O chapéu-de-sol do amor

 

É verde como um fruto de dar dentadas.

E o rapaz transporta o verde como uma gigante maçã mordida, com sombra e sem pecado. Eles inteirinhos dentro dela, ainda por nascer.

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Sigo os namorados sem querer segui-los – só existe um caminho até ao topo.

Mas eles são o íman: o templo de Wat Phou foi religiosamente construído para o amor. Ou para a continuação da espécie. Uma alameda de falos repete o tema a perder de vista.

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E a vista cola-se ao topo da montanha, a gigantesca linga que fez os primeiros dizer: é aqui. E os primeiros terão vindo no séc. V, e demoraram tanto tempo a adorar Shiva e a empurrar pedras pela encosta acima que os últimos só acabaram uns oito ou nove séculos mais tarde.

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Agora são turistas e nativos que amarinham pelas escadas, pelos vários patamares em que o santuário do império Khmer se acrescenta, em Champasak, no sul do Laos. É diferente dos primos de Angkor Wat no Cambodja e igualmente merecedor da distinção de Património Mundial. Com a vantagem de não ter multidões a abafá-lo.

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Os budas que servem a adoração actual não escondem a antiga origem hindu das ruínas. Mas o escudo protector copia o dos namorados (isto é fertilidade por todo o lado, em símbolos então é um enleio pior que o matagal em volta).

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Perdi-os, ou arranjaram eles maneira de perder-se, na exuberância de pedras, vegetação e locais de culto. Recupero Adão e Eva na descida, sem parra mas com muita flor de franguipani. Perdidos um no outro e na dificuldade da escadaria. Este é um sítio onde nem a descer os santos ajudam.  Anjos muito menos. E os chapéus-de-sol, pelos vistos, só atrapalham.

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Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores.
Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).

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9 respostas a O chapéu-de-sol do amor

  1. Com chapéus de chuva (ou de sol) destes, quem é que não é luminosamente fértil?

  2. Teresa Conceição diz:

    Não sei se é da sombra do templo, Manel. O que posso afiançar é que as crianças são certamente mais que as mães. E cheias de luz.

  3. Que bem caçada, Teresa, essa maçã verde de amor fresquinho….

  4. nanovp diz:

    O amor na sombra e na bela paisagem…sorte de quem anda por essas paragens…

  5. Mário diz:

    Teresa, a revisitar com um (o seu) amor. E com chapéu-de-sol verde maçã.

    PS: É impressão minha ou cada foto parece retirada duma qualquer National Geographic?

  6. Mário,
    ainda bem que me avisa: se a National Geographic anda a usar as minhas fotos, não tenho recebido nada por isso. Há que tomar providências 🙂

    • Mário diz:

      Pronto, confesso, fui eu que as passei para a NG. Vá, dou-lhe 10% e não se fala mais nisso 🙂

  7. Eugénia, eu ando sempre à caça, mesmo quando não ando. Isto é, parece que as maçãs me caem no colo…e eu mordo.
    (Já me têm saído umas envenenadas mas, até agora e para não desmerecer o título por si tão bem atribuído, parece que tenho sido pior que o veneno 🙂

  8. Bernardo, sombra e paisagem não são também elementos de arquitectura?
    Eu gosto menos é de paragens. Comigo é sempre a andar 🙂

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