Os Resultados um Tanto Desiguais de uma “Cultura Globalizada” – Uma Provocação

Parece-me que a observação do Manuel sobre o nome do autor, alguns posts abaixo, a propósito de O Elefante, pode ser amplificada para idiomas ou mesmo culturas dentro de idiomas neste instante de uma suposta cultura mundial compartida. A observação do nome do autor à capa, de resto, remeteu-me  a este trecho de Susan Sontag. (E, ressalvo, antes de qualquer vitimização politicamente correta isto apenas me parece realidade):

But, as many have observed, globalization is a process that brings quite uneven benefits to the various peoples that make up the human population, and the globalization of English has not altered the history of prejudices about national identities, one result of which is that some languages – and the literature produced in them – have always been considered more important than others. An example. Surely Machado de Assis’s The Posthumous Memories of Brás Cubas and Dom Casmurro and Aluísio Azevedo’s The Slum, three of the best novels written anywhere in the last part of the nineteenth century, would be as famous as a late-nineteenth-century literary masterpiece can be now had they been written not in Portuguese by Brazilians but in German or French or Russian. Or English. (It is not a question of big versus small languages. Brazil hardly lacks for inhabitants, and Portuguese is the sixth most widely spoken language in the world.) I hasten to add that these wonderful books are translated, excellently, into English. The problem is that they don’t get mentioned. It has not – at least not yet – been deemed necessary for someone cultivated, someone looking for the ecstasy that only fiction can bring, to read them.

[Porém, como muitos observaram, a globalização é um processo que traz resultados um tanto desiguais para os vários povos que compõem a população humana, e a globalização do inglês não alterou a história dos preconceitos sobre identidades nacionais, cujo corolário é o de que algumas línguas – e a literatura produzida nelas – têm sempre sido consideradas mais importantes que outras. Um exemplo. Está claro que Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis, assim como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, três dos melhores romances escritos ao final do sec. XIX, deveriam ser tão famosos quanto qualquer obra-prima desse tempo, não houvessem sido escritos em português por brasileiros, mas em alemão, francês ou russo. Ou inglês. (Aqui, não é uma questão de línguas grandes contra pequenas. O Brasil não tem poucos habitantes, e o português é o sexto idioma mais falado no mundo). Apresso-me a acrescentar que estas obras estão traduzidas esplendidamente em inglês. O problema é que elas não são mencionadas. Que elas não foram propostas – pelo menos até o momento – como necessárias para alguém cultivado, alguém em busca do êxtase que só a boa ficção pode ofertar.]

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

Esta entrada foi publicada em Escrita automática. ligação permanente.

8 respostas a Os Resultados um Tanto Desiguais de uma “Cultura Globalizada” – Uma Provocação

  1. Mário diz:

    Eu acrescentaria que é assim na literatura como em tudo o resto. Nem o Brasil seria o que é se tivesse sido colonizado por britânicos. Nem existiria Machado de Assis. Nem as suas personagens. Mas acabo com outra provocação: sabendo de tudo isso, ainda assim o Ruy preferia ser norte-americano ou brasileiro?

    • Escolha o Ruy o que escolher, e desculpem meter-me na conversa, o que quero dizer é que é ao ver o melhor do Brasil – a melhor literatura, a música genial, Nelson Rodrigues, algum cinema, a energia das grandes cidades – que um pingo de consolo tomba sobre a minha depressão portuguesa e penso que, enfim, há ali um bocadinho de nós, talvez não sejamos tão decrépitos assim.

  2. A globalização, com todas as suas vantagens – e há várias – é o exemplo extremo do darwinismo social, acrescido de um valor que não existe no mundo “natural”: a tendência política para a desregulamentação.

  3. De vez em quando, a língua portuguesa tem sorte e aparece um Ezra Pound que louva Camões, reconhecendo-o como um dos grandes, um Jorge Luis Borges que incensa Eça, até um Bloom que faz a vénia a Pessoa, esta Sontag que por uma vez tem razão com este Machado. Migalhas que o nosso tão pequeno império mal tece.

  4. Nem mais. Porém quem lê, conhece. Até a Sontag…

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    Mário, o teor da citação já trai tudo. Uma lástima seria não pensar, falar, ler, gaguejar, levar uma vida em português. Essa língua é um arrebatamento. (No plano pessoal, aliás, arrebatamento só superado pelo amor às minhas duas filhas, à minha mulher e ao barro debaixo da sola dos sapatos). No mais, é isso mesmo que todos mais ou menos comentam: um Pound deslumbrado com Camões aqui,um Celan traduzindo Pessoa ali, um Wenders sob o céu de Lisboa mais adiante, um Tabucchi acolá. Ou os Portuguese Sonnets de Rossetti. Ou poemas de Charles Tomlinson em férias, no Norte. Mas, no fim, entusiasmos avulsos, episódicos, que não repõem o peso que o português como idioma deveria ter (e terá um dia!).
    Da banda de cá, há além de Stefan Zweig, Orson Welles, Lévi-Strauss e Camus — que tem também um belo relato de viagem aqui pelos trópicos — os casos de, entre outros, Elizabeth Bishop, Vilém Flusser e Otto Maria Carpeaux. Esses três tiveram uma relação muito complexa com o Brasil. Sentimentos ambivalentes mas profundamente amorosos e de grande envolvimento. Envolvimento cívico mesmo. Cada um a seu modo e por razões diversas, optou por ser brasileiro também, por deixar-se contaminar por nossa cultura.
    E há uma grandeza nisso. (Mas há também grandeza e vantagens em conhecer mais que ser conhecido, isso devia alimentar auto-estima, ao invés do oposto).

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Aprecio provocações, esta em particular pelas verdades que contém.

  7. nanovp diz:

    A verdade, mesmo levando tempo, há-de vir ao decima…ainda não será desta que a língua desaparecerá, mas os adversários são de peso…

Os comentários estão fechados.