A boca no trombone

 

CamillePaglia

Chamam-lhe “cultural critic”. Em dias bons, também lhe chamam Camille Paglia e é professora e ensaísta. Escreveu há uns meses “Glittering Images”, um livro em que se viaja do antigo Egipto até ao filme “Star Wars”, através de 29 obras de arte. Na defesa que tem feito do seu livro insiste em alguns pontos chaves fortemente polémicos. Nesta entrevista, em poucos minutos resume-os de forma exemplar. Faço um breve elenco dos principais argumentos, embora o melhor – e muito mais refrescante – seja mesmo ouvi-la.

1. Há uma decadência da arte ocidental equivalente à sua perda de espiritualidade. Paglia diz que a arte sempre teve uma missão espiritual, mas que hoje essa missão se eclipsou.

2. Há, por vezes, uma paródia de sacrilégio, mas que, de forma pusilânime, só se exerce contra esse cordeirinho que é o catolicismo, nunca contra o islamismo ou o judaísmo porque aí a coisa fia mais fino.

4. A avant-garde, a vanguarda, está morta. Enterrou-a Andy Warhol com as latas de sopa Campbell. A arte actual de vanguarda é uma terra devastada e exangue. A criatividade mora noutros lugares, mas não nas artes plásticas.

5. Paglia afirma que Christopher Hitchens é, resumindo a coisa com alguma simplicdade, uma besta. E ataca-o por ser ele a epítome de uma atitude face à religião a que ela chama doença juvenil. E afirma-o com tanto mais convicção quanto ela mesma se reclama do ateísmo. As religiões contêm uma visão do universo e da existência humana grandiosa, assombrosa, e a academia e a vanguarda têm de percber essa dimensão se quiserem ser intelectualmente honestas.

6. A experiência artística exige contemplação, tempo e serenidade e é uma experiência íntima, próxima da experiência religiosa. Os museus e outras festividades não são necessariamente os locais certos para essa experiência.

7. A visão e interpretação post-estruturalista e (para continuar a dizer palavrões) post-modernista, com a sua ideia conspirativa, sempre a lançar suspeitas ideológicas, com acusações de sexismo, racismo e homofobia a torto e direito, é uma forma baixa e burra (e não sei se Paglia disse antes burra e baixa) de diminuir a arte.

 E agora, com um clic, ponham-se a ouvir a Camille.

Watch 107: Cultural Critic Camille Paglia on PBS. See more from WEDU Arts Plus.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a A boca no trombone

  1. Pedro Bidarra diz:

    Sem tirar nem pôr

  2. Vou comparar isto num clic… Bendita Amazon. Esta mulher entende-me!

  3. António Barreto diz:

    Vou ver se faço o mesmo que a D. Eugénia.

  4. nanovp diz:

    Que lufada de “ar t” fresco….já há tempo que não a leio mas agora não posso deixar de o fazer…boa referência para os tempos que correm…

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Tanto gostei das novas que vou-me daqui para o clic.

  6. ai vou ouvir vou 🙂

  7. Daniel AC diz:

    Camille Paglia? A feminista que fala mal do movimento feminista? A que diz que Madonna é o futuro da luta pelo direito da mulher como se isso fosse algo positivo?
    PASSO!

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