Ms. Patientia e Mr. Diligentia

American Gothic Comes to The City

MS. PATIENTIA: Não te mexas.
MR. DILIGENTIA: Porquê?
MS. PATIENTIA: Vamos fingir que somos estátuas.
MR. DILIGENTIA: Estás doida mulher!
MS. PATIENTIA: Já viste que ninguém se parece connosco. Eu bem te disse para não trazeres a forquilha. Vão confundir-te com o Diabo.
MR. DILIGENTIA: Disparate! Confundirem-nos a nós? Nós somos Virtudes? Como é que é possível confundirem-te a ti, Patientia, ou a mim Diligentia, com o Diabo ou com o pecado ou com qualquer outra malignidade.
MS. PATIENTIA: É a forquilha, homem. E é esta maldita roupa que nos faz parecer deslocados, antiquados, anacrónicos; maus até. Já viste como as pessoas nos olham. Já ninguém se veste assim. Devíamos ter ido à GAP antes de entrar na cidade.
MR. DILIGENTIA: Mas o que é que tem de mal a roupa e o nosso aspecto em geral? E a forquilha? qual é o problema? Uma forquilha é sempre bem vinda. Quem sabe se pela avenida fora não damos de caras com um jardim a precisar de cuidado, ou de um pecador que precisa de sentir os dentes afiados da forquilha no traseiro para acordar as Virtudes.
MS. PATIENTIA: Vamos parar aqui homem. E fazer de estátuas. Assim vão passar por nós sem darmos nas vistas. Vão julgar que é arte pública. Ou que somos performers daqueles que não se mexem.

Os dois param e ficam imóveis em plena Michigan Avenue mesmo em frente ao edifício do Chicago Tribune. Ela a olhá-lo ligeiramente de lado e ele a olhar fixamente em frente.

MR. DILIGENTIA (falando entre dentes): E agora?
MS. PATIENTIA: Agora ficamos quietos até a ser de noite e fingimos que somos estátuas.
MR. DILIGENTIA: E depois?
MS. PATIENTIA: Depois vamos mudar de aspecto se não ninguém nos leva a sério.
MR. DILIGENTIA: Continuo sem perceber porque é que temos que ficar aqui feitos estátua. Viemos à cidade porque a cidade precisa de nós. Viemos cá fazer o nosso trabalho. Eu trouxe a forquilha, tu trouxeste os teus modos serenos.
MS. PATIENTIA: É tudo muito boa ideia, mas o problema é de guarda-roupa. Para convencer, ou converter alguém à virtude, teremos que ir às compras. É como te digo. Parecemos a encarnação do demo, metemos medo. Pra mais com essa maldita forquilha. Bem te disse que não era para a trazer.
Passámos tempo demais esquecidos no campo…
MR. DILIGENTIA: Que é onde melhor medram as Virtudes.
MS. PATIENTIA: Mas é na cidade que elas são mais precisas.
MR. DILIGENTIA: E se não posso usar a forquilha para despertar a virtude espetando-a no cu do pecador como é que faço?
MS. PATIENTIA: Compramos um taser.
MR. DILIGENTIA: Mas não é a mesma coisa, mulher. Até concordo que um taser sirva, e muito bem, para despertar a virtude no pecador, mas não tem o carácter simbólico da forquilha. Não expressa presteza, ética, trabalho. Não mulher; até posso ir à GAP, ou a qualquer outro outlet, e trocar estas roupas anacrónicas por uma camisa de flanela, uma calças de ganga, um blazer mais casual e urbano e uns sapatos mais confortáveis e andarilhos, mas a forquilha não largo. Muito menos por um taser, instrumento a que falta todo o simbolismo que eu necessito para ser credível.
MS. PATIENTIA: Guard Dog Security Cell Phone Stun Gun de 2,700,000 Volts.
MR. DILIGENTIA: O quê?
MS. PATIENTIA: Vi na Amazon antes de vir – já desconfiava que a forquilha não ia ser grande ideia – é um telemóvel que é, ao mesmo tempo, um taser. Ou seja, para além de despertar a Virtude no pecador, como os dentes aguçados da tua forquilha, também simboliza o trabalho.
MR. DILIGENTIA: As coisas que tu sabes, mulher.

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Entretanto a temperatura desce abruptamente, cai a noite fria e o vento cortante e gelado que sopra pelas ruas de Chicago, vindo de norte pelas águas do lago Michigan, congela as duas Virtudes mesmo em frente ao edifício do Chicago Tribune. Ali, enquanto jornalistas agasalhados saem e entram na redacção, e tardios transeuntes se apressam em direcção às casas quentes, a Diligentia e a Patientia, hirtas como estátuas, apenas mexem a boca, embora ventriloquoamente.

MR. DILIGENTIA: E agora mulher? O que fazemos?
Sabes que eu não sou de estar quieto. Eu não fui feito para isto.
MS. PATIENTIA: Agora temos paciência. E esperamos que melhor tempo nos descongele.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

11 respostas a Ms. Patientia e Mr. Diligentia

  1. Olinda diz:

    ai que riso! 🙂

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Delícia que li e reli. Parabéns!

  3. Bruto da Silva diz:

    E vai à cena no Capi tólio (breve mente) 😉

    Uma ternura!

    (será que tiveram descen dentes?)

  4. Sempre poderão meter-se num carro e drive:

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, não deixes que larguem a forquilha. Não há taser que a substitua

  6. Pedro Bidarra diz:

    Um dia destes vou-me passear com uma pelo Chiado com uma. E talvez desça o Calçada do Combro até São Bento. Só pra ver no que dá.

  7. nanovp diz:

    E não se arranja um parezinho para cá? Com forquilha ou Taser? E já agora se desceres a calçada avisa….

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