Na rota de Lawrence da Arábia

Como certamente perceberam já pela belíssima recepção que lhe dispensou o nosso PMS – e quem melhor do que o PMS para receber com a pompa e a circunstância devidas as lendas da História transformadas também em lendas do Cinema? -, T.E. Lawrence está de volta às nossas salas de cinema. E isso fez-me recuar aos tempos não muito distantes em que decidi seguir-lhe o rasto por terras da Jordânia e da Síria (tempos em que alguém ainda se podia aventurar por territórios sírios) e ao texto que então me inspirou o deserto que foi a sua casa.  

O invulgar deserto de Wadi Rum

O invulgar deserto de Wadi Rum

Já era muito ténue a recordação que David Lean me deixara do deserto de Wadi Rum, tantos e tantos anos decorridos sobre a tarde em que vira o seu Lawrence da Arábia. Mas a minha memória retinha ainda a sensação de fascínio que transmitia o lugar em que o enviado de Sua Majestade convertido em guerrilheiro Lawrence (Peter O´Toole no filme, num papel que marcou de tal forma que, a partir de então, ele se passou a confundir com Lawrence e este com Peter O´Toole) reunira as tribos beduínas a caminho do assalto a Aqaba, primeiro, e depois a Damasco, na jogada de alto risco que decidiu o futuro da primeira guerra mundial em todo o Médio Oriente e Península Arábica, então ainda sob domínio otomano.

Agora que acabei de trilhar pelo meu próprio pé (embora instalado, já não no dorso de um dromedário, mas no conforto e eficiência de um 4×4) alguns dos caminhos percorridos por Lawrence nessas paragens, consigo, mais do que nunca, compreender o efeito inspirador que o deserto sobre ele teve. É certo que Wadi Rum (vale do Rum) não é um deserto qualquer, e não corresponde, seguramente, à imagem tradicional do deserto, que eu, como quase todos os que só o conheciam dos filmes e dos livros, dele tinham. Dificilmente se encontrará no mundo aridez mais bela: a planura, aí, está cercada por uma cadeia de elevações rochosas, de cores múltiplas e formas e alturas várias, que tanto se abrem a horizontes a perder de vista como se estreitam em gargantas onde o silêncio é interrompido pelos sons multiplicados pelo eco (tal como no filme com os gritos de Lawrence) das aves do deserto. Para quem, como eu, teve o privilégio de vir de Petra, uma centena de quilómetros a norte, e julgaria quase impossível ver igualada em tão curto espaço a grandiosidade do espectáculo da cidade escondida nas montanhas da civilização nabateia, o momento em que o cenário de Wadi Rum se começa a oferecer aos nossos olhos é avassalador.

Os beduínos, alguns deles descendentes daqueles que acompanharam Lawrence até Damasco, por lá continuam, ainda a criar cabras uns, outros, mais prósperos, rendidos ao potencial turístico da região. Certo é que já não pilham caravanas nem fazem explodir (como Lawrence, já na sua veste de guerrilheiro, os ensinou) os carris da linha de caminhos de ferro otomana que também lá permanece, e que agora cumpre apenas a função de transporte para Aqaba do fosfato extraído das minas do deserto. A mirra, o incenso e o cardamomo já não têm a importância que, outrora, as rotas caravaneiras lhe atribuíram, mas os hábeis beduínos de agora – que dominam a tecnologia de telemóveis topo de gama e preferem as pick-ups aos ancestrais dromedários – não desprezam a curiosidade, feita de consumismo polvilhado de cultura new age, que esses produtos despertam nos turistas. E é com orgulho e prazer que eles se entregam à tarefa de mostrar a pedra onde os nabateus, de passagem a caminho de Petra, inscreveram as suas pinturas rupestres ou o recanto onde Lawrence fixou a sua tenda. Se a História – quer a escrita pelos ocidentais, quer a que os académicos árabes divulgam – hesita em tratar Lawrence como um herói ou um traidor, os beduínos, esses, não têm dúvidas em considerá-lo como um dos seus, pelo menos para turista ver.

Não custa compreender o dilema interior com que Lawrence – progressivamente transformado, disso parece não haver dúvidas, num simpatizante da causa árabe, ainda que com ligações diplomáticas especiais a Inglaterra – se foi debatendo à medida que as tribos beduínas, ao serviço do Príncipe Faiçal de Meca (irmão de Abdallah I, primeiro Rei da Jordânia, por sua vez bisavô do actual Abdallah II) progrediam no terreno, a caminho de Damasco. Como o próprio referiu, “é sobre a fé numa mentira que nós os chamamos a baterem-se por nós e isso não sou capaz de suportar”. A mentira era a da promessa aos hachemitas de Meca de um reino pan-árabe, que incluía os territórios hoje delimitados pelo Líbano, pela Síria, por Israel e pela Autoridade Palestiniana, pela Jordânia, pelo Iraque e pela Península Arábica, a cuja libertação das tropas turcas os ingleses só poderiam aspirar com o auxílio das tribos beduínas do deserto unificadas sob o comando de Faiçal. Promessa que, como Lawrence se apercebeu a determinado momento (resta saber quando), os ingleses não estavam já em condições de concretizar, pois que, com o acordo Sykes-Picot de 1916, esses mesmos territórios ficaram destinados à partilha entre a Inglaterra e a França uma vez consumada a derrota otomana. E que foi ainda agravada pela declaração Balfour que, pouco tempo depois (em Novembro de 1917), garantiu à comunidade judaica inglesa um “foyer” nacional na Palestina para o povo judeu.

Mesmo não conseguindo afastar a dúvida de ter, conscientemente, colaborado num ardil para mobilizar os árabes, não podem estes acusá-lo a ele, Lawrence, de não ter feito tudo para lhes permitir, ainda assim, uma fracção dos territórios que lhes foram prometidos. A verdade é que só a determinação de Lawrence, ao mover montanhas para ele e os seus beduínos tomarem Damasco antes das tropas inglesas, criou as condições para que aos árabes restasse ainda um prémio de consolação não desprezível: a administração dos novos protectorados ingleses do Iraque ao próprio Faiçal e do emirato da Transjordânia (mais tarde, um Estado independente, o do actual Reino Hachemita da Jordânia) ao seu irmão Abdallah.  

A linha de caminho de ferro de origem otomana que Lawrence e os seus amigos beduínos fizeram explodir várias vezes

A linha de caminho de ferro de origem otomana que Lawrence e os seus amigos beduínos fizeram explodir várias vezes

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Na rota de Lawrence da Arábia

  1. Apetecia-me ter vivido o filme que viveste e acabaste de descrever.

  2. Teresa Conceição diz:

    Estas são viagens que valem a pena, Diogo. A do filme e a do deserto. E ir de 4×4 é capaz de ser mesmo mais confortável. (Para a poesia dos camelos temos sempre a tela de cinema). Gostei muito de rever este seu deserto.

    • Diogo Leote diz:

      Veja lá o que me deu, decidi armar-me em Teresa Conceição. E só lhe digo que gostei muito.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Neste domingo, as viagens que por aqui já fiz extasiaram-me. O deserto, um filme, as palavras. Obrigada Diogo por este prazer.

  4. “é sobre a fé numa men­tira que nós os cha­ma­mos a baterem-se por nós e isso não sou capaz de supor­tar…” a fé e a mentira, num deserto, no teu deserto, devem ter uma poética que vale mesmo a pena.

  5. Diogo Leote diz:

    Manuel, o que seria a vida sem mentirinhas destas?

Os comentários estão fechados.