Uma esmerada deseducação

Peder Severin Kroyer, Summer Evening at Skagen, 1892

Peder Severin Kroyer, Summer Evening at Skagen, 1892

O PRÉMIO

O meu avô e a minha avó eram tão diferentes quanto um homem e uma mulher podem ser pelas definições da natureza e das circunstâncias. Onde um era baixo, a outra era alta. Se ele era moreno, ela loira. Olhos líquidos de pretos e verdes de musgo.

E no resto. O pai deste meu avô, o meu bisavô Manuel, aquele que tinha um pato de estimação que ia com ele para todo o lado, era um homem pequeno, seco e compacto, o cabelo era uma escova branca e rija, e de uma voz baixa e mansa cuja autoridade se fazia ouvir por todos os lados, na pontualidade, na distância do respeito e em mais que tudo no silêncio em volta. Tinha de ser assim, foi ele quem recusou o que a vida lhe deu de herança, nada, para inventar uma vida para os filhos que havia de ter. Queria-os sólidos para garantir que aguentariam caso, como nas casas dos três porquinhos, o lobo soprasse forte. Queria-os, sem liberdades, para a engenharia, coisa segura.

Porém, o seu filho mais novo, o meu tio António, tenor e doente de nascença, encheu-lhe a casa de música e do raio daquela inexplicável doçura de quem ama e vê a beleza toda pelas frestas do quotidiano, talvez por saber que cedo vai perdê-la. O meu avô era igual no desalinho da carreira, apaixonado pelo desenho e pela pintura, e adorava o seu irmão António – digo assim porque era assim que ele dizia, o meu irmão António, a vida inteira ao lado dele esta mancha luminosa e a religião da Deutsche Grammophon para o invocar pelo lado de dentro de outras vozes, talvez mediúnicas.

Ora, o meu bisavô não podia dar-se ao luxo de educar estetas e, ao meu avô, fechou-lhe as portas das Belas Artes. O meu avô desde esse dia não riscou um traço. E tinha uma grande implicância com o amadorismo e a criatividadezinha.

Uma vez, há muito tempo, era pequenina, ainda existia a 4ª classe, ganhei um prémio. Naquela altura chamava-se fazer redacções. Num máximo de 25 linhas tinha de contar-se uma história. A Irmã mandou-me fazer o texto, todavia deu-me indicações precisas: não quero cá os temas que costuma escrever, ouviu? Trate de fazer um conto como os de encantar, fadas, percebeu? E que ninguém morra, muito menos afogado, ninguém adoeça, nem fantasmas, nem criadas, nem a Nossa Senhora, nem panelas de pressão, e não quero lá a vida de gente crescida.

Segui quase todas as instruções – da morte é que ninguém escapa: fiz a redacção e ganhei o prémio. A coisa foi para jornal.

E o meu avô disse-me: fico muito contente que tenha ganho o prémio para o seu colégio. Mas teria muito mais orgulho em si se o tivesse perdido.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a Uma esmerada deseducação

  1. Ó que tão bonito! O bisavô e o avô. E onde é que anda essa redacção? Não quer mesmo arrancá-la lá desse fundo do baú e trazê-la aqui? Não a encontra? e que interessa, reinvente-a.

    • Os meus queridos mortos estão-me muito vivos.

      Sabe que anos depois, um dia, visitei esta professora, a mais exigente que tive na vida – era freira e ainda estava no ensino, na altura. Tinha um quarto singelo. Algumas coisinhas penduradas na parede, entre elas a redacção. E isso sim, foi uma lição inesquecível: o que para mim tinha sido primeiro uma cedência, a seguir uma vitória, depois um embaraço, estava ali como uma alegria/satisfação pessoal. Fiquei pasma.

  2. riVta diz:

    sim sim reinvente ainda por cima gostava de patos vá lá …

  3. Fatima MP diz:

    Eu queria mesmo era ler a redacção. Vá lá … ficámos cheios de curiosidade. O que eu gostava tb de fazer redacções! Logo aí, tinha sempre uns belos pontos assegurados para a classificação do teste de Português. De repente bateu uma saudade … efeitos tb do Moustaki

  4. Mário diz:

    Um dos maiores choques que temos, ao crescer, é quando nos apercebemos que as pessoas que preencheram a nossa infância, de momentos carinhosos e atenção insuspeita, têm, afinal fragilidades. E nem sempre nos fizeram bem. E nem sempre nos deram bons conselhos. E nem sempre conseguem esconder preferências. Por um filho. Por um neto. E custa. Mas depois somos pais e começamos a perceber a natureza das coisas. São as dores de crescimento.

  5. nanovp diz:

    Eugénia olhe que “ver a beleza toda pelas frestas do quotidiano” é muito bonito mas só para alguns…sorte a sua de ter herdado esse sangue…

  6. Talvez o seu Avô estivesse certo, mas, se sim, teria a irmã guardado a sua história?… Ou temos uma graça ou temos outra, acho eu.
    Gostei imenso, claro.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Magnífico avô, magnífica lembrança escrita.

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