Já não acredito em nada. Prefiro acreditar em tudo

Laocoon

Laocoonte e seus filhos

Shakespeare. Comecemos por Shakespeare. Pode bem ser que Shakespeare seja só um “nome emprestado” a uma obra – a hipótese de que as suas inúmeras peças sejam da autoria de um “outro Shakespeare” ou, numa hipótese mais plural, de “outros Shakespeares”, converte-o, afinal, na sublime e fictícia personagem de uma inimitável “comédia de enganos”, um sonho de uma noite de Verão.

É menos surpreendente do que parece. Antes dele, perfila-se uma tradição de incerteza e mistério. É provável que Homero não tenha existido e que a “Ilíada” e a “Odisseia“, obras fundadoras, sejam também obras órfãs.

Sócrates (e falo do grego), mesmo que tenha existido, não escreveu uma linha, o que deixa o célebre “conhece-te a ti mesmo” desesperadamente à procura do “seu” sujeito. Há Sócrates em Platão e Aristófanes, mas o que tem o Sócrates da “Apologia” a ver com o das “Nuvens“?

Já sei, já sei! – vão também, e com razão, lembrar-me que Jesus (o Cristo, entenda-se) não teve, sequer, existência histórica reconhecida – ainda hoje, na apresentação da “Correspondência de Sena e Gaspar Simões“, ouvi Onésimo Teotónio de Almeida dizer que, escrito e descrito por quatro autores, há um Cristo singular, um Cristo outro, em cada um dos Evangelhos.

Também hoje, no mesmo hoje em que se ouvia a voz de Onésimo, em Mumbai ou Bangalore, porventura no lançamento de outro livro, um conferencista terá insidiosamente lançado uma a-histórica suspeita sobre Siddhartha Gautama, alegando que pelo menos 24 Budas emergem das escrituras sagradas numa proliferação que antecipa, em séculos, o Matrix de Hollywood, essa invertebrada fábrica de lendas.

Maomé, o áspero e arrebatado profeta, não escreveu, não ditou e o mais certo é que não se reconhecesse nas 92 suras que dizem ter-lhe sido reveladas em Meca, nem tão pouco nas 22 que os céus só lhe mostraram em Medina. Que rosto se reflecte afinal na lâmina dessa cimitarra que braços xiitas e sunitas agitam sobre tanto deserto?

Não é estranho que tenhamos construído tantas civilizações em cima de “figuras ausentes”? Mas pode alguém espadeirar contra esse cavalo de Tróia? Veja-se a pavorosa morte de Laocoonte e dos seus dois filhos: quiseram denunciar a homérica armadilha e, mandadas pelos deuses, vieram duas sólidas e implacáveis serpentes marinhas estrangulá-los sem remissão.

Ficção em cima de ficção, fantasmas em cima de fantasmas? É assim que pensamos. E ninguém, em seu perfeito juízo, se atreverá a censurar aos humanos que tenham inventado os esplêndidos deuses. Mas que tenham também inventado os humildes inventores dos deuses, num inverosímil labirinto ficcional, a que outra coisa poderá obrigar-nos que não seja ao mais feroz cepticismo? Ou será à mais inocente e humilde das crenças?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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13 respostas a Já não acredito em nada. Prefiro acreditar em tudo

  1. Também está assim, sem perguntas e respostas, a filha da Birkin:

  2. MariaLima diz:

    …sim; porque no dizer do nao acreditar em nada, implicito esta o acreditar…mais do que em tudo…o acreditar nalguma coisa!

  3. Pedro Bidarra diz:

    Uma infinita regressão de ficções pensadas como futuros no passado. É onde todo o presente está assente.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Ao ser perdida a confiança, a hipótese de momentos próximos da felicidade diminui em proporcionalidade direta, em particular se a confiança no futuro foi traída por terceiros poderosos. De momento é o que acontece no esvair da crença em que nos afundaram e afundamos.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria, esvair é potencialmente a única garantia de futuro.

  6. As figuras ausentes são as únicas que oferecem… espaço. Estou convencida de que as civilizações são antes de qualquer coisa actos da imaginação. Assenta-lhes a ficção.

    Ps: o relativismo dá cabo de si. Não vale responder que sou absolutista!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sabe, Eugénia, a culpa é da escultura do Laocoonte seus filhos. Via-a num caríssimo Atlas geográfico de João Soares que o meu pai, que não tinha um tostão, me deu quando eu tinha dez anos. Nessa altura não fui relativista. Devo ter percebido o que lhe custou e vi, do Atlas, as fotos e os mapas, uma a uma, um a um, aprendi as bandeiras, os países, as capitais. Um Dom Miguel dos Atlas, pois claro.

  7. nanovp diz:

    Acreditamos naquilo que dá mais jeito, ou acreditamos apenas no que dá sentido, universal e muitas vezes incompreensível, à vida. Tento avançar sempre para o segundo…

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