Ontem e hoje, exames nacionais

Christian Birmingham

Christian Birmingham

Nove anos de idade. Estreados vestido e sapatos e soquetes – as famílias curavam de engalanar as crianças para o exame de admissão ao Liceu Feminino. Escola grande e outra a abrigar-me no ano letivo seguinte existindo sucesso naquela prova. Ambiente intimidatório para as crianças habituadas à pequenez afável da escola primária. Distribuídas por diferentes salas, era quebrada a cumplicidade entra as meninas que, até aí, partilhavam brincadeiras no recreio, os momentos de avaliação. Havia pouco, fora o exame da quarta classe com direito a prova de lavores – recordo o cachecol de lã que tricotei. Talvez essa a origem do meu gosto por tricô que permanece. Era, então, permitido que cada menina escolhesse a prenda de mãos do seu agrado. Sem temores, «passei» no exame realizado na escola de sempre. Somente depois, a prova que dividiria alunos por dois destinos diferentes: o ensino liceal ou o ensino técnico, segundo as posses e ambições das famílias.

Não recordo como aflição marcante o exame no liceu. Antes lembro dia quente e soalheiro, a prova de português com direito a redação onde perorei sobre um domingo de Páscoa perfumado pelas glicínias floridas do jardim. Julgo, sem certeza, ter mencionado belíssima ave que inventei. Trouxe o rascunho, e a mãe que me havia acompanhado esperou pelo regresso a casa para, em conjunto com o pai, ser lido. Aplaudiram. Depois, as férias grandes e a liberdade estival.

Hoje, de novo, a realização do exame final do ensino básico. Interrompido durante décadas, é notícia de abertura nas rádios (a esta hora, ainda por ver televisão e jornais). Entrevistas, opiniões várias. Que pode ser traumático para os infantes, uma delas. Inútil, outra. Preferível a avaliação contínua como até agora. Momento indicado para consolidar sentimentos de responsabilidade nas crianças, defende o Ministério e eu com ele.

Autor que não foi possível identificar

Autor que não foi possível identificar

Não sendo pedopsiquiatra, assombra-me o receio social de tudo e nadas provocarem traumas infantis. Curiosamente, ausência de disponibilidade para os filhos, falta de acompanhamento das atividades escolares, jogos violentos no computador, bonecos fantasmagóricos, excesso de ocupações extracurriculares, défice em leituras parecem inócuos a muitos pais.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

24 respostas a Ontem e hoje, exames nacionais

  1. Júlio Gonçalves diz:

    Excelente memória vivida e vívida de um tempo em que em silêncio, aos 10 anos, fazíamos 3 exames: 4º Classe e admissão à Escola e Liceu. Havia ainda a Salazarista 4º Classe dos adultos a que José Sócrates eufemisticamente chamou de Universidade das Novas Oportunidades. Semântica? Talvez.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E para nós que por eles passámos, nunca foram experiências traumáticas havendo adequado envolvimento familiar. Este, indispensável hoje e sempre.

  2. nanovp diz:

    Maria do Céu estou plenamente de acordo! Criámos uma sociedade de direitos e proteções sobrepostas a um liberalismo feroz, que está a dar cabo da verdadeira Justiça e solidariedade. Uma criança na escola secundaria pode justificar uma falta por estar indisposta, quando esteve acordada a ver filmes pirateados no ecrã de 17 “!

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Tristes realidades. Assim se diluem valores que deviam ser imutáveis.

  3. Quando não se exige de uma criança, a mensagem que passa é: não peço porque não tens capacidade de resposta, não és competente. E isso é destruir a competência presente e futura de uma só penada. O que é preciso é fazer o oposto, construir competências, criar valor. Há muitas maneiras de o fazer, e num ensino fragilizado, exames nacionais, com o que aferiremos dos seus resultados, podem ser o início dessa construção.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Tal qual o que penso. Ainda bem que a vertente das competências veio à baila. E tenho esperança, sim, que o edifício educativo seja reconstruído.

  5. Mário diz:

    Exames nacionais como forma de consolidar sentimentos de responsabilidade? Mas desde quando é que o Estado entra na esfera da família? O estruturante aprende-se em casa. Na escola dão-se competências, ferramentas. Concordo. O Exame é relevante para alguma coisa? Não. Mata alguém? Não. Mas não deixa de ser ridículo o aparato: muda-se de escola, a polícia aparece com os exames. Pois, os miúdos têm que se habituar à pressão? Pressão? Em miúdos de 9 anos? Aqui passamos da inocuidade para a imbecilidade. A reconstrução do edifício educativo passa por aqui? Mas estamos a brincar?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Concordo quando diz que “O estru­tu­rante aprende-se em casa”. E quando não é aprendido? E, mesmo que o seja, certamente famílias atentas impedem que cresção tensões ociosas. Afinal, avaliados somos todos a vida inteira. Assim sendo, não será proveitoso educar as nossas crianças?

      O aparato. Os alunos não vêem qualquer polícia durante as provas: são entregues matutinamente como acontecerá nos exames futuros que irão realizar. Mudar de escola para alguns? Tantas mudanças experimentarão que torná-los flexíveis e preparados para o advir é recomendável.

  6. ccf diz:

    Concordo com o Mário, inútil é a expressão adequada. Não se trata de proteger os meninos nem de não os traumatizar…O rigor e a excelência são construídos no dia a dia da sala de aula, não por uma prova.
    ~CC~

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Porque na minha resposta acima ao Mário deixei razões, não as repito agora. No entanto, sempre digo: se é bem verdade que “O rigor e a exce­lên­cia são cons­truí­dos no dia a dia da sala de aula”, não pensa construtiva a avaliação dos métodos e aquisições? Ganham os professores, ganhamos todos, julgo.

  7. marta diz:

    Pressão recebem as crianças todos os dias, muitas delas desde os poucos meses de idade, estão mais que habituadas a lidar com ambientes traumáticos, que em muitos casos são quer a casa quer a escola, trabalham mais horas que muitos dos progenitores e são aos 9 anos de idade miniaturas dos adultos, cheios de tanta coisa que pertence ao mundo dos adultos e muito pouca que seja da infância. Exames? Canja de galinha, não fosse a carga que os pais e os professores colocam em cima. Mas para quê? Tanto que se pensou a pedagogia e voltamos às aferições mais que erróneas que são os exames. Mas numa coisa concordo consigo: muitos dos que falam dos traumas e blábláblá são os tais que invadem a infância com tudo o que a ela não deveria pertencer. Entristece-me tudo isto

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Perfeitamente de acordo exceto na abrangência dos exames nacionais. E é verdade, sim, que se as pedagogias mudam algumas não deram boas provas. Pensá-las e alterá-las quando necessário não me parece um mal.

  8. marta diz:

    Conheço um colégio que tem estampado na carrinha o seu lema e circula por aí dizendo: Para que o mundo se orgulhe das nossas crianças. Sempre que leio aquilo penso que diz precisamente o contrário do que deveria dizer: deveriam ser as nossas crianças a orgulharem-se de nós … que raio, nem um pingo de bom senso neste país…

    • Bruto da Silva diz:

      pois é… um sinal de que o mundo anda ao contrário, mas anda.
      não consigo imaginar o tal orgulho das (nossas) crianças: conheço mais o que têm pelas máquinas, pelas grandezas, pelas excentricidades…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Triste realidade.

  9. Não simpatizo com os exames. Pela inutilidade que lhe encontro, de facto, mas também porque esses pais que muitas vezes não sabem o que é importante, e que são de facto muitos, são os primeiros a incutir ansiedades excessivas em miúdos tão novos. Exactamente porque estão todos equivocados. Enfim…

    • Bruto da Silva diz:

      e como é que se prova que estão TODOS enganados? se são TODOS, passam a estar certos?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Numa sociedade ideal, talvez os exames fossem desnecessários pela eficácia das aprendizagens. Mas este é o nosso tempo sem fuga possível. Remediar práticas erradas faz parte do evoluir.

  10. Sim, tendo a concordar, embora não seja fã de exames, penso que sem dramas exteriores e parentais não há pressão nas crianças. Tb escrevi sobre isso, de outra forma, claro, no meu AEfetivamente. Bom texto. 🙂

  11. Bárbara Correia diz:

    Excelente testemunho que me põe a pensar…

    As crianças de hoje não deveriam ser educadas a exigir menos e a dar mais?

    Compreenderem que é a dar que um dia se recebe… Que só sabendo fazer é que um dia se poderá (saber) mandar fazer…

Os comentários estão fechados.