Um braço a mais

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Quem disse que a falta, qualquer falta – neste caso a falta de intimidade – não pode resultar de uma presença a mais? Quando Vittoria (Monica Vitti) conhece Piero (Alain Delon), o corretor da sua mãe, na Bolsa de Roma, encontram-se separados por um enorme pilar de cimento. E assim permanecerão ao longo de O Eclipse – a barreira física que separa os dois protagonistas representa a impossibilidade do encontro e a incapacidade de viverem o amor. Na bolsa de Roma, onde as pessoas falam alto, ninguém é ouvido e ainda menos compreendido. O corretor que morreu com um enfarte teve direito a um minuto de silêncio, interrompido pelo toque contínuo de telefones (“um minuto aqui custa muitos milhões”, explica Piero, que vive apaixonado pelos números e pela bolsa, que é onde as coisas acontecem). Aqui, o coração e os sentimentos não estão cotados ou, pelo menos, estão em baixa. No entanto, para trabalhar na bolsa é preciso ter um coração forte e há mesmo um corretor que diz “os clientes bons não têm o coração frágil”.

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Eles são jovens e belos (além disso, ele ainda é rico), mas não conseguem formar um par amoroso. O coração de Piero parece congelado e a lucidez de Vittoria magoa-a. Desorientada e, sobretudo cansada, em conversa com uma amiga diz que emagreceu interiormente e comenta com a vizinha que veio de África: “aqui tudo é complicado, até mesmo o amor”.

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Quando os seus corpos se aproximam, Vittoria repara que no abraço deles há sempre um braço a mais: ou é o dela ou é o dele. Os obstáculos, esses vão mudando de nome: além do braço, é o portão de ferro, a porta de madeira do quarto, são as cortinas, o vidro da janela, mas sobretudo o silêncio.

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Eles não estão bem em lugar nenhum, nem no silêncio que tocam, nem nas palavras que trocam. O vazio está omnipresente e enquanto ele tem a sensação de estar no estrangeiro defronte de uma paisagem, ela responde que é ele que lhe provoca essa sensação. O vazio e o tédio ligam-nos de forma frágil, tanto quanto a solidão os afasta. Ela queixa-se que ele a trata como a uma visita. Neste eclipse dos sentimentos, humanidade rima com incomunicabilidade.

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Devorados pelos cenários, o par que não o chega a ser move-se à deriva. Os seus corpos desenquadrados parecem condenados a não se tocarem, como se não fossem de carne e osso. Vittoria e Piero prometem encontrar-se todos os dias, sempre no mesmo lugar, mas a noite cai e nenhum deles aparece. Os cenários – a passadeira junto a um prédio em obras, os descampados e outras paisagens fantasmagóricas, permancem. Ele e ela eclipsam-se, para não mais os voltarmos a ver. Indisponíveis para amar, nunca saberão que o outro também não apareceu, neste desencontro perfeito. Se ao menos alguém pudesse ir a correr contar-lhes isso.

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Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.

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18 respostas a Um braço a mais

  1. Se calhar porque esta não é uma história de amor, o obstáculo são eles, não as circunstâncias. São apenas duas pessoas, como a Maria João diz, jovens, belas, que naturalmente querem amar e ser amadas. O eclipse é o do próprio amor. Gostei muito.

    • Maria João Freitas diz:

      Eugénia,
      Ao contrário dos eclipses solares e lunares, o eclipse do amor é bem mais frequente.

  2. Valeu a pena esperar, Maria João.

  3. Olinda diz:

    afinal na perfeição do desencontro há comunicação. há encontro.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Que bom lê-la! Nos desencontros dos enamoramentos, quantas vezes o amor pelo outro é substituído pelo amor ao amor.

    • Maria João Freitas diz:

      Maria do Céu,
      A ocasião pede uma citação do La Rochefoucauld: “Há pessoas que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar no amor.”

  5. nanovp diz:

    Não deve haver metáfora como esta sobre o amor egoísta que se nega a si próprio e termina na passadeira silenciosa vazia…queremos mais Maria João!

    • Maria João Freitas diz:

      Bernardo,
      Talvez o Eclipse também seja sobre arquitectura, pelo menos a arquitectura do amor.
      Prometo mais.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Uma mínima correcção: eles não eram belos, eram belíssimos. Só Deus e Antonioni sabem onde e de quê se faz um rosto como o da Vitti. O de Delon inventou-o Luchino Visconti que devia saber do que é que estava a falar.

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel,
      Fez muito bem em corrigir, com um superlativo, aliás dois. Rostos destes não podem ser apenas obra divina, mas de humanos realizadores. O Alain Rocco Tancredi Delon não foi a única invenção masculina do Visconti. Não terá ele também inventado o Helmut Ludwig Konrad Berger? E até há quem diga que foi Visconti que ensinou a Maria Callas a … andar.

  7. Belo texto!
    Gostei muito e deu-me vontade de ver este filme do Antonioni 🙂

    • Maria João Freitas diz:

      Ana Rita,
      Aproveite e veja os três (que formam a trilogia da incomunicabilidade).

  8. Teresa Conceição diz:

    Que bonito, Maria João. Gostei muito.

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