Se soubesse não tinha nascido tão cedo

 

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Estou sinceramente arrependido de ter nascido em 1953. Tenho a certeza de que já vos aconteceu deixarem cair qualquer coisa, uma chave, por exemplo, num buraco. Estamos a vê-la e, com algum esforço, parece possível recuperá-la. Primeiro ajoelhamo-nos, metemos a mão no buraco e percebemos que é, afinal, mais fundo do que pensávamos. O que tem de ser é inescapável: deitamo-nos no chão, o braço todo por ali abaixo e os dedos quase a aflorar o metal do Areeiro, mas ainda ficam a faltar os dois centímetros que permitiriam aplicar a homínidea capacidade de preensão. Ou seja, não conseguimos agarrar o raio da chave.

A boa notícia é que, quatro mil anos após a sua criação, a chave vai acabar. A de metal ou mesmo o  cartão magnético de hotel. Nem chave, nem fechadura. Dispositivos biométricos aplicados ao olho humano, ou instalados nas veias, vão tratar de abrir portas de forma segura, rigorosa, infalível. Chaves que não se perdem, chaves que ninguém rouba. É mau para romancistas, dramaturgos ou argumentistas  vindouros – tanta comédia de portas trocadas, todo o Lubitsch, que os nossos futuros irmãos humanos nunca compreenderão.

Ó meu Deus, e a farmácia! Esqueçam o número de utente, a ADSE ou a Médis. No preciso momento em que seja necessário, os nanomedicamentos vão manipular a matéria e transportar os princípios activos de um agente químico para o orgão, a célula, corrigindo a anomalia física. Mas será preciso ir à farmácia? Ora aí está uma pergunta de indecifrável anacronismo para quem viva em 2040. As fibras do vestuário serão inteligentes e uma das suas funcionalidades será a de vigiarem caninamente o portador, produzindo disgnósticos ininterruptos.

O que será, nesse futuro próximo, a doença? Na era genómica, que já ilumina a linha de horizonte, talvez só haja medicina – sem doença. De forma personalizada, preventiva e participativa (ah, esquecia-me, e predictiva) a doença não chega a ocorrer, tal será o grau de controle dos factores de risco. Nas ruas (mas ainda haverá ruas?) haverá Matusaléms a dar como pau, uma vez que a possibilidade de viver 200 anos vai ser trivial. Mais, com a medicina regenerativa, operar-se-á a substituição fácil de orgãos enfermos por orgãos desenvolvidos a partir das nossas próprias células, como já ontem e hoje os insectos conseguem fazer – e sem problemas de rejeição. Dito de uma maneira simples: a imortalidade deixou de ser um topos mitológico, um pacto fáustico. Permitam-me um exagero: quem nasça por volta de 2060 (pouco mais de cem anos depois de eu ter nascido) talvez nunca morra, ainda que, peça a peça, vá perdendo praticamente todas as peças originais.

Há-de ser uma vida linda, pomo-nos agora a sonhar alegremente. Sim, e nem sequer será necessário conduzir: as viaturas, sejam o que forem as viaturas, vão ser 100% autónomas, dispensando a intervenção humana. O tempo livre será tanto maior quanto a robótica, seja em casa, seja nas empresas, faça (e fará!) com pundonor e irrepreensível eficiência todas as tarefas necessárias. Daqui a 20, 30 anos, a partir de um computador, seguramente de um tablet, graças à fabricação digital, até produziremos instantaneamente os objectos de que necessitarmos.

Esqueçam o pai e mãe: os biólogos vão fabricar seres vivo à medida. Por 10 mil euros vai conseguir-se que uma criança nasça com a garantia de que nunca terá determinadas doenças ou, ainda, que será capaz, após uma só leitura, de decorar palavra a palavra, um texto, um livro, que lhe caia nas mãos. Não há-de ser este post de certeza.

Uma visão do futuro baseada (com basta liberalidade) nos relatos de 11 Prémios Nobel reunidos pels revista “Le Point” na edição de 11 de Abril de 2013

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a Se soubesse não tinha nascido tão cedo

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito mais tarde? Assim sendo, adeus Tristes da escrita. Uma lástima. Que se dane a chave – quero mesmo é estar aqui e agora.

  2. Maracujá diz:

    Que bom que eu nasci em 59! Que desagradável me seria esse admirável mundo novo! ´Todos nós como Death becomes her…

  3. Mário diz:

    Fez-me lembrar o futuro de “O Herói do Ano 2000”. Mas, por este andar, está mais para “Blade Runner”.

  4. Luciana diz:

    O tanto que gostei de passear nesse futuro, menos um tanto pela forma como se configura e mais um pouco pelo modo como você o pinta. E me fez, por esses deslizamentos que me ocorrem, lembrar do meu verissimo:
    http://www.materiaincognita.com.br/toda-a-vida-cronica-de-verissimo-sobre-infancia-juventude-e-velhice/#axzz2SWAw3Y6O

  5. Olinda diz:

    vim cá lançar um feitiço: que este mundo se torne, de facto, em admirável para eu poder admirá-lo – raios e coriscos o inibam de tornar-se novo dessa maneira! zástrástrás!

  6. Não há cá feitiços,Olinda. Mais científico e nobelizado do que isto não se arranja

  7. Não te preocupes regressaremos ao passado, teremos um nível de vida igual ao dos anos 50, é só Gaspar trabalhar mais um bocado (temos sorte nos ministros das Finanças, já o dr. Salazar era elogiadíssimo na Europa):

  8. nanovp diz:

    Ai, ai, que não sei se me apetece viver (?) assim…alguém que nos apague a luz!

  9. A chatice é que depois nos corrigem a criatividade que é feita, toda a gente sabe, da anomalia…

  10. Sandra Barata Belo diz:

    vou confessar: eu nasci em 2053.

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