To the Wonder

 

OlgaAffleck

“To The Wonder”.

Já vi duas vezes este Terrence Malick a que, em português, deram o título impossível e impensável de “A Essência do Amor”.

“To the Wonder”, filme de terra e água, de ascensão e corpos.

Malick filma conceitos e coisas, árvores, campo, uma estação de serviço, uma cadeira num terraço.

Tenho de o ir ver de novo. Para subir os degraus de La Merveille, ainda mais bela aqui do que na Normandia.

Malick filma, escreve, pinta, compõe emoções e corpos.

O corpo de Olga Kurylenko.

Tenho de o ir ver outra vez, para ter a sensação de plenitude que só se tem a ver chegar a alvorada na maré-cheia.

Tenho de o ir ver outra vez para sentir a dúvida e a certeza.

Tenho de o ir ver outra vez para que na polpa dos dedos perpasse a leveza de outra pele, o fruto do teu ventre.

“To the Wonder” é um filme católico e protestante. A navalha que corta duas culturas.

Já vi duas vezes essa luz que recorta os dedos de uma mão contra o vidro frio de um vitral.

“To the Wonder” é a luz que entra na pele e vai até à profundidade vermelha desse mílimetro de carne onde talvez a alma comece.

“To the Wonder” é o amor e o desamor. O sofrimento de haver outras pessoas.

“To the Wonder” é o vento, um cavalo que quer e não quer ser selvagem.

É Paris comovente e frágil. É Paris suja. A América honesta.

“To The Wonder” é quando o amor nos ama e eu e tu somos um. Um só e depois, um irredutível depois, dois outra vez.

“To the Wonder” é um filme onde se ouvem vozes. E línguas, polifonia amorosa.

Luz e lama. Caridade e violência. Um filme que reza por nós. A Europa e a América.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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20 respostas a To the Wonder

  1. Um filme imensa, desmesuradamente belo.

  2. cc diz:

    Estava aqui à espera da sua crítica ao filme…claro que queria vê-lo mas faltavam estas suas palavras, sobretudo depois do que tenho lido por aí.
    http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5408025.html

    ~CC~

    • Não li nada do que se escreveu, a não ser a excelente crítica de Richard Brody, na “New Yorker” e um magnífico texto publicado na Los Angeles Review os Books, do L.A. Times. Texto cl´ssicos, canónicos e exaltantes. Estão na net.
      Veja, claro, e não se deixe enervar pelos espectadores que saem ao longo da sessão. A beleza, hoje em dia, incomoda muito.

  3. marie diz:

    E é a Eternidade filmada como só Malick sabe. E é tudo o que aqui disse, que é a Eternidade contada como só o Manuel sabe.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Marie, de eternidade sei pouco mais de meio-século… Obrigado pela simpatia

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Não saí a meio da sessão e fruí de um Melick do qual tinha saudade. Obrigada por trazê-lo aqui.

  5. Olinda diz:

    ainda só tinha lido críticas negativas. agora sim, aparece entusiasmo.

  6. nanovp diz:

    Manuel, já vi, mas tens toda a razão que vou ter de ver outra vez, ainda não consigo verbalizar essa beleza que me entrou pelos olhos adentro…

  7. Põe-se a escrever estas coisas e de mariquinhas que sempre fui fico logo nem sei como. E nem filme tenho para ver… que nervos! Acha bem?

    Ps: já li o The Cinematic Miracle of “To The Wonder”, do Brody, mas o outro, qual é que não nos fez o favor de dizer?

  8. Palavras tão belas as suas como sempre e imagens belíssimas que não me saem da cabeça
    Vou aceitar a sua sugestão e vou ver outra vez 🙂

  9. Por muito que possa discordar (é só um suponhamos, ainda não vi), tanta paixão é contagiante, logo inquestionável. É sempre bom ouvir alguém a falar de um filme que amou. Refresca os olhos.

    • Tu bem sabes, Pedro, que eu não acredito no debate, em opiniões, na troca de ideias, etc. Acredito no amor que se tem. A alguém, a uma obra, um filme, a uma árvore, a um cão ou cavalo. É esse amor que faz andar o mundo. É impossível amar tudo, mas, até por isso, a nossa vida, tão pouco é o tempo, deve centrar-se no que amamos. E tu, acreditas no amor, Pedro?

  10. 180 páginas de absoluta crença, meu caro.

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