Saudades de um suave delírio

 

 

Manuel Lopo Caroça de Carvalho 1955 Terras Fim do Mundo

 

Poucos dias antes de morrer chamou o amigo de toda a vida. Sabia que a morte estava ali, ao virar da esquina, e não queria sair do Mundo sem voltar ao único Mundo que tinha sido o seu. Palanca, elefante, búfalo, focochero ou o diabo a quatro. Tudo o que queria era respirar a savana, chover por dentro, dormir ao relento, trincar a terra vermelha. A vida a andar para trás, o tempo a fazer-se mansinho, todas as histórias que fizeram da minha infância a mais delirante infância de todas as infâncias felizes.

Estendeu-lhe uma já mão muito cansada, uma mão de menino amarelo, e pediu-lhe que sonhasse com ele. O vapor, a baía de Luanda, a estrada para Nova Lisboa, os rios pardos de todos os perigos, os guias a que entregava a vida. As Terras do Fim de um Mundo que era, insisto, o único a que chamava seu. Disparos congelados no tempo, coloridos pela memória prodigiosa de um  sonhador, mentidos com a verdade deslumbrante que só um grande caçador sabe mentir.

E o amigo, que era de sempre, fez-lhe a singela vontade, calçou as botas e pôs-se a caminho. Os dedos certeiros pousados na mão frágil de um velho. O calor húmido de Angola a trocar as voltas a uma tarde cinzenta de hospital em Lisboa. Uma tarde infinita de uma chuva fria e miudinha que por artes mágicas que eram só deles se fez morna e pegajosa de grossa.

Eu, já se vê, fiz-me de morto, sentei-me a um canto e deixe-me embalar no mais suave e comovente delírio que alguma vez presenciei. O delírio derradeiro do meu herói. O mais doce mentiroso que conheci na vida.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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13 respostas a Saudades de um suave delírio

  1. Olinda diz:

    há mentiras doces e delírios bebés, uma delícia.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Li. Reli. Também a minha infância foi feliz e como o entendo na ternura das suas palavras.

    • Pedro Norton diz:

      Já dizia o outro. Todas as infâncias felizes são iguais. As infelizes é que são infelizes cada uma à sua maneira.

  3. nanovp diz:

    A mentira é um delírio doce…

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Um texto redentor

  5. As aventuras são metade imaginação: a verdade não chega para as contar de facto.

  6. riVta diz:

    gostei tanto

  7. Maria diz:

    Adorei primo ! Saudades do nosso querido Avô!

  8. M João lopo c diz:

    Quem mais histórias me contou ! Ainda ouço a sua voz em S João do Estoril! Obrigada pedro

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