Na Hora da Despedida

DSCN5067Na terra onde o céu andava cansado do próprio tempo, as nuvens esparsas amontoavam-se de manhã em neblina, para se dispersarem à tarde e deixar o azul profundo aparecer na cúpula celeste. Cheirava a primavera mas esta tinha envelhecido, suculenta, parada, os passeios tardios na borda da ravina traziam arrepios aos braços cobertos de pelos brancos.

-A imaginação, aliada ao tempo, prega partidas terríveis. Nada é aquilo que imaginamos. O tempo amarrota-nos como roupa molhada.

Por detrás de uns óculos de armações finas os olhos pequenos, oblongos, cintilavam, cedros altos reflectidos na pupila escura e vidrada. Ali em baixo o mar rugia. Era um mar forte, indignado, sem ainda a cor do verão.

As árvores dobravam-se cansadas do vento, de milhões de anos ao vento, e apareceste, vestido leve que esvoaçava, a linha sinuosa e perfeita do corpo revelado em sombra, um sorriso subtil, disfarçado pela mão que cobria a boca. Anos em que sonhavas acordado, com aquelas rochas, aquele sal no ar, o vento fresco onde nos enroscávamos. E havia a areia nos pés, seca, o frio que começava quando caía o sol, a humidade na terra.

Por entre os longos degraus esculpidos na pedra, torneados pelo tempo, verdes ramos rebentavam mesmo debaixo das dunas e da poeira, para lançarem pequeníssimas flores durante o dia, procurando a luz, o calor, como nós procurávamos tudo o que fosse vida, sentido, e deixávamo-nos conquistar pelo amor, atordoados na imensidão da descoberta de nos sentirmos únicos, sós, habitantes de um universo onde um toque de mão conseguia mover montanhas.

Passei os dedos  pelos teus longos cabelos castanhos, inveja de tantas outras mulheres, na hora da despedida.

-Vais ver que não vais sentir a minha falta. Vais ver. Daqui a pouco tempo nem te lembras de mim.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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15 respostas a Na Hora da Despedida

  1. Que texto tão bonito, Bernardo.
    Atordoados de descoberta, de mão que move montanhas, e depois o tempo.
    Fiquei com areia nos pés.

  2. Que bonito, Bernardo. Porque será que o amor acredita que um toque de mão con­se­guia mover montanhas? É maravilhoso isso de sabermos que não e acreditarmos que sim.

  3. Pedro Norton diz:

    magnífico.

  4. Olinda diz:

    agora tens de continuar – agora porque estamos atordoados.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Deleite e emoção contida. Gosto mais dela assim nem sempre nem nunca.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    suite para cello

  7. riVta diz:

    foi como se estivesse lá

  8. nanovp diz:

    E eu a pensar que ninguém nos tinha visto…

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