21 cartas ridículas

_DSC0236 copyO envelope é vermelho e muito gordo. Também não admira, guarda 89 páginas de cartas.  Mas caso fosse mesmo enviado, caberia nalguma caixa do correio? E quanto teria de pagar em selos? Todos somados, os corações que carrega seriam motivo para uma multa por excesso de peso? Este livro-carta (ou será antes uma carta-livro?) é uma colectânea de textos e ilustrações chamada “21 cartas de amor” (que também é o nome do remetente), cuja venda reverte a favor da Associação Abraço, a sua destinatária. Há um pequeno pudor que nos aconselha: não leias esta carta. Uma carta de amor é sempre e só para uma pessoa e tem um único destinatário no mundo inteiro (mesmo que o envelope não o nomeie). Mas a ficha técnica desmente esse pensamento: a obra tem uma tiragem de 1000 exemplares. Conclusão: estas cartas de amor querem ser lidas.

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As cartas de amor lembram os pratos elaborados dos chefs: demoram muito mais tempo a ser confeccionados do que a ser saboreados. No caso das cartas de amor, elas escondem dois relógios diferentes: o do tempo da escrita e o da sua leitura e é preciso ler uma carta muitas, muitas vezes, quase até a saber de cor, para que o tempo da leitura exceda o da escrita. Tal­vez todos os cora­ções nas­çam nus e se vis­tam com pala­vras, como se fos­sem peças de roupa, quando sen­tem frio. Ou soli­dão. Ou dúvi­das. Ou sau­da­des. É com estas peças de roupa que tapam as cica­tri­zes que nenhum car­di­o­lo­gista até hoje conseguiu tra­tar.

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Os corações que escrevem neste livro pertencem a Afonso Cruz, Ana Bacalhau, Ana Zanatti, António Mega Ferreira, Ethel Feldman, Fernando Leal da Costa, Filipa Leal, Isabel Zambujal, Lídia Jorge, Maria da Conceição Caleiro, Maria Manuel Viana, Miguel Vale de Almeida, Patrícia Portela, Patrícia Reis, Pedro Abrunhosa, Pilar del Rio, Ricardo Adolfo, Ricardo Baptista Leite, Richard Zimler, Rui Zink e São José Almeida, todos abraçados pelo coração gigante da Margarida Martins. E as suas cartas de amor, ridículas comme il faut, falam da infância e da ocitocina, do YouTube e de funerais, de divórcios (“o casamento não é coisa que se faça a quem se ama”) e de migalhas, de rizomas e de neve pintada de preto e são dirigidas a homens e mulheres com e sem nome, à avó, a um menino de 13 anos, a um querido próximo, ao Peter Pan e até há uma carta (“de boas idas”) que ficou por enviar.

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Todas as cartas de amor dizem o mesmo: fazes-me falta. Precisamente o título da última carta, triste e bela (esta mania que a tristeza tem de andar de mãos dadas com a beleza) escrita pela jornalista São José Almeida (sócia nº 14 da Abraço) e ilustrada pela nossa Rita (Roquette de Vasconcellos). E porque as cartas de amor não se escrevem apenas, também se desenham e ilustram, feitas as contas, este livro guarda, no mínimo, 42 corações ridículos. Todos eles a pensar que inventaram o amor (cada carta de amor é sempre a primeira), nestas cartas escritas do passado para o futuro, o único tempo verbal que compreende a palavra esperança. Mesmo que nenhuma delas receba resposta na volta do correio.

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Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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10 respostas a 21 cartas ridículas

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    “As car­tas de amor lem­bram os pra­tos ela­bo­ra­dos dos chefs: demo­ram muito mais tempo a ser con­fec­ci­o­na­dos do que a ser sabo­re­a­dos.” Querida Maria João, isto, se não é uma verdade indesmentível, é bene trovato. Isto é, é o que me parece a mim que não sou dada à epistolografia amorosa. Belo texto.

  2. riVta diz:

    querida Maria João a parte do coração ridículo que me calha deixa-lhe aqui, já e agora um grande ABRAÇO. Obrigada.
    🙂

  3. Tem razão, Maria João, em sublinhar esse fazes-me falta, de São José Almeida com a nossa Rita. Mesmo o amor feliz é feito também da consciência da falta que nos faria: do menos que seríamos se o amor não nos amasse.

    (Sei que estas coisas não se dizem no tempo psicologicamente correcto dos seres completos na sua auto-estima e total independência.)

    Gostei muito.

  4. Gosto muito, Rita. Beijo :-*

  5. Diogo Leote diz:

    Maria João: serei eu ridículo também por gostar tanto deste teu texto?

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Tanta beleza escrita e no descrito!

  7. nanovp diz:

    O ridículo tem muita força…convenceu-me primeiro o texto, depois as imagens e o espreitar o conteúdo…e Rita parabéns !!

  8. O História sem fim reuniu cinco cartas de amor de quem marcou a História. São documentos de diferentes épocas, escritos por personagens de diferentes áreas, vivendo em contextos diferentes. Confira como cada um expressou seu amor e conte: qual é sua favorita?

  9. Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. Afinal, só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor, É que são Ridículas.

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