10 anos de sardinha é História

sardinhaLisboa tem finalmente um símbolo tão popular como o seu santo mais popular: a sardinha. Azar dos corvos que acompanharam São Vicente, o padroeiro oficial, desde o seu martírio até à bandeira da autarquia. Mas os corvos não conseguem competir com a sardinha do Silva (da Sivadesigners) do mesmo modo que São Vicente não consegue competir com Santo António. Os primeiros são emproados, heráldicos e oficiais. Os segundos são lisboetas, coloridos e populares; como é Lisboa, apesar do cinzento dos tempos.

Eu gosto dos corvos, sempre gostei, e da bandeira a preto e branco onde se desenha a luz e a sombra que se projectam pelas ruas de Lisboa. Mas a sardinha do Silva, colorida, warholiana e panfletária é tão irresistível como o cheiro das sardinhas a assar na brasa do carvão. Também gosto do São Vicente e da sua história de martírio e corvos, mas o Santo António, um dos maiores intelectuais do seu tempo, professor em universidades europeias no princípio do séc. XIII, um intelectual popular e uma exportação lisboeta é imbatível.

Voltando à sardinha de Lisboa, desenhada pela Silvadesigners: tratou-se de uma encomenda da EGEAC para o símbolo das festas de Lisboa. Dez anos depois damo-nos conta de que o logo encomendado pela autarquia se impôs como o mais popular símbolo da capital. É genial. Pergunte-se hoje a qualquer pessoa qual é o símbolo de Lisboa – eu fiz a experiência com dezenas delas – e a resposta será maioritariamente: a sardinha.
Passados dez anos é possível dizer-se que a Silvadesigners fez história. A sardinha é símbolo de Lisboa por “aclamação” e gosto popular. Afinal como foi a adopção de Santo António como padroeiro.

Atrevo-me até a dizer, sem medo de heresia, que não tarda e a sardinha fará parte da iconografia antonina. Afinal Santo António, meditando à beira de um lago acerca das constantes referências a peixes nas escrituras, viu os peixes emergir da água para lhe escutar o sermão. A sardinha faz todo o sentido como iconografia antonina.

Leio numa entrevista dada pelo Silva à Alice que ainda houve a tentação de um dia mudar para outro símbolo. Há sempre uma inquietação criativa nestas coisas da criatividade e do design. Mas felizmente o passo dado foi no sentido de abrir a sardinha à participação. É uma das qualidades das boas ideias, a abertura; como um software que pode ser apropriado, modificado, reinventado.

Dez anos de sardinhas não é obra, é história. Fazer história é que é obra.
Agora é rezar ao Santo António para que um dia não chegue um imbecil qualquer e diga “embora aí fazer um concurso que a ideia está gasta”.

P.S.: A propósito do Santo António e dos tempos que correm, cito a Wikipédia sobre os seus sermões: “Onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social.” Grande lisboeta.

(Escrito a 13 e publicado a 14 no Dinheiro Vivo. Achei que este texto podia vir passear aqui ao EéT)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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9 respostas a 10 anos de sardinha é História

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    As sardinhas estão boas este ano. Engordaram mais cedo. Gosto de um símbolo que além de poder ser tão bem escrito como aqui o Bidarra o escreve, ainda por cima se come – ia lá eu algum dia comer corvos! E sobre o Santo António há um belo livro do nosso António Eça de Queiroz que devia ainda ser mais lido.

    • Pedro Bidarra diz:

      Tenho que o ler que nem sabia que existia. A quantidade de livros que há no mundo enche-me de ansiedade.

  2. nanovp diz:

    É uma bela Sardinha sim senhor…agora há que comê-las…

  3. Olinda diz:

    e fizeste bem em trazer: o texto é tão fresco e fúcsia, boa e lis, como a sardinha.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito bem lembrado. Aplaudo a «sardinha», as sardinhas luzidias de olho arregalado, as sardinhadas.

  5. João Dionísio diz:

    Para quem está a 7200 km de casa a sardinha lembra coisas boas. Obrigado Pedro pela lembrança..

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