Vijay

Num mundo hiper-real de tendências depressivas, a música ainda tem o poder de nos surpreender.  O ouvido deixa que os sons entrem, e a mente agradece embevecida. Sentimos um calor que arrepia, uma sensação de que os pés se levantam do chão. Passados minutos estamos, com os músicos, a viajar, sem que tenhamos de saber tocar.

É o bom de ouvirmos música ao vivo, ali ao lado, a ver os dedos que mexem, o corpo que balança, sem traduções físicas ou sonoras.

Vijay Iver foi  artista jazz do ano em 2012, o seu trio foi grupo Jazz do ano, o último álbum “Accelerando” foi álbum do ano. Mas nada disso seria importante se Vijay e o seu trio não fossem eles mesmo, e genuinamente, músicos  superiores, e por isso também, com os pés bem assentes na terra.

O concerto que deu na Culturgest foi uma lição de como a simplicidade é um sentimento, que pode ser musicalmente complexo, e a música uma linguagem universal, ou perto disso, até porque Vijay, filho de emigrantes Indianos Tamil, representa essa “globalização” do Jazz que já chega à Asia e a Amesterdão.

E acordamos convencidos de que afinal há uma parte do mundo que se move,  com força e energia positiva. Precisamos é de orientar o olhar, digo o ouvido, para aquilo que interessa. Porque há muito ruído e barulho por ai.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a Vijay

  1. Que bem trazido, Bernardo, desconhecia.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Meu amigo: gostei. mas, sem querer fiz play ao mesmo tempo que fiz play no post do P Norton sobre os Doors. O resultado foi intrigante.

  3. nanovp diz:

    UAU….um quarteto em cima de um trio….

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