Reflexões sobre a desesperança

Flores. Agosto de 2008.

Flores. Agosto de 2008.

Meço as palavras porque não vale a pena somar, irritação à irritação, crispação à crispação, conflito ao conflito. Mas se quiser ser honesto devo dizer que, noutro tempo, noutro lugar, haveria provavelmente tanto de duro como de correcto em boa parte das medidas apresentadas ao país por Pedro Passos Coelho na semana passada. Aumentar horários de trabalho e diminuir férias na função pública, promover uma convergência dos enquadramentos laborais entre público e privado, adiar a idade da reforma e até diminuir o número de funcionários do Estado são medidas, ideologicamente marcadas é certo, que não podem ser simplesmente enviadas para o baú dos dislates impensáveis. Talvez fosse confortável fazê-lo mas não é assim que penso.

O diabo é mesmo o tempo e o lugar em que o vivemos. Desde logo, e o senão não é pequeno, porque os projectos do governo serão provavelmente inexequíveis. O ambiente social, laboral e politico, o desespero, a crispação e o nível de conflitualidade que são o ar do tempo, encarregar-se-ão de os dinamitar. Por fora ou por dentro de uma coligação governamental que por todos os lados dá sinais de fragilidade.

Depois porque não são propriamente medidas lançadas a um terreno virgem. São medidas largadas num campo de batalha já muito minado. São medidas que se somam a muitas outras medidas, muitas sim, de duvidoso tino, que foram criando uma espiral recessiva e um caldo de desespero a que é agora quase intolerável juntar mais uma inevitável quebra de consumo, mais uma evidente deterioração do PIB ou mais um desesperante aumento do desemprego.

Depois ainda porque se vai ficando com a inquietante ideia de que cada nova dose deste amargo remédio brota, não tanto de uma estratégia clara, de um projecto cristalino ou de uma sólida ideia para o futuro do país, mas de um engulho de última hora que é preciso ultrapassar, em jeito de meia bola e força, e em nome de uma exemplar relação com a troika que está, essa sim, erigida a desígnio supremo de toda uma nação.

Mas sobretudo porque vai sendo cada vez mais difícil acreditar nos amanhãs que cantam que têm pontuado as solenes declarações ao país do Primeiro Ministro. A recuperação ao virar da esquina é um mito mas que deixou há muito de servir como anestésico minimamente eficaz. Foram inúmeros os erros de timing e de comunicação (todos se lembram das promessas do Pontal), foram muitas as peripécias do percurso, foram demais as previsões erradas. E este é o problema capital: o executivo deixou de conseguir ser um portador minimamente credível de uma mensagem de esperança. Por ténue e frágil que fosse. E sem esperança é muito difícil atravessar desertos.

Dir-me-ão que os meus lamentos nada acrescentam, que o meu cepticismo só agrava a depressão que é já de todos. E eu, humildemente, concedo que sim. Estou tão perdido nesta maldita encruzilhada como qualquer outro. Confesso mesmo que há dias em que tento acreditar no meu país e não consigo.

Mas querem saber o que faço quando acordo assim? Fecho os olhos, cerro os dentes e relembro a mim mesmo que a desesperança é um luxo dos que não tem filhos.

Publicado na Visão a 9.5.2013

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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15 respostas a Reflexões sobre a desesperança

  1. JPR diz:

    Pois é meu Caro, talvez ler alguns textos que no seu devido tempo alertaram para esta inevitabilidade, perceber o contexto do livro do João Ferreira do Amaral e a saida do Euro, e acrescentar a conferência de hoje, onde o Gaspar e os presidentes dos bancos, com o aval do governador do banco de Portugal, teceram um conjunto de banalidades e lugares comuns, para percebermos para onde ainda teremos que caminhar.
    Ainda só agora a tragédia foi anunciada….
    Ter três filhos também não me concede o luxo de sentir desespero, mas que começa a instalar-se uma raiva contagiante, confesso que sim!

  2. Olinda diz:

    que venha mais vezes a ideia de que na desesperança vive a esperança – é assim que nasce o alento, prenho do que não é mas ainda por vir. porvir.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Embora guerrilheira no combate à desesperança, dias existem em que me apetece depor armas. Depois, olho a terra portuguesa, quem dela faz povo, sorrio e avanço.

  4. maria de jesus pires da rocha diz:

    Pedro Norton,
    Por favor, lhe peço. Não deixe (nunca…) de partlhar com todos nós estas “pérolas”.
    Ficaríamos bem mais pobres…

    • Pedro Norton diz:

      Maria de Jesus, deixa-me encavacado, confesso. Não gosto muito de trazer a política para a saudável tristeza deste blog. Mas a verdade é que a política sempre fez parte da vida.
      Obrigado pelo seu comentário.

  5. nanovp diz:

    Pois eu acho que não é o fim do mundo, e tanto lado há para se poder olhar para além do maravilhoso nevoeiro…

    • Pedro Norton diz:

      E tu é que terás razão. Eu nem sempre consigo. Mas é limitação, concedo.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Bem dito, Pedro, bendito.
    Tomei uma decisão recentíssima (acho que foi mesmo agora): não me vou lamentar mais do que e pelo que está a acontecer. Vou lamentar-me pelos vinte anos anteriores que aconteceram. O que está mal feito não é o que se está a fazer agora. O que está mesmo muito mal feito foi o que se fez durante 20 anos. Para que valha a pena o que estamos a fazer agora, é preciso perceber isso, se não, não faz sentido nenhum.

    • Pedro Norton diz:

      Manel,
      Não sou muito de provérbios new age. Mas o seu comentário trouxe-me um à memória. reza assim: “a melhor altura para se plantar uma árvore foi há vinte anos atrás. a segunda melhor altura é agora”

  7. Rita V. diz:

    They
    Não percebem nada disto…mas será que alguém percebe?

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