin­guém está nem aí .…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      É bem ver­dade. Curi­o­sa­mente, povo que a tra­di­ção diz mais enfeu­dado em nor­mas cató­li­cas que o nosso, con­quanto o uso do termo em debate tenha tam­bém con­tor­nos outros.

  8. Gos­tei do texto e da refle­xão, Céu. Faz falta falar disto, ir falando.
    E que bom ter tra­zido aqui a ilha dos amo­res. Um riso­nho sopro de ar numa tarde sem janelas.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sabe que a sua opi­nião conta e muito. Tam­bém opino que ati­çar bra­sas sobre alguns temas é fun­da­men­tal. Em sin­to­nia, portanto.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Esti­mada Nina,
    Sendo tama­nho o des­gosto, reco­mendo viva­mente que ao deparar-se-lhe escrita minha passe à frente. Gos­tei do feed­back que me deu. Obrigada.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    E, no entanto, o termo sem­pre teve lugar cativo no léxico por­tu­guês. Aliás, na minha opi­nião, for­ni­car não pos­sui a mesma expres­si­vi­dade. As soci­e­da­des criam tabus lin­guís­ti­cos e con­tra isso julgo marchar.

  11. Adão pôs uma parra. Eva, depois da maçã, deu-lhe a uva. Muita, já se vê, tanta é a huma­ni­dade que somos.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ter­reno fér­til e pre­pa­rado para a semen­teira que nos fez. Para mim tenho, que Adão e Eva lá sabiam o que faziam ao infrin­gir as nor­mas divinas.

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