Todo o mundo numa Aldeia

aquilino-ribeiro-05

Aquilino Ribeiro, a sua vida foi norteada pela liberdade e pela universalidade

Há muitos anos, mais de 50 por certo, pela mão de meu avô, vindo dos Alhais onde estava de férias, cheguei à casa de Soutosa. Um homem baixo, que me lembre baixo e largo, recebeu-nos à porta, no cimo de umas escadas que então me pareceram muito altas. Disse-me qualquer coisa, a que não respondi certamente, uma vez que bem lembro de meu avô me ralhar brandamente:

– Então, rapaz, não dizes nada?

Eu embatuquei e, que me recorde, nada disse. Talvez o homem me tivesse passado a mão pela cabeça, para logo se emaranhar por uns corredores escuros dos quais estava eu obviamente excluído. Sentei-me no topo das escadas – que hoje sei não terem mais de meia dúzia de degraus baixotes – a esgravatar entre as pedras e a remoer a deceção que me causara a figura do dono da casa. Tinha um ar da terra, um ar rústico para quem, como eu, vindo da cidade, se habituara a medir estatutos apenas pelo aspecto; e além disso parecia rude, não era elegante. Era aquele o escritor? O autor da, para mim já célebre, salta-pocinhas? Durante horas a fio da minha curta vida tinha ouvido meu avô, a minha tia, a minha mãe ‑ acho que toda a gente em minha casa – a ler-me O Romance da Raposa; o meu avô sabia de cor uma série de parágrafos inteiros, senão de capítulos. E aquela ‑ meu Deus! ‑ não era a ideia que eu fazia de um escritor, de um homem vivido, que tinha sido quase tudo na vida, de quem meu pai comentava, à porta da Bertrand, ser candidato ao Prémio Nobel. Aquela era uma figura simples e muito traiçoeira para quem ousasse julgar alguém pelo aspecto.

Talvez nessa altura eu já conhecesse Aquilino pessoalmente, mas foi a primeira vez que o relacionei com o autor de quem se falava. Aquilino, o escritor, nasceu-me tinha eu cinco anos.

 

Algumas vezes voltei à Soutosa e à casa do Bairro de São Miguel, em Lisboa, penso que do seu filho Aníbal, onde também o vi. Não muitas vezes, que a morte o levou mal eu me podia orgulhar de conhecer o primeiro escritor ilustre. No Chiado, na Rua Anchieta, já dera também com ele e com outros ‑ alguns só anos depois viria a saber da valia: o Cardoso Pires, o Nemésio… e até o Monsenhor Moreira das Neves e um mais obscuro poeta Forjaz Trigueiros. Meu pai tinha um gabinete pequenino na Bertrand onde eu ia por vezes apanhar secas de conversas que se prolongavam por bicas no café «A Brasileira». Mas Aquilino era o único a quem todos tratavam por Mestre. E, na minha já longínqua infância, era eu menos de cinco réis de gente (quando faleceu eu ia fazer sete anos, mas lembro-me de que todos menos eu saíram da nossa casa, então na Avenida da República, em Lisboa, para ir ao funeral e que nesse mesmo dia caiu o teto da estação do Cais Sodré), na minha já longínqua infância, dizia, Mestre era apenas o Aquilino.

 

Numa dessas deslocações à Soutosa – não posso precisar se antes se depois de o conhecer como o escritor, lembro-me de estar com ele e com os meus pais nuns palmos de terreno que tinha diante da casa. A minha mãe, que por sinal é, como meu pai, oriunda das Terras do Demo, do Concelho de Vila Nova de Paiva, fez-lhe um reparo sobre o estado da horta que por ali vegetava. E responde o Aquilino, imagino eu que de olho maroto, pois a frase retive-a, mas não a expressão:

– Ó, Fernandinha, desde que o Salazar foi para o Governo nem as cenouras me crescem.

Pois é deste Aquilino, que consegue numa frase juntar tantos significados, a começar na comparação do «Manholas» ao cavalo de Átila, que vinha com a fama de destruidor de civilizações, que eu quero falar.

 

O seu humor era incontestável, está presente na obra em variadíssimas páginas. Mas ficou na memória de quem o conheceu em variadíssimos episódios. Como quando ele pretendeu dar uma boleia no seu carro ao padre dos Alhais, que ia pé desde Barrelas. Responde o padre, aflito, ao homem que tinha fama de mata-frades e ademais bombista, que não, mostrando a Custódia e dizendo:

– Ó senhor doutor, não vê que eu levo aqui o Nosso Pai?

Ao que o mestre lhe responde:

– E então o nosso pai tem de ir à pata?

Verdade ou não, assim se admirava o Mestre, nos serões do Alhais da minha infância, para onde já íamos de carro e onde já parava a camioneta da carreira que – como dizia Aquilino – lhe trouxe (e cito) «um sopro de modernidade, de progresso, digamos, que não deixou de abalar até os fundamentos a sua sediça estagnação», mas ainda sem estrada alcatroada, sem eletricidade e água, e sem as influências, boas e más, da televisão e da instantaneidade.

A aldeia não era, de facto, global.

Mas os valores que ali se defendiam, dos Alhais à Soutosa, por onde se marcavam os passos de meu avô, como antes os de meu bisavô, que não cheguei a conhecer, para os encontros com Aquilino, esses valores eram universais.

O próprio escritor confessa que a alameda que o levou ao exílio lhe foi aberta por meu bisavô, António Maria Monteiro. Aquilino di-lo no prefácio impresso do volume de contos Quando ao Gavião Cai a Pena (1935), onde escreve (e cito):

«Presumo que V. teve ainda uma influência apreciável na evolução do meu sentir político. Havendo nascido com alma republicana, é natural que a sua dedada se imprimisse na cera branda que eu era. Por esta alameda fui parar três vezes ao exílio, mas não me choro. Não é por vício de conformidade que hei de dar contas a Deus. V. Monteiro, é o cidadão da República por excelência…».

Pois foi este meu bisavô quem contou a Aquilino a história de O Malhadinhas. Convenhamos que aquele António Malhadinhas, de língua ponteira, como a faca que trazia à cinta, sendo obra de Aquilino, é também muito filho da terra. E eu, que tenho as costas todas nesse concelho de Barrelas, vos juro que tenho dentro de mim um pouco do Almocreve, que vou reconhecendo nos antepassados, nos colaterais e nos descendentes. Gente de boa cepa, talvez um pouco puxada ao exagero, de exaltações rápidas, perdões imediatos, sonhos grandes, pequenos feitos e coração puro.

«Não é por vício de conformidade que hei de dar contas a Deus», escreveu Aquilino, que além do mais era meu parente. E não foi, isso é seguro. A tranquilidade da consciência era o objetivo maior de Aquilino e dos seus íntimos. Nem que para isso a vida fosse de exílios e querelas, prisões e incompreensões.

«Dado que reconheças o rapazinho que aparece aqui a representar, permito-me presumir que o teu foro, sem mesmo ser o justiniano, conceda ao meu trabalho alvará de correr», escreveu, em 1948, Aquilino a meu avô, na dedicatória impressa em Cinco Réis de Gente. Esse rapazinho, então com 63 anos, é lá no fundo sempre o mesmo inquieto e atento, audaz, mas com a prudência dada por aquela terra onde sopra «no corrume dos ventos o mesmo cieiro e boizanas». A sua divisa era «Alcança quem não cansa» e como epitáfio desejava apenas «mais não pude». Ora digam-me se não é este um programa de vida, quando bordejado com os valores acima referidos, ao qual só os mestres podem aspirar? Ele cumpriu-o.

E se deu contas a Deus, a Esse em quem pensamos instantaneamente, ou a outro que seria só de Mestre Aquilino, lhe há de ter referido que mais não pôde. E se Deus foi justo, há de lhe ter respondido que até Ele, o Todo-Poderoso, teve de descansar ao sétimo dia, porque há mais na vida para fazer do que um Deus pode alcançar. Cerca de 60 livros em 50 anos exatos de uma carreira literária que começou com escassos 30 anos, num Jardim das Tormentas, tirante – como ele dizia – conferências, colóquios e papelada diversa, o trabalho regular a que se viu obrigado nas aulas e na Biblioteca Nacional e ainda… o trabalho de jornalista.

O seu vocabulário é difícil, mas mágico, como apenas podem ser os que conhecem não só a natureza profunda das coisas, como a natureza propriamente dita – os lobos e os gritos de «À côa», a mansidão das vacas e o chiar dos carros, a neve, o chuvasco, o frio, as árvores, as folhas que são levadas pelo vento, que é «um pincha-no-crivo devasso e curioso» como escreve nessa obra-prima de começar um livro que é a primeira linha de A Casa Grande de Romarigães. Mais do que regionalismos, são palavras cultas e eruditas, que por vezes custam a compreender. Porque Aquilino era da terra com o sentido no Mundo, e era do Mundo com o sentido na terra – como se deve ser.

Casado em França com uma alemã e, mais tarde, com a filha de um ex-Presidente aí exilado, filho mais novo nascido em Bayonne, tendo vivido na Alemanha e na Espanha, tendo estudado na Sorbonne, sendo tradutor de grego, latim, francês, espanhol e o que mais fosse, Aquilino não pode ser redomado nas Terras do Demo. Ele sempre foi um homem cosmopolita e isso até lhe trouxe certos dissabores na terra, como os que teve depois de casado com Dª Grete, senhora que usava calças e tinha modos que nos anos 10 do século passado eram como o diabo numa aldeia. Nem a sua mãe, Mariana do Rosário Gomes, lhe caía no goto tal modo de ser. E lá palmilhava ele e Dª Grete para casa de meu bisavô, nos Alhais, onde ambos se queixavam do atraso. Ali eram também cidadãos de todo o Mundo. Não o contrário! – jamais se submeteram à mesquinhez, ao que de retrógrado aí existia.

Quando nasceu o escritor era o mundo muito diverso do que é hoje. Falando de aldeias, a diferença é abissal. Ele próprio descreveu o aldeão dos seus tempos melhor do que ninguém (e perdoem-me a longa citação extraída de Arcas Encoiradas:

«A fazendinha de regadio produzia-lhe o linho de que fazia os lençóis, a camisa, os sacos, as calças de Verão e até a mortalha. As ovelhas davam-lhe a lã de que urdia o burel em que talhava a andaina, capucha, barrete e meiotes. Este burel, batido nos pisões, com mais pisadura ou menos pisadura, adaptava-se aos diferentes graus da sua necessidade: impermeável para a chuva; leve para as festas; rala – a chamada serguilha – para aventais; entretecido com trapo, para mantas da cama. Noutros tempos eram os pastores que confeccionavam os botões, recortando-os no chifre, atrás do gado. À parte as brochas para os tamancos e o cabedal para as encoiras, o serrano estava-se marimbando para o filibusteiro. Que mais precisava ele? Não precisava de remédios, e se adoecia era tratado pelos simples à maneira dos lusitanos».

Hoje, já depois da camioneta da carreira e de tudo o que se lhe seguiu, incluindo dramas que não vêm ao caso, a aldeia deixou de estar isolada, de ser singular, de ter ritmos e rituais. Assim ganhou o progresso, mas assim perdeu a magia, as suas figuras e os seus figurões, as suas idiossincrasias e manias. A aldeia perdeu-se, sem elogio fúnebre nem dobre a finados e não fora Aquilino, como Torga e felizmente outros mais, nada nem ninguém saberia hoje o que lá se passava noutros tempos.

Aquilino está ele também esquecido? Não creio. Sobreviveu e sobreviverá. Quem desapareceu foram os que lhe tentaram tolher os passos, os que o prenderam e perseguiram.

Nemésio escrevia-lhe, numa carta de 1936: «Entre parêntesis, deixe-me dizer-lhe que estou farto de Universidades até aos olhos. Não é o trabalho de investigação que me assusta, nem sequer as horas de palestra preparada que se reservam aos rapazes, e em que a gente aprende tanto como ensina. Mas é verdadeiramente insuportável esta comédia burlesca a que o sórdido ressentimento dos Romões e dos Cordeiros nos obriga: doutoramentos, concursos, psitacismos. Com isso é que não posso decididamente mais!». Ora vá-se lá saber quem são estes Romões e Cordeiros, dos quais ninguém se lembra, sabendo nós perfeitamente quem é Aquilino e quem é Nemésio. Como ninguém recorda o nome dos prémios literários distribuídos a rodos e tantas outras coisas às quais não se dá a pouca importância que lhes é devida. O que sobrevive são  as obras bem escoradas e quero crer que estas de que falamos estão alicerçadas nos grandes valores e nas grandes tradições que as tornam imortais.

Ainda que tenhamos de dispensar o devido cuidado aos arautos de uma modernidade que mais parecem vendedores de facilidades. Hoje é moda não pensar, não fazer esforço,  não exigir trabalho nem punir preguiças. Tudo coisas que estão em contradição com o pensamento e com a obra de Aquilino.

Mas isto são marés ‑ que as há muito mais do que marinheiros.

Por mim, que tenho o orgulho de, ainda que fugazmente, o ter conhecido em pessoa, e com todo o tempo o ter visitado na obra; eu que assisti ao último suspiro dos Alhais enquanto terra de mistério – e que ainda vejo em Pendilhe, também no concelho de Vila Nova de Paiva, réstias do que foi outrora o tempo; eu que jamais fugi até França em busca de uma mulher, nem nunca cortei os botões de um colete enquanto varejava um pau, compreendo bem a mensagem.

E já começo de recordar com saudades, a aldeia velha, o caminho de cabras, o serão ao borralho. Quando esta melancolia rústica e piegas de casas de granito e chiar de carros de bois, me sobrevém acabo a fazer coro com o António Malhadinhas e a dizer como ele disse: «ricos tempos em que era capaz de tais Áfricas, ricos tempos». Porque bem sei do que tenho saudades. Não é da aldeia dessa altura, é de mim próprio nesse tempo.

 

*Texto e foto publicados no Expresso, no dia 27/4, na altura em que se comemoram os 50 anos da morte de Aquilino

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Todo o mundo numa Aldeia

  1. Bela evocação. Gostei de te ver sentado na íngreme escadaria que hoje são só meia-dúzia de modestos degraus.

  2. celestemartins diz:

    Quando se fala de Aquilino Ribeiro, independentemente dos livros que publicou e que lemos, alguns com o gozo incontido por os sabermos proibidos como o “quando os lobos uivam” lembra -me com saudade e devoçao de uma das últimas palestras que deu, talvez uma semana antes de falecer..

    Essa palestra teve lugar num salão do Algés e Dafundo e a assistir estavamos não mais do que 6 pessoas Nessa altura, muito antes do 25 de Abril, até para ouvir um Homem desta estatura, era preciso não ter medo!!! O salão era, grande, com imensas cadeiras, vazias, e nós num quase semi-circulo, na sua frente, ouviamo-lo quase religiosamente. Esta recordação e a imagem frágil e de voz serena fez-me ter vontade de partilhar esta belissima recordação!!!

    • José Marques Vidal diz:

      Caro Henrique:
      Honra às Terras do Demo e sua gente que continuam vivas nas obras de Aquilino, perseguido pela intolerância dos Pides e pela imbecilidade dos incultos post Abril que o postergaram das páginas das selectas do ensino de português.
      A sua recordatória é um primor de sensibilidade.
      JMVidal

      • Henrique Monteiro diz:

        Conselheiro, sempre atento, como é próprio. Quem foi juiz em Moimenta sabe de que fibra são os homens.

    • Henrique Monteiro diz:

      Grande recordação, Celeste. Obrigado

  3. Angelina Lemos diz:

    Conheci o Mestre Aquilino Ribeiro, pessoalmente. Era um Homem muito respeitado nas Terras do Demo. Nascemos na mesma freguesia. Eu nasci em Tabosa do Carregal. A minha Selecta Literária, que ainda tenho, dava-o como nascido em Carregal de Tabosa. Estava trocada a freguesia, o que me dava muito orgulho, perante os meus colegas. O meu pai, falava-me muito dele e eu “devorava” os seus livros, pois a linguagem aplicada, com montes de regionalismos, eu entendia-a. Faleceu, estava eu a frequentar o antigo 5º ano do Liceu, no Externato Infante D. Henrique em Moimenta da Beira.

  4. Antonio A. P Teixeira. diz:

    Obrigado Henrique Monteiro pelo testemunho aqui relatado e também pela homenagem que é prestada a tão ilustre escritor e Beirão. Também eu, nascido nas terras do demo-Mondim da Beira-, me sinto orgulhoso por ser conterrâneo de Aquilino Ribeiro. Foi o meu pai, que o conheceu pessoalmente, que me deu a conhecer a sua obra. E apesar de ter rumado ao Porto, ainda menino, sempre alimentei o desejo de conhecer a sua casa em Soutosa. E foi já muitos anos depois que o fiz num dia de Primavera. Entrei num portão largo que dava para um pátio onde existiam as tais escadas. Subi acompanhado por um homem seco que era o guardião da casa. Ficou-me na memória o terreiro, a casa e uma cerejeira mesmo ao lado, carregada de cerejas maduras.

  5. Gostei de recordar o Aquilino e mais gostei recordar como trambolhei par dentro do universo de Aquilino. Tudo se me volta,no turbilhão neuronal,para umas esfusiantes corridas,entaladas entre a Primavera e o Verão,dos passos-ritmados ,entre-o-mar-e-areia. A minha biografia biológica ia pelos “teens” anos,e eu era um caprichôso estudante-de-liceu: “negas” às disciplinas de que não gostava ou detestava oos “profs”,e notas de 2 dígitos a saltar os 15´s. Os meus pais não encontravam remédio para me recentrarem na coerência do estudo. E é aqui que,num salto de gigantone,aterra na vida académica,um vizinho,professor,explicador celebérrimo com fama de mau-feitio que transbordava para-lá a órbita-da-Lua. Tudo nele era enorme: as mãos,os pés,o corpanzil e a voz. Eu mal me equibrava,nas bordas do cagaço,quando ele me plantava,sózinho,na sala do rés-do-chão,e apontava para a pilha de livros,ultra-dedilhados,e troava: ” Daqui a a 1 hora,quero saber o que se passa com as Leis de Newton e com o capítulo dos gases das Leis de Boyle Mariotte ” ! Batia com a porta-da-sala e
    ia-se. E eu ia ficando e lendo com método,horário e disciplina coisas,absolutamente espantosas àcerca da tecitura da realidade,que era nuito mais densa que a descrição pagélica,daquela mentecapsia que me tinham metido,pelas-orelhas-dentro nas catequeses dominicais. Aquela fórmulas funcionavam deliciosamente abstratas e sem Demiurgos,barbudos,super-voyers,a manietarem-nos. Um dia troquei os livros. Embrenhei-me num capítulo da “Matéria” do 5º ano,em vez do outro que me estava destinado,do 3º ano. Quando o gigantones do Prof.Carlos da Fonseca me voltou a saltar pr´o meio-da-sala,franzindo o sobrôlho,arregalando os olhos e coçando o queixo,fiquei desconfiado esperando que ele soltasse um dos seus lendários berros amarrotando-me o fundo-da-alma apodando-me de ” _ Seu grande burro ! “. Mas não. Aproximou de mim a cabeçôrra,como vê uma alforreca sem latinismo que a descrêva,e numa voz calma,perguntou ? ” Quando é que leste isso tudo ? Agora ? ” . Que sim,lá respondi eu. Muito bem. Amanhã trazes toalha e calção-de-banho. E no dia seguinte,a sala-de-explicações era uma das praias do Mundo,ali por Leça. A espôsa,a Profª Noémia,bordava um arabesco regular,deliciadamente recostada numa cadeira-de-praia,com uma capeline de abas enormes. O ar ia adensado,pela maresia,cheirôso pelo iôdo,e o sol raiava numa mornice que transformava aquele bocadão-de-costa na comichão-mental de uma placenta infinita. Antes da ignição muscular,o Professor deu-me uma única instrução,flutuada num sorriso que lhe punha,à-mostra,um estranho dente-de-ouro:
    ” Relaxa o corpo,atira a alma acima daquelas gaivotas,e toca-a-correr entre o Mar-e-a-Areia ! “.
    E lá me larguei em deliciosos chapinos,seguindo-o. Então ele acena-me com a mão e faz sinal para que me coloque lado-a-lado. ” Entre o mar e a areia…” sabes quem escreveu isto ? (Que não…dizia eu)
    Foi o Aquilino Ribeiro. Naquele livro da 3ª prateleira da estante lá-de-casa. Amanhã leva-o. Chapina-o e conta-me tudo. E lá desatou a citar Aquilino…Mestre Aquilino…numa ressonância cósmica. Foi nessa tarde,em que descobri que o ritmo das frases, tinha o ritmo das passadas entre-o-mar-e-a-areia,e que toda a Arte assenta e levanta da teluridade donde tudo brota,desde o corpo à alma dos homens. Somos filhos-da-terra. Bichos-da-terra,que se levantam e erguem até ao brilho dos deuses,coruscando como seres-de-luz,pirilampando sob as estrêlas. Afinal,a Literatura era uma modalidade da Astronáutica,e o “Flash Gordon” começou a parecer-me um imbecil.
    Depois,as “explicações” engordaram para métodos muito mais interessantes. Ele pegava no violino,que repousava numa mesinha-de-canto,e desafiava-me a encontrar o ritmo das fórmulas e dos textos,no alinhamento das notas das cordas. Outras vêzes,deixava-me empunhar uma espada,que
    se alongava,elegante,na parêde,que eu volteava-a ao ritmo das longuíssimas listas de refregas e batalhas,que atolhavam a lista-telefónica do infindável belicismo europeu.
    Somos pó-de-estrêlas. Atesta-o a Tabela-Periódica-dos-Elementos.
    Somos pó-de-estrelas,argamassado em telurismo,que,pela Arte procura o regresso a casa.
    Arquilino Ribeiro é um dos grandes arquitectos dessas naves literárias que nos permitem a ignição estética,de-volta às nossas Ítacas.
    Soube-o,pela primeira-vez,ao correr entre-o-mar-e-a-areia,acertando o passo com um gigante que o recitava,deliciado,acima da gritaria décibélica dos bandos das gaivotas.

Os comentários estão fechados.