O meu amor


Um perfect date. Aposto que o amor está a pensar: ah, pois é…

De vez em quando lá vem a pergunta: porque é que não tens namorado? E zás. Há verdades que só se podem dizer a estranhos. Gostava tanto de gostar de namorar. Mas para isso tinha de gostar do namorado como gosto do meu amor. Ah, então tem um amor… Claro que tenho. Cresci a pensar nele. Mesmo antes de aprender a escrever já sabia muito bem que havia um amor meu ainda que não soubesse quem ele era. Mas estava desejando de o conhecer pois mal o visse… és tu. A felicidade é como o algodão do reclame: não engana.

De vez em quando lá vem a pergunta: não te cansas de estar sozinha? Eu? Ando acompanhada. Quando vou ao supermercado ponho rímel nas pestanas – não vá dar-se o caso do amor aparecer do nada. Já treinei o meu olhar, aprendi num filme: fito-o, de repente, sorrio um segundo até ao fundo, e depois finjo que nem o vi. Ele, coitado, há-de ficar fulminado, ali. Só não o vi todo estatelado porque ele não faz compras onde faço.


Já sabia, diz o amor, estou bem lixado… – ó, pois está, coitado.

De vez em quando lá vem a pergunta: queres jantar comigo? Não. Para quê? Aborrece-me de morte o jantar do pavão, fico má, apetece-me arrancar-lhe as penas e vendê-las ao Carnaval do Rio. O meu amor não iria convidar-me para esse jantar que só de pensar me faz engordar. Há-de levar-me a comer porcarias daquelas que enjoam tanto que se acaba a rir, a dizer, juro que nunca mais: cachorros de rua, sobremesa de algodão doce, sumol. Ai quem me dera que fosse manhã. E que lhe caísse uma nódoa de mostarda na camisa branca para lha apontar e fazer pouco dele.

De vez em quando lá vem a pergunta: não estás farta de esperar? Podia mentir e queixar-me muito. Mas a verdade é não. O meu coração é mais firme do que qualquer chão. O meu amor é meu. Decerto um dia saberá. Quando souber, vem. E eu não quero mais ninguém.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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18 respostas a O meu amor

  1. Olinda diz:

    tal e qual. maravilhoso. 🙂

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Delicioso.

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    Menina Eugénia, não se esqueça nunca de pôr o rímel nas pestanas porque, lá está, o seu amor sempre há-de chegar onde a menina o espera, como diz o Nobel e eu não tenho como desmentir, e aí nada melhor do que ter olhos arranjadinhos para ir ao algodão doce.

  4. nanovp diz:

    Um amor assim Eugénia só pode ser mesmo seu! E quem tem desse amor tem tudo.

  5. Mário diz:

    Não sei se é bem assim, mas faço claque (por si e por todas as pessoas que procuram o verdadeiro amor). Há coisas que valem a pena.

    • O amor é o melhor que há. E os livros. O mar e o sol. E andar de bicicleta. E o Cão.

      • Luísa Tavares de Mello diz:

        Principalmente o cão! Para quem não é preciso por rimmel e a quem não apetece tirar penas.

        É tal e qual assim e o rimmel só se põe até aos 50 anos. Depois…São outras desgraceiras e aquele amor oblativo, especial, só nosso.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    De tão risonho só pode mesmo ser um amor verdadeiro.

  7. Bruto da Silva diz:

    UAF: Um Amor Fundido (coração d(o)uro!)

    UAI: Um Amor Intrín seco (cora chão firme!)

    UAS: Um Amor SLB (cora ção en carnado!) 😉

  8. Maria João Freitas diz:

    Eugénia,
    Desconfio seriamente que já encontrou esse seu amor. Caso contrário, como poderia falar dele com tanto conhecimento?

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