São

 

São tinha 16 anos quando deixou a aldeia. O pai morrera e ela deixou o rancho, o teatro e o namorado para trás. Só o desgosto podia tomar conta dela. Não havia, não podia haver mais gostar.  Mãe e filha erguiam-se numa só dor. Venderam algumas coisas aos ciganos. Outras, mais tarde foram eles busca-las abrindo a porta que ficou mal fechada.  Fecharam a porta de casa com as poucas forças que tinham, com o luto, e no comboio antigo que ia manchando o céu com o fumo negro das suas almas, partiram. Juntaram-se ao resto da família que já vivia na Capital.

O namorado pouco conformado procurou-a na grande cidade. Esperou-a à porta do trabalho, na paragem do eléctrico, à porta de casa.

Todas as esperas foram em vão. São vestia-se de negro e ameaçava chamar a policia. O namorado triste e humilhado voltou para a sua terra. A terra que tinha gerado os dois e um amor quebrado pelo luto. A terra que era sua.

Depois muito depois, os lábios de São voltaram a desabrochar sorrisos. Um sorriso que levou António a meter-se com ela uma vez. Duas vezes, um poema. Três vezes, um bebé na barriga e um casamento apressado, que ao longo da vida foi sendo cada vez mais apressado. As pressas foram sempre tantas que São nunca teve tempo, nem depois coragem, para voltar à sua terra. As pressas nunca deram bom resultado.

Um dia reformou-se. Reformou-se também do marido e dos filhos já bem criados e voltou para a sua terra. Há uma altura em que o medo prescreve. Quando já se deixou correr o tempo, muito tempo sem  acontecer nunca nada.

Na viagem olhava para o horizonte e o comboio já não manchava o céu de preto.

Abriu as portas e as janelas. Deixou a casa arejar.

Passava pelas ruas e havia falatório. Ninguém a reconhecia e ela também não conhecia ninguém mas recordava-se de como as pedras da calçada encaixavam tão bem umas nas outras e que em Abril nasciam ervas verdes entre os espaços que as separavam. Olhava para os campos, para as árvores que antes davam frutos. Antes quando alguém cuidava delas. Agora estavam só de pé. Secas. Mas ainda lá estavam.

 

– Quando te foste embora a nossa terra ficou feia. Perdeu a única rapariga bonita. E eu só percebi isso mais tarde, quando queria ter alguém ao meu lado e nenhuma me agradava. Todas me pareciam feias. Escolhia-las assim como tu, cabelos pretos e compridos, olhos fundos a condizer e uma boca grossa onde todos os lábios querem cair. Chamei a todas o teu nome. São. São quantas? – perguntavam-me. São quantas desde que a São foi embora? Serão preciso quantas até encontrar uma bonita como tu? Seriam precisos todos estes dias e mais alguns. Meses. Anos. Sois e luas, até te encontrar e o meu olhar se encostar de novo à beleza. O meu corpo voltou a sentir o tempo. O presente e o agora, já que o passado nem sequer existiu. Encontrar-me  de novo com a rapariga mais bonita desta terra e como eu não consegui viver em mais terra nenhuma, com a rapariga mais bonita deste mundo. O mundo está agora todo aqui.

Pensava que nos íamos juntar no lar. No lar não me escaparias.

Afinal não foi preciso esperar tanto.

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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5 respostas a São

  1. cr diz:

    Muito bonito este texto.
    Gostei de ler, continuaria de vontade por mais umas boas páginas.
    🙂

    • Sandra Barata Belo diz:

      vou tomar o seu comentário como um incentivo e tentar rescreve-lo um pouco mais desenvolvido.

  2. Mário diz:

    O amor não correspondido não é do tamanho do Mundo. Talvez apenas de metade 🙂

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E assim nos deixa suspirando por mais.

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