“Grandes Esperanças”

 

 

Charles Dickens retratado em "Dickens' Dream", Robert William Buss, 1875

Charles Dickens retratado em “Dickens’ Dream”, Robert William Buss, 1875

Perder a capacidade de amar. De se doar ao outro. De experimentar o egoísmo no amor. De neste encontrar altruísmo. Das contradições inerentes a quem ama tecer belo rendilhado com o fio do quotidiano enobrecido pela intensidade dum bom sentir.

Receio de amar. De se expor à possibilidade de um fracasso. De ser rejeitado e, ainda assim, amar. Do amor não correspondido é dito ser o pior dos amores porque esmorece, entristece quem o vive. A desesperança instala-se e com ela perece uma fatia do ser. Outra insiste em vivê-lo ainda que recalcado e enviado para o inconsciente. Para aqueles que conseguem preservar e gerir tal amor, a esperança não definha. Estes são os que possuem “Grandes Esperanças” de amar.

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Inevitável arribar da memória a novela “Great Expectations”/”Grandes Esperanças” de Charles Dickens. Embora a força da obra seja mais abrangente, as personagens Pip (Finn) e Estella constroem uma representação do amar sem retorno. Educada por uma tia descrente no amor, também ela rejeitada, enrugada pela idade e pelo envelhecimento da esperança de um dia amar e ser amada, Estella ignorava o caminho para um afeto intenso e romântico. Daí a indiferença pelo afeto de Finn. Todavia, este amava pelos dois. Ideou enriquecer, conquistar o mesmo nível social de Estella. Após inúmeras partidas da vida descritas com a vivacidade de Dickens, Pip atinge o propósito sem desistir de Stella. Finalmente, a gélida Stella aprende com ele o caminho de um grande amor.

Na adaptação ao cinema, o filme de 1998 “Great Expectations” foi dirigido por Alfonso Cuarón em ambiência decadente e suntuosa. Gwyneth Paltrow é Estella, Ethan Hawke, Finn e Anne Brancroft desempenha o papel de Ms. Nora Digger Dinsmoor, a tia. Quer o livro, quer o filme são obras que amo. Para eles reservo lugar nos ‘melhores da minha vida’.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a “Grandes Esperanças”

  1. Já viu a versão do David Lean, Maria do Céu? E há agora uma nova com o Mike Newell, movida a Ralph Fiennes.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ainda não e lamento. Pelos realizadores e pelo Raplh Fiennes, prometem. Passo pela Fnac e vão dois (ou mais) de uma só vez.

  2. É um grande livro, Céu. Bela escolha!

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Do Dickens guardo memórias de leituras inesquecíveis pelos textos e contextos. Vou arriscar trazer outro aqui. Obrigada, Teresa.

  3. nanovp diz:

    Que saudades dos Clássicos, Maria do céu, mas só lhe digo que não li este!!!!! Uma falha sem explicação….

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Também eu perdi muitos dos clássicos. No correr do tempo, tenho recuperado alguns, a outros retorno. E sabe? Não considero falhas, antes a seletividade natural que se impóe no crescer constante de cada um.

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