Valha-me Deus que é milagre!

VALHA-ME DEUS QUE É MILAGRE! EQUÍDEO…

A minha avó tinha um humor, vá, queirosiano. Não lhe bastava a presença impressiva, o sorriso que nos deixava a pensar, terá achado graça ou uma desgraça, ser uma mulher, que diabo, há que dizê-lo, bela e ter um pulso férreo. Não, tinha de ter aquele humor. Explico. Era de uma grande implicância com a Igreja Católica em geral e com Fátima em particular. E não acreditava em Deus. No entanto, atirou comigo para um colégio de freiras – estou convencida de que não me enfiou num convento porque o ar do tempo era outro, tivesse nascido 100 anos antes, e zás, clausura.

Azarucho do caneco, saiu-lhe por neta uma beatorra do piorio: cresci com o gosto dos santos, a paixão pelos registos, os roliços barrocos, o drama dos ex-votos, e com uma loucura por água benta e de beijar o pézinho do Menino, factos geradores de tal incompreensão repulsiva que anos depois, uma vida, ainda me abanam os tímpanos com os agudos da indignação: parece que é parva, que nojo, não há milagre que limpe esses viveiros de doenças, que nojo!

Isto porquê? Liguei a televisão. Zapping noticioso. Peregrinos chegam a Fátima. Ora, Fátima e eu é um tu cá tu lá. Aquela Loca do Anjo dá-me cabo de séculos de racionalidade num segundo – apesar do anjo ter o cabelo igualzinho ao do Vegeta. Isto para não falar dos outros altares Marianos do mundo. E o que nem conto? E o Rocío? Enfim, desgraço-me. Ao que queria lembrar.

A minha avó tinha farpas, perdão, frases extraordinárias. Uma vocação perdida para o sound bite. E para uma descrente recorria sempre a Deus em cada uma delas. Era crescidota eu. Pareceu-me que teria mais hipóteses de sucesso se informasse em vez de pedir: Avó, olhe, como gostava muito de ir na peregrinação a cavalo, a Fátima, se calhar ia já para Évora.

– Valha-me Deus, ainda nem estamos a 13 de Maio e já se deu um milagre: uma burra a cavalo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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18 respostas a Valha-me Deus que é milagre!

  1. adelia riès diz:

    😀 adorei. Faz-me lembrar da minha uma anti-clerical dos diabos. Bem Haja, a.riès

  2. Do melhor… Sobre o Rocío de las Marismas escrevi um texto na revista do Expresso a que chamei «Nossa Senhora do Exagero»… Mas diverti-me imenso, entretanto…

    • Ó António… então está à espera do quê para plasmar isso aqui?

      Sabe que durante anos enviei conjuntos de textos para o Expresso. Da última vez em que o fiz, ia um sobre o Rocío.

  3. Isto parece-me tudo um bocadinho herético, mas é uma benção de Deus. E à sua avó, anjos e arcamjos não a devem largar. Tudo à volta à espera que ela se saia com as farpas.

  4. Teresa Conceição diz:

    Essa avó é que é um milagre, Eugénia.
    Que texto tão divertido. E que selecção de ilustrações. E que fantástica punch line.

  5. Ivone Mendes da Silva diz:

    Uma avó com humor queirosiano é o que de melhor pode calhar a alguém.

  6. nanovp diz:

    E logo hoje dia de milagres….com ou sem cavalos…

  7. riVta diz:

    que rica avó! o que eu já me ri.

  8. Mário diz:

    Introduzir a personagem Vegeta não lembra ao Diabo 🙂

    E se toda a história das aparições de Fátima fosse contada nas mangas japonesas? Com parecer científico da Eugénia, claro está 🙂

    • Vê, descobriu o meu humor… E gosto de manga.

      • Mário diz:

        Descobrir implica percebê-lo? Acho que ainda não estou lá. Não é que não ache piada, mas não sei se é a piada que devia achar. Ou se acho piada ao que não devia ter piada. Ou ao contrário.
        A manga vai bem com fondue.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Os milagres são a única certeza da vida.

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